Fabiano Maisonnave
*Fabiano Maisonnave

Macuxis montaram barreira de controle para impedir garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

A Polícia Militar de Roraima feriu seis indígenas, aparentemente com balas de borracha, em ação dentro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, nesta terça-feira (16). O objetivo dos policiais era destruir um posto de vigilância montado pelos indígenas para impedir o garimpo ilegal de ouro na região.

“Repudio a ação criminosa do governo contra a comunidade indígena Tabatinga. Uma atividade legítima de monitoramento territorial, feita pelas comunidades indígenas, pela ausência do poder público em combater a invasão de terras indígenas”, disse à Folha o coordenador geral do CIR (Conselho Indígena de Roraima), Edinho Batista de Souza.

Imagens de celular gravadas pelos próprios indígenas macuxis mostram uma idosa chorando após ser atingida na perna e homens com diversos ferimentos, um deles na cabeça.

A ação envolveu a invasão de ao menos uma casa. Uma faixa que citava o artigo 231 da Constituição de 1988, que versa sobre os direitos indígenas, foi retirada.

Em agosto, uma decisão da Justiça estadual determinou o fim dos postos de vigilância, a pedido da Sodiurr (Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima), pró-garimpo. Na esfera policial, no entanto, a atuação dentro de terra indígena é de competência da Polícia Federal, e não da PM.

Há três semanas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) visitou uma comunidade indígena da região, no município de Uiramutã, acompanhado de líderes da Sodiurr.

No discurso, voltou a defender a legalização do garimpo, que tem contaminado os rios e levado a problemas sociais, como alcoolismo e prostituição.

Roraima é governado pelo pecuarista e dono de frigorífico Antonio Denarium (PP), próximo de Bolsonaro.

O secretário de Segurança Pública, coronel da PM Edison Prola, orientou a reportagem a procurar o comandante da PM, coronel Francisco Xavier, que, por sua vez, enviou o contato do secretário de Comunicação, Weber Negreiros, que não respondeu.

Mais tarde, em nota divulgada em redes sociais, a PM afirmou que agiu em cumprimento de decisão judicial e que revidou um ataque com flechas e pedras dos indígenas. Segundo a versão policial, não foram usados armamentos letais. Um policial teria sido ferido na perna por uma flecha, sem gravidade.

Liderança do povo macuxi, identificado como José de Lima, com sangramento na cabeça após ação da Polícia Militar – Conselho Indígena de Roraima/Divulgação

“A nossa Constituição fala que o usufruto é exclusivo do indígena. Aquela área é terra pública, necessariamente o governador tem que começar a verificar a atuação da Polícia Militar, uma vez que não existia uma decisão judicial, pelo que consta da denúncia das lideranças indígenas, em relação à proteção de um bem comum, que é uma terra indígena, contra invasões, contra crimes ambientais. E é necessário o Supremo tomar uma decisão relacionada a isso”, afirmou a deputada federal indígena, Joenia Wapichana (Rede-RR).

Garimpo ilegal cresce na Terra Indígena Yanomami

Garimpo no rio Uraricoera,na TI Yanomami Christian Braga / Greenpeace/Christian Braga / Greenpeace

Impacto do garimpo no rio Couto Magalhães, na TI Yanomami Christian Braga / Greenpeace/Christian Braga / Greenpeace

Garimpo no rio Uraricoera, na TI Yanomami Christian Braga / Greenpeace/Christian Braga / Greenpeace

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 16/11/2021.
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