Gosto de pensar a Páscoa como uma festa em que celebramos a vida. A natureza se renova. Jesus ressuscita para nos salvar. E o céu nos brinda com uma maravilhosa lua cheia.

Quando eu era menino a Semana Santa era plena de mistérios. Uma mistura de sentimentos envolvendo, medo, respeito e dúvidas. O alívio vinha mesmo no domingo de Páscoa, onde parecia que tudo voltava ao normal. Jesus havia ressuscitado e estava tudo bem. Havia sempre um almoço de família, com festa e contagiante alegria. Pela noite, a lua cheia como sempre, flutuando no nosso céu amazônico.

No Sudeste há a procissão do fogaréu. Aqui temos a Procissão do Senhor Morto. Recorda-se o momento em que os discípulos retiram o corpo de Jesus Cristo da cruz para sepultá-lo. A imagem do Cristo Morto é acompanhada das imagens de Nossa Senhora, Maria Madalena e João Evangelista. Ano passado não houve a procissão por conta da pandemia. Esse ano também está suspensa.

A sexta-feira santa é um dia em que não se come carne. Na mesa do caboclo tem sempre um peixe.   Uma caldeirada ou um tambaqui assado. Ou mesmo um bacalhau nas casas dos mais abastados. É preciso respeitar o sofrimento do Cristo. Mas o “peixinho” da sexta feira é degustado em família e com alegria. Essa horrível  pandemia tem prejudicado esses encontros.

Numa dessas sextas feiras eu era menino e chovia muito. Como sempre chove em Manaus nesses dias. Fui tomar banho de chuva. Fiquei de castigo. Ao anoitecer, a chuva cessa. As pessoas se permitiam colocar cadeiras na calçada e observar a lua cheia. Não existe Semana Santa sem lua cheia.  São lembranças de infância. Uma Manaus que vivi e que não mais existe.

A pandemia tem feito muitos estragos em nossos corações. Não houve Natal, não houve Carnaval. Esse ano também não tem a procissão. A peixada em família está prejudicada. Não quero saber de novo normal. Quero o normal de volta.

A Sexta Feira é sempre baseada na primeira lua cheia após o equinócio da primavera no Hemisfério Norte e do outono no Hemisfério Sul. Portanto, uma coisa a pandemia não conseguiu atrapalhar. A lua cheia da Semana Santa. Esse ano ela se mostrou a nós terráqueos, novamente linda, sem máscaras, radiante. Desafiando o vírus maldito. A lua cheia é perene e inabalável. E nos traz esperanças em dias melhores.

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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