*Eduardo Giannetti

Em novo livro, Eduardo Giannetti lança erudita reflexão filosófica sobre os valores morais que guiam a honestidade.

Formado em economia e em ciências sociais pela USP, é autor de “Trópicos Utópicos” e “O Elogio do Vira-Lata e Outros Ensaios” (ambos pela Companhia das Letras), entre outros livros.

[RESUMO] No trecho abaixo, extraído do livro “O Anel de Giges”, previsto para novembro pela Companhia das Letras, o economista Eduardo Giannetti reflete a respeito dos embates dos valores éticos com a desonestidade na vida cotidiana a partir de dois exemplos opostos, o princípio de são Lucas sobre a probidade e as acrobacias morais de Brás Cubas para apaziguar sua consciência após achar dinheiro na rua no clássico de Machado de Assis.

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Em 1993 participei de um talk show vespertino na TV. O tema daquela tarde era a eterna pauta: “Vale a pena ser honesto?”. Enquanto aguardava sentado na plateia a minha vez de subir ao palco, presenciei uma entrevista memorável. Uma aula magna de fibra sem aspereza e de fineza sem afetação.

Dona Raimunda, faxineira do metrô de São Paulo, encontrou uma carteira com centenas de dólares em dinheiro, mas nenhum documento que permitisse identificar o dono.

Prontamente ela encaminhou o achado à seção de objetos perdidos do metrô. No dia seguinte, dezenas de pessoas pleitearam a posse, mas nenhuma conseguiu prová-la; o metrô se viu constrangido a suspender a busca pelo real proprietário.

Ao entrevistar dona Raimunda, depois de narrar o ocorrido, a apresentadora do talk show perguntou a ela: “Mas ninguém lhe disse que era bobagem fazer aquilo, devolver tanto dinheiro sem precisar? Imagine só tudo que você podia ter comprado: vestidos, viagens, geladeira nova!”. “Pois é”, respondeu ela com serenidade, “muita gente me disse isso mesmo.”

A jornalista, porém, não se deu por satisfeita; quis saber mais: “E o que você dizia quando as pessoas falavam assim, a senhora ficava quieta?!”. E dona Raimunda: “Não, dona ****, quando alguém me falava desse jeito, que eu fui boba, como a senhora está dizendo agora, eu dizia para aquela pessoa que dela eu não esperava mesmo outra coisa, eu já sabia que ela ia achar isso”.

Exemplos de correção e elegância como o de dona Raimunda, é razoável supor, são incomuns; não foi à toa que a mídia lhe deu ampla cobertura. Como responderia ela ao teste do anel de Giges, ou seja, se lhe fosse facultado agir com a certeza da impunidade, tornando-se invisível ao olhar alheio, sempre que desejasse?

À luz do episódio descrito, não é descabido presumir que reagiria de modo radicalmente distinto daquele como reagiriam, por exemplo, as dezenas (só no primeiro dia) de falsos proprietários da carteira perdida.

Ex-presidentes da América Latina com problemas na Justiça

*Álvaro Uribe, ex-presidente da Colômbia (2002-2010)* Político mais popular e influente do país, responde a vários processos por corrupção e crimes contra humanidade. Em 4 de agosto de 2020, foi determinada sua prisão domiciliar, no processo que o acusa de ter participado da formação de uma força paramilitar para lutar contra as guerrilhas colombianas Fredy Builes – 30.jul.18/Reuters

*Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil (2003-2011)* Condenado em segunda instância a 9 anos e meio de prisão devido a processo sobre compra de um tríplex no Guarujá, Lula cumpriu um sexto da pena na cadeia e agora aguarda o trânto em julgado. O ex-presidente também está condenado, em primeira instância, a 12 anos e 11 meses de prisão por conta do caso do sítio em Atibaia Fabrice Coffrini – 6.mar.20/AFP

Em quem se pode confiar? Como separar as pessoas honestas (ou ao menos com um limiar elevado de honestidade) das demais (baixo limiar)? O evangelista Lucas propõe, por meio de Jesus, uma regra simples de amplo alcance: “quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é desonesto no pouco também é desonesto no muito” (16:10). Se a microprobidade for atestada, a macro está assegurada. A integridade (ou a falta dela) é transversal à conduta.

A premissa do princípio de São Lucas, se assim podemos nomeá-lo, é a ideia de que “ninguém pode servir como escravo a dois senhores”. Existem, de um lado, as pessoas justas, que servem a Deus, pautam suas ações pela ética e merecem irrestrita confiança; e, de outro, as injustas que servem a Mamona (a divindade pagã da cobiça e do dinheiro), não hesitam em pautar suas ações pela vantagem pessoal e pela busca do lucro sempre que este conflita com a ética e, portanto, não são dignas de confiança nem nas pequenas nem nas grandes coisas.

Mas até que ponto, cabe questionar, o princípio de são Lucas é consistente com a evidência empírica e a experiência da vida comum?

