[…]  “apenas a matéria Vida era tão fina” e que, todos aqueles que deixarmos indícios de que o mundo ficou melhor depois de por ele passarmos, pode dizer sem medo de ser feliz: não passamos de pessoas simplesmente Notáveis.

Ana Monteiro é Psicóloga, idealizadora é responsável pelo programa Encontro com Notáveis, agora também no Instagram

“Existirmos… a que será que se destina?”. Provavelmente esta é a grande pergunta que atormenta a condição humana desde que fomos expulsos do Paraíso, uma alegoria descrita poeticamente no Livro Sagrado na versão criacionista da Vida. Criacionista, ou darwinista, o fato é que o livro do Gênesis tem razão na medida em que descreve a ruptura do Homem com sua origem divina, no projeto harmonioso e integrado com a Natureza. Desde então, restou-lhe perambular pela existência e, por cegueira, despeito ou rancor, construir esta deplorável civilização predatória. Felizmente, a Filosofia, todas elas, não conseguiram acalmar a inquietação da pergunta, apesar de sugerir alguns sucedâneos que tornam a existência poética ou ironicamente aceitável. Por isso, a pergunta não pode calar.

Logos versus Caos

Uma das reflexões filosóficas sugere compreender nossa escolha no eterno conflito entre o Logos e o Caos, seus movimentos pela Vida, por um lado, e pela desconstrução desenfreada de sempre, para se contrapor. Glauber Rocha traduziria a metáfora como Deus e o Diabo na Terra do Sol. E a ninguém é vetado a alternativa do não escolher. E quem escolhe o Logos vira um demiurgo, ou seja, alguém que se propõe a deixar a Vida um pouco melhor do que a encontrou. Recompor os estoques e as dinâmicas naturais começa por procurar em si mesmo a resposta para tantos enigmas. E para muitos buscar entender a Vida virou razão de viver. E quem se permite esse desafio se aproxima do mistério e compreende essa obsessão humana  de ser e de se conhecer.

Não pode calar

Mas afinal, a que tudo isso se destina? A formatação da pergunta ganhou poema e luz do poeta piauiense, Torquato Neto, que ajudou a injetar desassossego e magia existencial na garotada da Tropicália, nos anos 60, e ganhou acordes desconcertantes de Caetano Veloso na canção Cajuína https://m.youtube.com/watch?v=nmd7Nw9KqaE#dialog. A que se destina, pois, o ato de viver?  Eis a pergunta que não devemos em nenhuma hipótese silenciar.

A cegueira do egoísmo

Do ponto de vista meramente criacionista ou evolutivo, estamos aqui de passagem para fazer o nosso melhor, a despeito ou por causa da vida que recebemos, do eterno movimento dessa caminhada, tão distorcida pela cegueira do hedonismo, um nome pomposo para descrever a patologia e a cegueira do egoísmo. Viver é, antes de tudo, conviver, e nesse encontro, de onde eclode o nós, começamos a nos qualificar para formular claramente a pergunta e ensaiar sugestões para reagir ao grande enigma existencial.

Encontro comNotáveis

Cabe o exemplo o movimento que deu origem ao CIEAM, Centro da Indústria do Estado do Amazonas, criado por Mário Guerreiro, há quarenta anos, para resguardar a atividade fabril e trabalhar para a prosperidade das pessoas em nossa terra. E foi a partir de sua vocação original de provocar indagações e fomentar interações, há mais de duas décadas,  foi criado um momento reflexivo denominado Encontro com Notáveis, um bate-papo sadio e cordial, ou seja, saído do coração, realizado mensalmente com um convidado  especialista em responder a célebre pergunta: “a que se destina a conjugação do verbo Viver ?

Qual é o nosso destino?

Nessa conversa onde estamos polemizando a existência, cabe recordar os momentos da concepção do programa, quando foi questionado o porquê da palavra Notável estar no plural, já que, a cada encontro, haveria um único convidado. O dicionário nos esclarece que notável significa “o que merece ser notado, que tem importância, que é digno de atenção.  Então, o plural se faz necessário porque notável é o convidado e notáveis são as pessoas da platéia que –  após um dia intenso de trabalho, frequentemente no chão de fábrica – vão ao “encontro” para compreenderem melhor como responder à  questão essencial: “Existirmos… a que será que se destina?”.

Somos todos uma celebridade

A cada Encontro, o momento de reflexão ajudou a cada um dos participantes a descobrir que, dentro de todos nós, existe uma celebridade. E a Vida nos ensina que não há um ser humano, por mais humilde e vulnerável que seja, que não tenha o que nos ensinar, como ainda não há notícia de qualquer magnata que não tenha o que aprender.  Basta “olharmo-nos em intacta retina”, como se diz no Piauí, ou seja, com transparência, liberdade e solidariedade. É só assim que descobrimos que “…só existo se você me encontra e me reconhece”, por uma única e simples razão, somos passageiros da mesma viagem, trocando receitas e receios, indagações e indignações.

“O mais importante é Viver!”

As indagações se multiplicam à medida que a caminhada avança. Mais ainda em clima sombrio de pandemia. Estes tempos fazem lembrar de Sadhguru, mestre indiano que indaga: “… qual a coisa mais importante na sua vida neste momento?”.   Cada qual, a seu modo e a seu tempo, observa a si mesmo e vai à busca da sua resposta.  O mestre, divulgador mundial da prática da yoga, que nos orienta sobre a importância da integração do corpo e da mente, responde que o mais importante é Viver. Tudo o mais vem depois.

“A matéria Vida é tão fina”

 O CIEAM, através da Ação Social Integrada, e unido à várias outras entidades, dedicou-se a proteger a vida dos profissionais de saúde que combatem de perto a Covid-19, e está também cuidando do alimento para o corpo. O Encontro com Notáveis, por sua vez, precisava continuar sua missão de fortalecer as mentes e então se transformou provisoriamente em Lives com Notáveis no Instagram. Lá, a missão é a mesma: contribuir para que pessoas possam responder da melhor maneira à questão tão bem colocada na canção. E por que temos tantos medos, por que temos sempre mais perguntas do que respostas, continuaremos  seguindo em nossa missão, e mais uma vez inspirados pela canção, sabemos que “ apenas a matéria Vida era tão fina” e que, todos aqueles que deixarmos indícios de que o mundo ficou melhor depois de por ele passarmos, pode dizer sem medo de ser feliz: não passamos de pessoas simplesmente Notáveis.

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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