Esse seu Jorge!

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“Não deu um passo no Município sem que a oposição e a imprensa de seus opositores, deixassem de abrir fogo contra ele, e fogo forte”.

Todas as vezes que tomo conhecimento de políticos que fazem oposição cerrada contra os governantes, sem razão republicana, vem à memória a repulsa que esse fato causou ao médico, orador, acadêmico e político.

Jorge de Moraes. Homem bem formado, nascido em Manaus, filho de jornalista de boa cepa, estudou medicina na Escola da Bahia, se especializou nos melhores centros da Europa, e, tendo retornado para clinicar em sua cidade, quem sabe por influência do próprio pai que era homem muito bem enfronhado nos partidos políticos da época, Jorge acabou enveredando também pela carreira parlamentar e, em seguida, como consequência natural, pelo executivo municipal.

Professor, diretor da Instrução, médico operador, diretor clínico da Beneficente Portuguesa, bacteriologista, professor da Escola Normal e do Ginásio Amazonense, foram atividades que ele foi trilhando para redundar

em filiação partidária e em série de eleições bem-sucedidas, seja como deputado federal, senador da República e o primeiro prefeito eleito do município de Manaus. Nos mandatos parlamentares saiu-se com considerável destaque, especialmente no Senado da República no qual se tornou reconhecido pelo discurso proferido em excelente francês para saudar o médico, jornalista e estadista Georges Benjamin Clemenceau, dizem que de improviso, quando, naquele – tempo, era comum bons oradores e excelente domínio da língua francesa por grande parte de’ pessoas mais, ou menos abastadas.

Na Prefeitura de Manaus, entretanto, à época denominada de Superintendência Municipal, a situação for bem diferente.

Tendo chegado ao cargo em eleição democrática- a primeira em que o povo votou para esse cargo – encontrou os cofres municipais em frangalhos, e enorme briga judicial e política contra os exploradores dos serviços do mercado, matadouro, água e esgotos da cidade, que eram os ingleses. Cofres quase vazios, dificuldade de administrar as mazelas de uma cidade que crescia vertiginosamente, porque ele foi prefeito em 1910-1913, mas que já vivia as ameaças da queda absurda da economia da borracha, Jorge de Moraes pretendeu obter empréstimo internacional a juros moderados, conforme a capacidade da prefeitura, procurou remodelar a administração local, melhorar a higiene urbana, reformar a educação, e sempre se deparou com o impedimento e a escandalizarão das forças políticas de oposição ao seu partido e seu governo.

Não deu um passo no Município sem que a oposição e a imprensa de seus opositores, deixassem de abrir fogo contra ele, e fogo forte. Pouco conseguiu fazer, diferente do que havia planejado e do que, efetivamente, era capaz de realizar com sua experiência, tino administrativo e alto senso de moralidade pública, reconhecidos até pelos inimigos e adversários. Ao final do mandato, entretanto, não contou conversa: deu o troco a todos que o perseguiram, injustamente, impedindo que melhorasse as condições de vida do povo manauense, única e exclusivamente por politicalha e com o fito de prejudicar a sua carreira política que já assinalava possibilidade de ser governador do Estado.

E qual foi o troco que eledeu? Fez publicar dois documentos oficiais como se fossem relatórios de sua gestão, aos quais concedeu títulos diferentes, cada qual com endereçamento certo: um foi denominado de “Aos meus amigos”, no qual agradeceu pelo apoio recebido e pela compreensão e trabalho; ao outro, ele denominou “Aos cães”, endereçado àqueles que o impediram de bem governar, unicamente por interesses menores. Esse seu Jorge de Moraes me saiu um cara muito e esperto, não acham?

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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