fernanda torres
*Fernanda Torres

Nós, criados à mamadeira de vacina e chupeta de antibiótico, crescemos inebriados pelo poder da própria vontade.

Um mês de isolamento. Pouco penso e nada crio.

Choro a partida de Rubem, ao som de “Acabou Chorare” de Moraes. Assisto ao noticiário monotemático, atualizo o número de mortos e infectados, acompanho a curva da pandemia e, temerosa, aguardo o pico e o porvir.

Apesar da mente oca, avanço na “Ilíada”.

Incitada pelo desejo volúvel dos deuses e travada em nome da honra e da posteridade, a guerra entre gregos e troianos é descrita por Homero com impressionante sadismo poético. São parágrafos e parágrafos dedicados a lanças que perfuram olhos e rompem vísceras, a cabeças decepadas pelo fio da espada e membros estilhaçados a pedra e paus.

Uma carnificina épica que, milênios depois, encontraria o seu espelho pop nas sagas cinematográficas dos super-heróis da Marvel.

No tempo em que ir ao cinema não representava risco de vida, Aquiles Hulks e Heitores Starks reinavam nos cineplex. Mas quem nos servirá de modelo para lidar com o vilão microscópico, o vírus coroado que trancou a humanidade acovardada em casa? Buda, Cristo, Confúcio, Mao, Dr. House ou Jerônimo, o eremita?

O valor do indivíduo era matéria cara para os gregos que pariram o Ocidente. Nós, herdeiros frágeis, criados à mamadeira de vacina e chupeta de antibiótico, crescemos inebriados pelo poder da própria vontade. Não mais.

Até a América, a do Norte, meca do “self-made man”, da meritocracia, da competição e da liberdade, o Eldorado que se tornaria “great again” pelo toque de Midas de Donald Trump, foi obrigada a empilhar caixões em covas rasas. E descobriu, estupefata, a sua dependência da China comunal, descomunal, fornecedora de quase todos os insumos médicos do planeta.

Quando a crise financeira de 2008 estourou, houve o pânico de que os americanos parassem de consumir. Autoridades vinham a público clamar para que a população não deixasse de ir às compras. A máquina da economia só funciona em movimento.

Os EUA durante a pandemia do novo coronavírus

 Coveiros enterram corpos em vala comum aberta em Hart Island, na cidade de Nova York 9.abr.2020 – Lucas Jackson/Reuters

Moradores de Milwaukee, no estado de Wisconsin, esperam em fila para votar em primárias para as eleições presidenciais de 2020. O estado já tinha recomendações de isolamento social 7.abr.2020 – Kamil Krzaczynski/AFP

Não havia grandeza naquela crise. A doença e a cura dependiam da compulsão consumista, da ganância financeira dos triplos As, das mil marcas de jeans, tênis, bolsas e inúteis penduricalhos. Um mundo de excessos.Pacotes turísticos prometiam aventuras comparáveis às de Odisseu; Wall Street acenava com fortunas dignas dos butins de Agamenon; planos de saúde privada prometiam a vida eterna dos olímpicos e a teleculinária, banquetes finos de ambrosia.

Agora, José, a Terra parou.

Lá se foi a tão louvada liberdade individual. Sobre o direito básico de ir e vir recai o peso da coletividade, da proteção aos vulneráveis e do colapso da saúde pública. Até Zeus Trump se curvou perante o invisível. A “land of the brave” adotou medidas restritivas que, até há pouco, só seriam concebíveis em regimes totalitários.

Do uso de máscaras ao isolamento, os orientais parecem mais preparados para enfrentar o tranco.

Há quem enxergue uma conspiração comunista por detrás da pandemia e considere covardia, fraqueza e histeria a paralisia global. Saudoso da cultura Marvel, Messias incita os brasileiros a enfrentar o micróbio como homens, e não moleques.

Coronavírus no Brasil

Família observa o detento Charles da Silva Barreto, 30, se entregar no CPP (Centro de Progressão Penitenciária) de Mongaguá, no litoral paulista. Pouco mais de 500 detentos fugiram do CPP, em Mongaguá, após decisão da Justiça de São Paulo de suspender a saída temporária de presos no estado Eduardo Anizelli/Folhapress

Em casas de um cômodo só em SP, isolamento é impraticável; moradores de favelas apelam para receita caseira de álcool em gel, mas deixar de trabalhar não é opção. Na foto, a casa de Alex, na favela Monte Azul, onde moram 11 pessoas Léu Britto/DiCampana Foto Coletivo/

Nem Trump serve mais de exemplo para o nosso Capitão América. Iludido pelo canto da sereia da rápida imunização dos fortes, Jair se dispõe a atravessar o rio Estige, guiando, como Caronte, a nação em direção ao vale dos mortos.

No capítulo 14 da “Ilíada”, Odisseu se revolta contra Agamenon. Receoso de que o possuído Heitor ateie fogo às naus, o comandante propõe uma retirada estratégica. O discurso de reprimenda do comparsa astuto bem caberia na boca de Jair ao demitir Mandetta.

“Que proferes do encerro de teus dentes? Malsinado! O céu, de uma tropa de frouxos, te desse o comando, e não o de homens como nós, por Zeus fadados da juventude à idade profecta a enfrentar duros prélios, até a morte.”

Como guerreiros encurralados na praia por um bacilo infecto, oscilamos entre o destemor econômico e a precaução sanitária. O medo, e não a coragem, deveria nos servir de guia, caso contrário, periga colhermos tanto a falência, quanto a mortandade.

Finda a guerra, por quanto tempo vagaremos náufragos? Quem dará cabo de Agamenon? Imigraremos, tal qual Enéas? Sucumbiremos, como Troia? Ou, modestos e melancólicos, pediremos, à moda de Manuel Bandeira, que alguém toque um tango argentino?

Luiz Henrique Mandetta na crise do coronavírus

Mandetta quando ainda era deputado, no Salão Verde, em Brasília, em novembro de 2018 Democratas – nov.2018/Divulgação

*Atriz e Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 19/04/2020.
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