Rio de Janeiro, 1844. Ao retornar a pé de um sarau dançante em casa de amigos, Brás Cubas, bacharel por Coimbra e futuro deputado, encontra uma moeda de ouro perdida na calçada. Apanha a moeda e guarda no bolso.

Na manhã seguinte, ao relembrar o fato, sente uns “repelões da consciência” e ouve uma voz que lhe questiona por que seria sua uma moeda que não herdara nem merecera, mas simplesmente apanhara na rua; podia ser de alguém carente, sem meios de alimentar os filhos, porém, se fosse de um rico, o dever era o mesmo.

Resolve então restituí-la. Escreve uma carta ao chefe de polícia anexando a moeda e pede a ele que não poupe esforços em devolvê-la ao verdadeiro dono. O gesto deixa Brás Cubas jubiloso —e vinha em excelente hora.

O economista Eduardo Giannetti – Felix Lima/Folhapress

Desde o sarau da noite anterior ele trazia a consciência opressa, como que abafada, pelo vislumbre de um affaire amoroso com uma mulher casada, paixão juvenil tombada. O gesto altruísta viera como uma lufada de ar puro no recinto mal ventilado; “foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral”.

No espelho da mente, refletiu ele, a boa ação reluzia, e o valor devolvido se acrescia de juros, “exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da restituição”. E foi aí, relata, que chegou à descoberta de “uma lei sublime”, a lei da equivalência das janelas, segundo a qual “o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência”.

Passam-se alguns dias e um novo incidente exercita as faculdades morais de Brás Cubas. A caminho de Botafogo, na praia quase deserta, ele inadvertidamente tropeça num “embrulho misterioso”: um pacote limpo, não muito grande, atado por um barbante.

Certifica-se primeiro de que não há ninguém por perto; abaixa-se, recolhe o embrulho e volta para casa. No escritório, a dúvida: o que haveria dentro dele? Seria molecagem de alguém? Lenços velhos, goiabas podres? Ao abri-lo, a surpresa: uma pequena fortuna em dinheiro em notas graúdas, “tudo asseadinho e arranjadinho, um achado raro”.

Ele volta a embrulhar o pacote e guarda-o na gaveta da escrivaninha. Os dias seguem, Brás Cubas rumina. Teria alguém presenciado a cena na praia? Conclui que não. Vai ao escritório e conta de novo o valor. Por uma semana o pacote adormece na gaveta. Seria crime achar dinheiro?

“Crime é que não podia ser o achado; nem crime nem desonra, nem nada que embaciasse o caráter de um homem”, reflete. “Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavalo […] e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia mau, nem indigno dos benefícios da Providência.”

Passadas três semanas, ele ainda hesita; cogita doar a soma a uma boa causa, “um dote a alguma menina pobre” ou algo assim. No mesmo dia, porém, vai ao Banco do Brasil e deposita o valor na conta.

O gerente que o recebe na agência lembra ter lido nos jornais a respeito da devolução da moeda de ouro e tece calorosos elogios ao abastado cliente. Embaraçado, Brás Cubas afirma que “a coisa não valia a pena de tamanho estrondo” e colhe a palavra comovida do gerente em reconhecimento à sua modéstia.

Anos mais tarde, o dinheiro do embrulho (acrescido de juros) acaba sendo usado como pagamento a dona Plácida, uma humilde ex-costureira, pelos serviços prestados por ela na condição de caseira e alcoviteira da relação clandestina de Brás Cubas com sua paixão juvenil (dona Plácida, que de início tinha asco do patrão, passa a rezar-lhe todas as noites diante da imagem da Virgem que mantém no quarto da garçonnière).

A destinação final do dinheiro reconforta Brás Cubas; pois não fosse o seu providencial “socorro”, reflete, a velha Plácida com certeza estaria a mendigar pelas ruas. Uma lufada de ar puro areja a consciência esfalfada. Embrulho reatado.

“A franqueza é a primeira virtude de um defunto.” Livre da mascarada dos viventes e do juízo alheio, o finado narrador das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, obra-prima de Machado de Assis, pode permitir-se, agora que está no outro mundo, “confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser”.

Machado de Assis

Missa Campal de Acão de Graças em homenagem à abolição da escravatura realizada no dia 17 de maio de 1888, no Campo de Sao Cristóvao, no Rio. Antonio Luiz Ferreira/Acervo Instituto Moreira Salles

O escritor Machado de Assis. Reprodução

Ele esmiúça o granulado fino da consciência moral e devassa as tergiversações especiosas da mente. De que modo a sua experiência e a “lei das janelas” se ligam à conjectura de são Lucas?

A moeda de ouro e o embrulho misterioso colocam Brás Cubas a sós com a sua consciência. Como o Giges da fábula de Platão na “República” depois de encontrar o anel da invisibilidade, nos dois casos Brás Cubas está a salvo do olhar da opinião e do braço da lei. E a resposta, no entanto, é tudo menos uniforme: devolve a moeda, mas se apropria do pacote.

