“(…) Meio que lentamente, a instituição e o prédio foram sendo saqueados, até que chegou ao lamentável estado em que se encontra: prestes a sumir da paisagem da cidade.

O abandono completo e desesperador do prédio da Santa Casa de Misericórdia, construído em terreno do estado, com recursos públicos, doações de muitas pessoas. resultado de várias loterias como era hábito nos tempos ‘do, Império, e mantido durante anos a fio pela abnegação de diversas personalidades, amazonenses
ou não, e de governantes sensíveis, acha-se prestes a ruir depois de ter sido saqueado de todas as formas e por muitos desocupados.

As dificuldades financeiras e operacionais para seu funcionamento foram se agravando até chegar ao ponto de se tornarem impeditivas de manter a instituição com atendimento ao público.

Depois disso, meio que lentamente, a instituição e o prédio foram sendo saqueados, até que chegou ao lamentável estado em que se encontra: prestes a sumir da paisagem da cidade.

Compreendo os entraves para a atuação direta dos governos na solução do problema por tratar-se de entidade privada, sem fins lucrativos, com interventores nomeados judicialmente, e por ser uma instituição que, segundo consta, possui um conjunto de dívidas e perdeu todos móveis, equipamentos e utensílios hospitalares e administrativos que possuía.

E não saberia dizer dos seus bens imóveis. Sei que o governo estadual chegou a editar desapropriação do imóvel.

Conheço o processo que corre na Justiça Federal e no âmbito estadual, em defesa do bem como patrimônio histórico de Manaus.

Acompanho o esforço de alguns grupos da sociedade interessados em sua recuperação, a partir do salvamento da antiga capela do hospital.

Nos últimos meses em que exercia o cargo de secretário de estado de Cultura estive empenhado pessoalmente na busca de defender o prédio, atuando com apoio de funcionários abnegados e entes como IPHAN, SEAS e Justiça Federal, e foi quando promovemos a limpeza interna retirando os entulhos, deslocamos ‘os invasores – empregamos alguns deles e outros foram recambiados para as cidades de origem – , contratamos empresa de vigilância armada edificamos tapume e cerca de proteção com arames farpados, além de proceder registro das decorações das paredes, escadas, etc., as poucas que ainda restavam.

Depois disso, mobilizamos e remuneramos artistas para a realização de murais decorativos nos tapumes, como gesto de dignidade ao edifício.

Uma proposta de telhamento provisório e de medidas gerais de contenção das paredes de todos os prédios antigos daquele complexo foi apresentada à Justiça Federal, e levada às instâncias superiores da administração estadual, mas o, pouco tempo que me restou naquele posto não me permitiu concluir essa parte do programa de salvamento que definimos.

De lá pra cá não tivemos mais notícias de medidas do governo estadual no sentido de continuar as ações que vinham sendo implementadas, até porque, diga-se de passagem, a área estadual de cultura passou por profunda alteração de objetivos e de gestão desde fins de 2017 e no ano de 2018, com a nova equipe que assumiu a secretaria.

O que vemos, lamentavelmente, é a aproximação do fim.

O prédio da Santa Casa parece estar resistindo unicamente para fazer prova da boa qualidade das edificações antigas nas quais pedra, cal e blocos de pedra eram utilizados e os construtores costumavam cumprir os contratos com critério e responsabilidade.

Na verdade, a Casa que viu nascer milhares de amazonenses, contribuiu para a recuperação da saúde de muitos e se impunha com beleza na paisagem urbana clama agora pela Santa Misericórdia de todos nós.

De mim, tenho pronta uma proposta de estratégia que crio possa recuperá-la e fazê-la funcionar em moldes modernos e adequados aos tempos de crise econômica que vivemos, e estou disposto a apresentá-la a empresários e governantes que se interessem.

Misericórdia para a Santa Casa, por amor a Manaus!

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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