Luiz Felipe Pondé

*Luiz Felipe Pondé

Não há santidade (humana, não divina) sem pecado. O santo é um especialista no mal.

Santos não são santinhos. A série de Paolo Sorrentino “The Young Pope” com Jude Law no papel do hipotético papa Pio 13 é uma aula sobre santidade. O tema é meio fora de moda. Ou confundido com gente que parece muito bacana, com ideias bacanas. Do tipo que funda startups pra combater a desigualdade. Ou vota no PSOL.

A série vale a pena ser vista se você está a fim de ver um tratamento da santidade para além do marketing brega do bem que assola até mesmo a Igreja algumas vezes –além, é claro, do tratamento estético maravilhoso, típico de Sorrentino, autor da obra-prima “A Grande Beleza”. Mas não vou dar spoiler.

Nos meus anos de dedicação à filosofia da religião na PUC-SP, a santidade foi um dois temas que mais me encantou —o outro foi a mística. Ainda me encantam, nos meus melhores momentos. Santos não são santinhos. A santidade numa pessoa não está enraizada no bem que a habita, mas nas suas mais profundas misérias.

Quem não se reconhece miserável não é capaz de perceber a misericórdia quando ela passa, com a suavidade da graça, pela sua vida. E, por consequência, jamais conhecerá Deus.

Sem pecado, não se enxerga Deus. Só os pecadores (e os neuróticos) verão Deus. Que Deus tenha misericórdia dos sem pecado. Dois escritores que entenderam muito bem a psicologia da santidade foram Fiódor Dostoiévski (1821-1881) e Georges Bernanos (1888-1948).

A santidade está enraizada na mais profunda miséria que constitui a natureza humana. Não há santidade (humana, não divina) sem pecado. O santo é um especialista no mal. A sua maior proximidade de Deus é, na verdade, assentada na sua absoluta consciência da enorme distância que existe entre ele e Deus. Quem se julga perto de Deus é porque está muito longe Dele.

Entre algumas das obras teológicas de mais peso sobre a santidade, uma, em especial, sempre me pareceu bastante consistente e, ao mesmo tempo, acessível. Infelizmente, devo confessar, sem tradução em português.

Publicada na Alemanha em 1970, “Schwestern im Geist: Therese von Lisieux und Elisabeth von Dijon”, da editora Joahnnes Verlag, escrita pelo teólogo católico suíço-alemão Hans Urs Von Balthasar. Seguramente há tradução para o inglês, e talvez para o espanhol, francês ou italiano. Numa tradução livre, “Irmãs no Espírito: Thereza de Lisieux e Elisabeth de Dijon”. Trata-se de um estudo acerca da santidade de duas santas francesas.

Segundo Von Balthasar, existem dois tipos básicos de santidade. Dito de forma breve, seriam os santos que brotam do chão do mundo e os santos que Deus lança sobre o mundo.

Os que brotam do solo do mundo surgem a partir do esforço pessoal da mulher ou do homem que anseia pela santidade. Através de um doloroso esforço (estamos longe aqui da ideia de que uma pessoa não possa tentar enfrentar o pecado com suas próprias forças), eles acabam por conseguir iluminar o mundo, em alguma medida, com as virtudes de Deus.

Eles acabarão por ser reconhecidos pela comunidade à sua volta, e Deus, diz Von Balthasar, os aceita como reconhecimento do esforço humano para se aproximar Dele e da Sua santidade. Esse “solo do mundo” é a comunidade humana na qual ele vive.

Nas palavras do teólogo, Deus se dobra diante de tal caminhada árdua em direção às virtudes divinas. Deus se comove com o embate que a pessoa leva a cabo em sua vida. O processo mesmo de “instalação” da santidade é conscientemente percebido pela pessoa em questão.

O segundo tipo de santidade, segundo Von Balthasar, é mais radical, mais dramático, mais sofrido e mais violento, de certa forma, porque se trata de uma invasão da vida da pessoa por Deus. Dito de forma direta: nada tem a ver com a escolha da pessoa em questão de buscar a santidade, não há um processo de tomada de consciência da “instalação” da santidade em paralelo ao esforço dela, como no primeiro caso, criando uma experiência mais gradual.

Neste caso, Deus escolhe a pessoa e pronto, não a avisa “previamente”. Como consequência, sua vida, sua consciência, seus atos, seu corpo, tudo que lhe pertence, é tomado de assalto por Deus. Aos poucos, às custas de enorme resistência e dor, esse santo será levado a aceitar o fato que sua vida não mais lhe pertence. Esse é o tipo que sente o peso da mão de Deus sobre sua cabeça.

A intimidade com Deus é, muitas vezes, uma experiência devastadora e intrigante, mas sempre fascinante. Esse é o tipo de santidade descrito na série “The Young Pope”.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada C6, de 02/07/2018.
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