*Maria Hermínia Tavares

O relatório denuncia inequívoca vocação da extrema-direita para a censura.

Nos meses que se seguiram ao golpe de 1964, os beleguins que invadiam de madrugada as casas dos perseguidos pelo novo regime não iam atrás apenas dos que ali moravam -mas também de seus livros. Perigosos por definição, seriam ainda prova da crença dos donos em ideias comunistas.

Na caça à subversão impressa, foram apreendidos até exemplares de clássicos da literatura como o romance “O Vermelho e o Negro”, do francês Stendhal, e “A Capital”, do português Eça de Queiroz, decerto confundido com a obra mestra de Karl Marx. Tempos depois, institucionalizou-se o arbítrio com a censura -sistemática, arbitrária e iletrada- de obras de arte, revistas, livros e artigos de jornal.

Uma versão patética do zelo dos censores dos tempos autoritários ressurge do fundo da noite na FCP (Fundação Cultural Palmares), vinculada à Secretaria Especial da Cultura e dirigida pelo jornalista Sergio Camargo. Expõe-se de corpo inteiro no primeiro volume do Relatório Público do Acervo da FCP, que tenta fazer crer, ao modo daqueles tempos infames, que a biblioteca teria sido “um braço da militância revolucionária”, colecionando “obras pautadas (sic) pela revolução sexual, pela sexualização de crianças, pela bandidolatria e por um amplo material de estudo das revoluções marxistas e das técnicas de guerrilha”.

Repetindo o passado, fazem parte dessa lista pensadores clássicos como Max Weber e Karl Marx, e conhecidos historiadores contemporâneos, a exemplo de Eric Hobsbawn e Eric Williams. O coordenador do trabalho, apropriadamente, é um jornalista que publicou, entre outras obras memoráveis, dois livros sobre golfe. Para completar, proclama que o presidente Joe Biden é pedófilo, e que a sua vice, Kamala Harris, é notória comunista.

Saiba quem é quem na Cultura sob Mario Frias

Mário Frias, o secretário especial da Cultura do governo Jair Bolsonaro, estrelou ‘Um Povo Heroico’, campanha voltada ao reconhecimento de grandes figuras nacionais, conhecidas ou anônimas Reprodução/SecomVc no Twitter

O secretário especial da Cultura, Mário Frias, a adjunta da pasta, Andrea Abrão Paes Leme, e a mulher de Frias, Juliana Frias Reprodução/Juliana Frias no Instagram

Alexandre Aleluia (esq.), o PM André Porciuncula (dir.), nomeado secretário de Fomento e Incentivo à Cultura, e o cantor Netinho (no banco de trás, de máscara) Reprodução/Twitter

Bruno Graça Melo Côrtes, secretário do Audiovisual Reprodução/Facebook

O acervo minguado, desatualizado e bizarro na falta critério que justifique a seleção das obras, está a léguas de parecer uma biblioteca especializada, que sirva aos fins da Fundação. Mas, o relatório que o descreve denuncia sobretudo as obsessões que organizam o -vá lá- pensamento da extrema-direita, o seu esquálido repertório cultural e sua inequívoca vocação para a censura.

No magnífico romance “A Festa do Bode”, o peruano Mario Vargas Llosa descreve em minúcias o círculo mais próximo do ditador dominicano Trujillo: juristas lacaios, assessores vindos do nada, jornalistas fracassados, pseudointelectuais a fim de tudo para agradar ao chefe. Impossível não lembrar deles ao ler o relatório da Fundação Cultural Palmares e se dar conta de quem, neste governo, controla os meios de promoção da cultura e da livre circulação de ideias.

*Professora e pesquisadora. Matéria na Folha de São Paulo. Caderno Opinião, de 17/06/2021.
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