Conto retirado do livro “Uma amazonense em Copacabana”, São Paulo, 2018.

Sempre que vou ao Rio de Janeiro, visito tia Idalina. Vaidosa ao extremo, pinta os cabelos de preto graúna e as unhas de vermelho paixão, combinando com batom vermelho tango. Fez 85 anos outro dia, mas para todos diz que completou 72. Só que ela mesma se trai: alguém que diz aos quatro ventos que quando menina vestia-se igual à Shirley Temple e chama comercial de TV de “reclame” não pode ter menos de 80 anos de idade!

Tia Idalina gosta de fazer palavras cruzadas e poemas. Escreve-os à mão. Até hoje não enfrentou o computador. Quando cheguei a sua casa, havia terminado um soneto cujo tema era “vaidade”. Elogiei o texto; tecnicamente perfeito, mas um pouco sem graça. Ela então pediu a sua neta Tina:

– Minha filha, bata este poema. Um original e duas cópias, por favor.

Traduzindo para linguagem do século XXI, Tina foi solicitada a digitar e imprimir três cópias do poema.

Tia Idalina adora Copacabana. Diz ela que há mais amazonenses e seus descendentes em Copacabana do que em Manaus. Um exagero. Mas explica que antigamente todas as pessoas de bem tinham apartamento no Rio de Janeiro. Agora muitos vão para São Paulo e Fortaleza, compram imóveis por lá. Tia Idalina tem saudades de Manaus, mas diz que não volta mais.

– Todos morreram e o casarão do centro foi destruído.

Eu disse a ela que Manaus estava muito bonita, com vários shopping centers. Ela rebateu:

– Detesto shoppings. Gostava mesmo do Mercado Adolpho Lisboa.

Expliquei-lhe que o Mercadão está restaurado e muito bonito. Perguntei-lhe se fazia muitos anos que não visitava Manaus. Ela me disse que quando foi por lá não havia festivais de ópera. Lembrou-se da última vez em que esteve no Teatro Amazonas. Foi assistir à Dercy Gonçalves.

– Falava tanto palavrão que o lustre do Teatro tremia. Até os fantasmas gargalhavam. Um horror. Que Deus a tenha.

Então eu lhe disse que ela devia visitar novamente a cidade. O Mercadão e a Praça da Polícia estavam uma beleza. O antigo quartel estava transformado em palacete provincial. Derrubaram aquele prédio modernoso que ficava em frente ao Rio Negro Clube. A Praça da Saudade estava toda restaurada. Uma maravilha! Então ela disse:

– É mesmo! Então vou voltar! Tina, amanhã vamos a uma loja da Varig comprar as passagens.

Expliquei-lhe que não havia mais loja da Varig. Passagens se compram pela internet. E que a Varig não voa mais para Manaus. Ela, bastante decepcionada, me disse:

– Já decidi. Não volto mais, então! Do Rio para Manaus, só vou se for pela Varig.

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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