Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Berthasaura leopoldinae, de apenas 1 m de comprimento, acaba de ser apresentada ao público; nome feminino é raridade na área.

O animal pertencia a um grupo cujos representantes mais típicos costumam ser comparados ao temível Tyrannosaurus rex, mas sua trajetória evolutiva o levou a ficar sem um único dente na boca -e, ao que tudo indica, com um bico.

Essa é a história paradoxal da Berthasaura leopoldinae, dinossauro brasileiro de apenas 1m de comprimento que acaba de ser apresentado ao público e à comunidade científica.

Com idade estimada em cerca de 70 milhões de anos, o esqueleto quase completo do bicho foi encontrado nas rochas da chamada formação Goio Erê, no município de Cruzeiro do Oeste (PR). A pesquisa descrevendo formalmente a nova espécie está no periódico especializado Scientific Reports.

Assinam o trabalho pesquisadores do Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e da Universidade do Contestado, em Santa Catarina, os quais já vinham estudando a fauna fóssil da região (o lugar também revelou novas espécies de pterossauros, ou répteis voadores).

Marina Bento Soares, paleontóloga do Museu Nacional e coautora do estudo, explica que o nome científico da criatura é uma homenagem tripla: à bióloga e feminista pioneira Bertha Lutz, que trabalhou no museu e morreu em 1976; à imperatriz Leopoldina, mulher de dom Pedro 1º e detentora de sólida formação científica; e à escola de samba Imperatriz Leopoldinense, cujo samba-enredo no Carnaval de 2018 versava sobre o Museu Nacional.

Por causa das homenageadas, os pesquisadores fizeram questão de dar uma forma feminina ao nome da espécie em latim -segundo Soares, trata-se de algo bastante raro nos nomes científicos de dinossauros publicados até hoje.

Dinossauro brasileiro Berthasaura leopoldinae

Fóssil do dinossauro brasileiro Berthasaura leopoldinae descoberto no Paraná Divulgação

Ilustração do dinossauro brasileiro Berthasaura leopoldinae descoberto no Paraná Divulgação

Pesquisadores trabalham nas rochas da chamada formação Goio Erê, no município de Cruzeiro do Oeste (PR) Divulgação

De um lado, a equipe tirou a sorte grande ao achar um esqueleto tão completo, já que a maioria das espécies brasileiras de terópodes (o grande grupo dos dinossauros carnívoros) é conhecida apenas por meio de ossos esparsos.

Por outro lado, os traços peculiares da Berthasaura leopoldinae deram certa dor de cabeça na hora de tentar decifrar o parentesco do animal com outros dinos, conta Geovane Alves de Souza, também pesquisador do Museu Nacional e primeiro autor do estudo.

“O resultado inicial das análises indicava que a espécie poderia ser um ornitomimídeo”, diz ele, referindo-se aos dinossauros parecidos com avestruzes que volta e meia aparecem correndo nos filmes da franquia “Jurassic Park”. O problema é que os bichos só ocorriam nos continentes do hemisfério Norte, em especial nos territórios asiático e norte-americano.

Uma rodada mais apurada de análises tirou Souza desse aperto e esclareceu o mistério. Para os pesquisadores, o bicho na verdade seria um noassaurídeo, membro de um subgrupo de carnívoros típicos do hemisfério Sul.

A maioria desses bichos possui dentes afiados de predador, mas uma espécie que vivia na atual China perdia os dentes quando atingia a idade adulta, e é justamente com as formas adultas dessa espécie que a Berthasaura leopoldinae se parecia.

Mas o espécime achado no interior do Paraná ainda era um filhote, talvez na “adolescência”, a julgar pelo fato de que vários de seus ossos ainda não estavam totalmente fusionados, como ocorre nos indivíduos adultos. Isso sugere que a espécie era edêntula (termo cientificamente preciso para “desdentada”) ao longo de todo o seu tempo de vida.

Será que isso significa que ela tinha se tornado vegetariana? Não necessariamente, já que o ramo dos dinossauros que deu origem às aves também perdeu progressivamente os dentes e ganhou um bico, mas muitas aves continuam comendo insetos ou vertebrados.

“Eu tendo a achar que ele era herbívoro, o Giovane acha que ele poderia comer carne. É uma discussão ainda em aberto”, diz Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional e também autor da pesquisa.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 18/11/2021.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui