Saudades que não se apagam

“Pareço vê-lo posto no seu jeito simples de ser e de vestir, de falar e de conviver, de orientar a cada um dos filhos e de nos socorrer a todos”.

Cada um de nós carrega consigo dores, alegrias, tristezas e angústias, próprias dessa passagem da vida que vamos levando, muita vez sem a percepção de que tudo é transitório e que o eterno fica para os que creem (como eu creio), na reencarnação.

A cada vez que me debruço sobre o passado não muito distante no tempo, na época em que podia usufruir da presença física de meu pai, Lourenço da Silva Braga, na madureza dos anos em que se encontrava quando nasci e com ele convivi ligado por laços de amor profundo, todas as vezes, repito, chegam aos meus ouvidos como sinfonia os discursos eloquentes que proferia, as frases de orientação para a vida que explicitava, os versos que gostavam de declamar e de escrever, e, ainda, mais do que tudo isso, a singeleza de sua presença austera e educada, singular fosse diante da família ou dos amigos.

Além do mais veem à retina, com clareza solar, sua presença física, como se estivesse, aqui e agora, diante de mim, a me abençoar.

O que mais lamento no silêncio de mim mesmo, todos os dias, sem conseguir superar, é que, tendo tido o privilégio de ser filho dessa relíquia de ser humano, não consegui sorver o quanto poderia ter conseguido, para aprender mais e melhor como seguir na minha caminhada.

Não aprendi a falar e a ensinar pelo olhar, como ele fazia com singularidade; nem a perceber a luz na escuridão em meio à turbulência que fatos inesperados costumam provocar; muito menos aprendi a servir com humildade, como ele servia aos seus semelhantes; nem a distribuir generosidade fosse com a palavra certa para aplacaras dores dos que sofriam, ou para falar de amor e caridade.

Quanta e quanta coisa não. aprendi, mesmo com ele ensinando … ensinando … ensinando, como um mestre-escola.

As lembranças que poderia ter de sua convivência, não as tenho.

E não as tenho porque, na verdade sinto que a sua presença está em mim a não permitir lugar para lembranças, mas a reafirmar a sua eterna presença.

Presença latente, forte, amorável, como se fossem saudades que nunca se apagam e que me concedem a revitalização da energia vital, que me socorrem quando enfraqueço ou tropeço, que me animam quando esmoreço.

Pareço vê-lo posto no seu jeito simples de ser e de vestir, de falar e de conviver, de orientar a cada um dos filhos e de nos socorrer a todos.

Pareço ver a sua forma especial de vibrar com nossas vitórias na escola, no trabalho, em familia e na sociedade.

Mãos cruzadas e postas na costa, caminhando para o trabalho infatigável das embarcações nas quais singrou muitos dos rios do Amazonas, durante anos a fio, ou mais tarde, no passeio lento e cadenciado pela calçada da rua de nossa casa à espera da chegada de cada um dos filhos, ou, quem sabe, para o entretenimento pessoal e I breve encontro com amigos que fazia questão de distinguir como o velho Tamborete, o Zé Miolo, oportunidade de uma conversa curta e, naturalmente, recheada de boas histórias.

Em dia de festa lá estava ele com alegria de nos ver reunidos em seu redor, e, não raro, fazia um belo discurso, dava exemplos de fatos do passado, conclamava à paz e a concórdia entre os homens crendo serem todos de boa vontade. Nem parecia mais aquele jovem rapaz que liderou e brincou de Brigue Independência durante anos, ou o líder sindical que enfrentou a ditadura de Vargas em defesa dos trabalhadores e não se curvou aos mesquinhos interesses dos partidos políticos tradicionais e ajudou a fazer o Partido Trabalhista Amazonense, nem parecia o audacioso líder que invadiu e tomou conta do casarão da Rua de Marcilio Dias que havia sido destinado para ser a Casa dos Trabalhadores, e o governo não entregava aos sindicatos.

Hoje, cabelos recortados pelo tempo, tenho comigo as minhas saudades que não se apagam, saudades do tempo que o tivemos conosco em carne e osso, em espírito e amor.

Mas tenho a certeza de sua presença eterna no meio de nós e em cada Um, e aprendi que o tempo acalma a dor da separação, mas não esmaga a saudade.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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