“Durante muitos anos dei asas à imaginação criadora por meio da arte e com um grupo de idealistas fomos oferecendo alegria e emoção à quantos quisessem participar no Largo São Sebastião. Começamos tímidos, aprendendo a fazer; e, dentre em pouco, com o êxito do “Natal das Luzes” aprimoramos para “O Glorioso” como nosso presente para os que amam a beleza. 

Passados muitos anos das peraltices de quando éramos meninos levados permanecemos sonhando com a festa do Natal de Jesus como crianças à espera da noite iluminada, dos sinos em dobrado, das preces reconfortantes, das brincadeiras ao redor da Árvore preparada com esmero e carinho por nossos pais.

Antes, no tempo das calças curtas e das tranças das meninas, ficávamos à espreita do Papai Noel que trazia brinquedos e transformava em realidade os desejos mais ardentes que pregávamos em folha de papel com nossos garranjos escritos, como se fosse mensagem para as estrelas, confiantes que a cartinha chegaria ao destino em tempo de ser lida e providenciada pelo bom velhinho.

Depois, vencida a maravilhosa ilusão, esgrimando com a vida, fornos aprendendo o verdadeiro sentido desse congraçamento que se costuma fazer no fim de ano. Compreendemos – e creio que todos fomos descobrindo, cada qual a seu tempo – que a noite de luzes, orações é felicidade em derredor dos símbolos natalinos é antes de tudo de união e pureza de sentimentos.

Passamos a não mais esperar o Noel, mas renovamos esperanças de um mundo melhor, rogamos ao Criador paz e harmonia, pregamos a fé e a caridade, ·prometemos vencer os desafios, ser mais verdadeiros, e lançamos para o amanhã todas as boas energias que conseguimos reunir na hora santa da oração contrita, aspirando saúde, amor e prosperidade.

É preciso confiar que os desejos vão se realizar. E necessário crer para viver. Assim, vamos construindo os novos desejos de Natal e descobrindo que não devemos deixar de sonhar e de viver a festa do Jesus Menino, purificando a alma e o coração, perdoando e pedindo perdão, crescendo como espíritos eternos.

De mim para comigo procurei outras formas de ter e dar alegrias, sabendo que esses dias tocam fundo e trazem recordações infindas. Cada um tem suas lembranças. Cada qual sente suas dores e saudades e busca retemperar-se com esse nascimento simbólico. Eu também me debato com as mesmas verdades.

Durante muitos anos dei asas à imaginação criadora por meio da arte e com um grupo de idealistas fomos oferecendo alegria e emoção à quantos quisessem participar no Largo São Sebastião. Começamos tímidos, aprendendo a fazer, e, dentre em pouco, com o êxito do “Natal das Luzes” aprimoramos para “O Glorioso” como nosso presente para os que amam a beleza.

O frenesi começava cedo. Todos tinham missão especial. A engrenagem foi crescendo pela inventiva de grandiosidade que se punha nos palcos, na praça, no chão e nas nuvens, agigantados pela audácia de tornar mais emocionante. Muitas mãos. Criatividade. Seguíamos em mutirão para mostrar o valor dos nossos artistas. Eruditos populares se mesclavam. Crianças, jovens, adolescentes, idosos, profissionais, estudantes, técnicos, figurinistas, carpinteiros, costureiras, desenhistas, iluminadores, sonoplastas… Especialistas de todos os naipes se uniam para construir o espetáculo do Natal afinal, tudo precisava estar impecável, nos palcos e na plateia.

Era emocionante ver, sol a pino ou sob chuva, o público chegando eufórico. Caindo o clarão do dia, coração palpitava mais forte. Tensão geral. Luzes baixando. Silêncio na plateia. Correria nos bastidores. Frio na barriga. Figa na mão direita. Preces em proteção. Emoção geral e as cenas se sucediam. Os nervos em frangalhos. Centenas de artistas em cena e ousadias aéreas em criações que os gênios do teatro sempre protegeram.

Ao fim, euforia do público e felicidade: o novo sonho do Natal realizado, uma obra que somente o amor pelo belo poderia propiciar.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

1 COMENTÁRIO

  1. Um verdadeiro espetáculo. Apenas quando não se tem mais é que se pode dar o verdadeiro valor. Infelizmente é assim que caminha a humanidade. Você deu sua contribuição valorosa ao longo dos anos para a cultura amazonense e com certeza é uma pessoa que merece respeito.

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