Os valores envolvidos, razoável supor, fizeram a diferença. Brás Cubas revela perfeita ciência do que era, ou imaginava ser, o seu dever, mas a soma contida no embrulho (contada e recontada) fala mais alto. Prevalece a lógica do cálculo racional: o benefício monetário domina a norma moral e faz pender a balança na direção da vantagem pessoal. A escolha não é imune aos valores em jogo. A preferência revelada pela conduta efetiva é uma questão de preço.

A divergência entre as duas respostas desmente o prognóstico do princípio de são Lucas: a microprobidade da moeda devolvida é compatível com a macroimprobidade da retenção do embrulho e não permite prevê-la.

O mundo de Brás Cubas (e não só dele) não cabe na lógica binária e reducionista de um mundo povoado apenas pelos extremos, ou seja, pelas duas caudas de uma distribuição que tem nos perfeitamente honestos e nos absolutamente corruptos, anjos e canalhas, os seus valores polares.

É no miolo confuso e com frequência opaco e movediço desse vasto espectro -e não no universo polarizado do binômio de Lucas- que as coisas relevantes no campo da ética acontecem. Os extremos, como dona Raimunda, são exceções.

Isso não significa, todavia, que o figurino da escolha racional sirva em Brás Cubas. O anti-herói machadiano é seguramente mais complexo -e interessante- que isso. O valor financeiro dos incentivos, é certo, pesou nas escolhas feitas. Mas Brás Cubas não se contenta com pouco.

Ele não se curva à lógica econômica da existência de um trade-off entre ética e vantagem pessoal, isto é, uma permuta segundo a qual a obtenção de ganhos adicionais numa dimensão (lucro) implica algum grau de perda ou sacrifício relativo da outra (moral). A lógica econômica, ao contrário, é que se curva e ajoelha diante dos ardis e malabarismos mentais de Brás Cubas.

Por que aceitar o trade-off quando, com um pouco de arte e engenho, podemos ter o melhor dos dois mundos? Brás Cubas maximiza a utilidade fina nceira sem ter de abdicar ou abrir mão da boa consciência moral.

O ator Reginaldo Faria, que interpreta Brás Cubas quando velho no filme “Memórias Póstumas”, de André Klotzel. – Xando Pereira/Folhapress

Como um virtuose da racionalização e como um exímio trapezista na arte de selar armistícios e se reconciliar consigo -“Ah! trapézio dos meus pecados, trapézio das concepções abstrusas”-, ele não só contorna o custo moral das suas escolhas e se faz um farsante de si, como, do outro mundo, se reconhece como tal.

Aí reside a lógica -torta, é verdade, mas nem por isso menos operante- da “lei das janelas”: o limiar do adultério ventilado pela devolução da moeda e o apropriar-se do embrulho redimido pelo “nobre resgate” de dona Plácida da mendicância. A preservação de uma autoimagem ilibada é a sua especialidade. Eis o milagre do benefício sem custo. O trade-off da escolha racional reduzido a pó pelo autoengano.

Quão robusto empiricamente é o exemplo de Brás Cubas? A busca de teorias mais aderentes às evidências e aos resultados colhidos em testes controlados de honestidade, em que os participantes têm a chance de trapacear sem o risco de serem flagrados, tem levado nos últimos anos à formulação de modelos alternativos ao da escolha (ou crime) racional.

Em “A Mais Pura Verdade sobre a Desonestidade” (ed. Alta Books), para dar um exemplo, o economista comportamental Dan Ariely propõe um modelo calcado em duas motivações à primeira vista conflitantes.

De um lado, sugere ele, com base em dados obtidos a partir de ampla pesquisa experimental, “desejamos vermo-nos como pessoas honestas e honoráveis, aptas a se olhar no espelho e sentir-se bem sobre si”; mas, de outro, “desejamos nos beneficiar de trapacear e de obter tanto dinheiro quanto for possível”.

Ego intato, bolso cheio: “to have the cake and to eat it too,” como diriam os ingleses. Ou, para adaptar a fórmula de Pascal: trapacear, pero no mucho, mas sem perder o decoro íntimo, uma vez que, tudo considerado, e como o hábito faz calejar a vergonha, a pessoa logra perceber-se como basicamente honesta. O autoengano assegura a neutralização da ofensa no espelho da consciência. Janelas abertas.

As premissas comportamentais de Ariely, não é exagero dizer, retratam à perfeição o universo em que se move Brás Cubas e no qual ele executa o seu virtuosismo no trapézio.

E se a questão fundamental levantada pelo estudo empírico da desonestidade, como ele afirma, é “como garantir os benefícios da trapaça e, ao mesmo tempo, vermo-nos ainda a nós mesmos como honestos e maravilhosos”, então claramente as “Memórias Póstumas” têm muito a ensinar.

Como um curso avançado de racionalização moral e desonestidade criativa, elas trazem pistas e achados valiosos à elucidação da questão. O defunto autor de Machado, podemos concluir, está mais vivo do que nunca. Mas morreu só.

*Economista e sociólogo. Artigo na Folha de São Paulo, de 04/10/2020.

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