Passei recluso estes dias do chamado tríduo momesco. O centro de Manaus nem parecia a desordem indigente diária que é. Nesta cidade o silêncio, que os antigos diziam ser de ouro, não existe.

Há uma atração pelo ruído, pelo barulho. Tremo em pensar que já se trata de uma cultura estabelecida, que se implantou após a popularização dos equipamentos de som e imagem, do barateamento dos amplificadores e caixas de som.

Mas a triste realidade é que a esmagadora maioria dos habitantes daqui adora violentar os próprios tímpanos, o que bem poderia ser considerado um vício e, portanto, um problema de saúde pública. Como se trata de um vício generalizado, é praticamente impossível escapar dessa maldição contemporânea que nos fere a sensibilidade. Quando visito países como Portugal, França ou Itália, todos de cultura latina, portanto exuberantes em suas manifestações, a primeira coisa que logo percebo é o cultivo do silêncio, da preocupação em minimizar o barulho, de evitar qualquer estridência. Nas ruas, mesmo durante engarrafamento, ninguém buzina, ou os comerciantes cultivam uma eloquente discrição sonora. Ao contrário dos comerciantes do centro de Manaus, responsáveis diretos pela bagunça e o desrespeito que impera aqui onde vivo. Já disse que esses comerciantes, seguindo a cultura do repúdio ao bom gosto, parecem cultivar um conceito de publicidade que está mais para a barbárie que para a civilização. Esses imbecis acreditam que quanto menor o poder aquisitivo do freguês, mais surdo ele é, e tome música brega no último volume, e o lumpesinato batendo palmas ou gritando com megafones fanhos no pé do ouvido dos incautos que por ali transitam. Aponto os comerciantes pela baixa qualidade da vida no centro da cidade porque eles estão sempre ali, usando e abusando dessa tática de atração do freguês. Não sei se este modelo de publicidade típica de subdesenvolvimento, de baixa escolaridade realmente funciona, mas que irrita profundamente,1sto irrita. Mas os comerciantes estridentes não são os únicos e possuem a virtude de fechar as portas e desligar o

som às seis da tarde. Pena que sejam substituídos pelos outros comerciantes, os donos de bares e restaurantes. Incluo neste rol até mesmo os estabelecimentos ditos de elite. A maioria desses stabelecimentos usam enormes televisões de 55 polegadas no último volume, seja transmitindo a novela do momento ou passando a mais recente DVD de algum grupo musical candidato ao esquecimento no semestre seguinte. Sempre entendi que frequentar um bar ou almoçar ou jantar num restaurante era momento para confraternizar com os amigos, jogar uma boa conversa fora ou analisar o momento político.

Mas isto em 90% dos casos é impossível. Comentei com um amigo psiquiatra se ele tinha alguma explicação para o fenômeno. Ele me apresentou uma hipótese que faz muito sentido: as pessoas não têm mais nada para conversar. As cabeças estão vazias, ele me disse. É bem possível, pensei. As ondas sonoras geram energia capaz de derreter objetos sólidos. E se consideramos as mentes derretidas desses proprietários de imensas caminhonetes que carregam caixa de som espalhando ritmos de bate estaca, de preferência nas horas altas da madrugada, nem precisamos     um diagnóstico médico para constatar o nível de degeneração dessa gente. Por isso posso assegurar que aproveitei o máximo esses feriados carnavalescos, pelo vazio do centro e pelo precioso silêncio. Pude ler sem que meus ouvidos fossem violentados. Cultivar o silêncio é um sinal de respeito e educação para com os outros. O gosto musical, se é que se pode chamar de gosto o que nos obrigam a ouvir, é assunto pessoal. Volto agora à dura realidade. Um idiota evangélico estacionou seu carro logo aqui embaixo da minha janela com música gospel no último volume. t o que chamamos de quarta-feira de cinzas!

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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