fernanda torres
*Fernanda Torres

Além das formas, arquiteta antropóloga enxergava a chuva, o vento, a natureza e a vida.

Em 2012, o artista plástico Isaac Julien veio ao Brasil para a exibição de seu “Geopoetics”, no Sesc Pompeia. Impactado pela reforma da antiga fábrica da rua Clélia, Julien retornou à Inglaterra obcecado com a ideia de prestar um futuro tributo a Lina Bo Bardi.

Após sete anos, ele convidaria a mim e à minha mãe para encarnar a arquiteta ítalo-brasileira, em duas fases da vida, numa videoinstalação.

Dona Fernanda e eu devemos a esse inglês, filho de martinicanos, as duas semanas de imersão bobárdica, entre Salvador e São Paulo, e a descoberta, na vertical, da subversiva Lina. A “Marvellous Entanglement” estreou em 2019 na galeria Victoria Miro, em Londres, com críticas consagradoras. Hoje, a obra roda o mundo, mas sua vinda ao Brasil foi adiada devido à pandemia.

Do Solar do Unhão ao Sesc Pompeia; do Masp ao Teatro Oficina; do restaurante Coati à Casa do Benin, tudo tem razão de ser nas edificações dessa romana naturalizada brasileira. Tudo é simples e concreto, feito para sobreviver às intempéries e ao tempo. Tudo resiste e existe graças a um fecundo sentido de utilidade.

Em maio, a editora Todavia lança “Lina, Uma Biografia”. Fugindo da linha cronológica do “do feto ao túmulo”, Francesco Perrotta-Bosch viaja entre as décadas, unindo a jovem e promissora italiana à entidade que baixou e amadureceu no Brasil.

Nascida no início da Primeira Guerra, Lina encarou, na flor de seus 25 anos, um segundo conflito mundial. “Aqueles que deveriam ter sido anos de sol, de azul e alegria, eu passei debaixo da terra, correndo e descendo sob bombas e metralhas.”

Para nós, que atravessamos o horror da Covid, é uma baita lição de perseverança.

Sobreviventes de guerra, ela e o marido, Pietro Maria Bardi, deram as costas à Europa para se aventurar num país “sem nenhum traço de índole civilizatória”. A convite do empresário Assis Chateaubriand, o casal cruzou o Atlântico com a missão de fundar um museu de arte em São Paulo.

Pietro era a força motriz da empreitada, Lina veio a reboque. Dos dois, no entanto, foi ela quem se imiscuiu e chafurdou na terra onde fincou raízes. Foi dela o maior legado. Lina apresentou o Brasil ao Brasil.

Pietro Maria Bardi negociou o impressionante acervo do Masp, é verdade, mas o vão do impressionante edifício onde, até hoje, se realizam as mais importantes manifestações populares do país, foi intuído por ela.

Fotos da arquitetura original do Masp

Vão livre do Masp sem as atuais bilheterias Divulgação/Instituto Lina Bo e P.M. Bardi

Pinacoteca com iluminação natural e cavaletes originais Divulgação/Instituto Lina Bo e P.M. Bardi

O vão e os cavaletes de vidro, a transparência que possibilita a perspectiva histórica da evolução da pintura. Não há, no planeta, nada que se compare àquela obra de arte de todas as obras de arte.

No fim dos anos 1950, Lina se mudou para Salvador, a fim de recuperar o Solar do Unhão. Inquieta, alistou-se no corpo docente da UFBA, a Universidade Federal da Bahia, lecionou arquitetura e fez a cabeça de futuros tropicalistas cinema-novistas, como Caetano Veloso e Glauber Rocha.

E fez teatro e cinema, dirigiu o museu e viajou pelo interior coletando objetos de uso cotidiano que, mais tarde, seriam exibidos na grande exposição sobre a Bahia no Ibirapuera.

A mostra romperia a fronteira entre arte e artesanato. Entre alta e baixa cultura.

Atenta ao valor “das coisas humanas não gratuitas” e à capacidade do povo de, movido pela necessidade, fabricar invenção e poética, Lina fez com os objetos do sertão nordestino o que Guimarães Rosa fez com a prosa.

Avessa ao supérfluo e ao decorativo, ao luxo cafona da acomodação burguesa, essa arquiteta antropóloga filha do modernismo uniu a Bauhaus ao pau a pique.

Lina Bo Bardi: Habitat

Arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi Bob Wolfenson/Divulgação

Lina Bo Bardi testa suporte de vidro para a Pinacoteca do Masp, 1967 Lew Parrella/Divulgação

A Guerra Fria, travada nos porões dos quartéis na América do Sul, foi a terceira por ela enfrentada. O período marcou o início de sua parceria com José Celso Martinez Corrêa, com quem realizou ambientações históricas, como a do ringue de “Na Selva das Cidades”, de Bertolt Brecht.

A colaboração perduraria, culminando no belo palco-estrada do Teatro Oficina, hoje tombado, marco da resistência à destruição do Bexiga.

Findos os anos de chumbo, coube a Lina urdir o Sesc Pompeia, berço do renascimento da cultura nos anos 1980.

Quem viveu sabe, eu sei.

De todas as suas criações, nenhuma me assombra mais do que a das janelas buraco. Mescla de escombros de guerra com toca de bicho, de construção inacabada com caverna de Platão, são a prova do quanto, para além das formas, essa mulher enxergava a chuva, o vento, a natureza e a vida.

Saber de Lina Bo Bardi é entender como tirar o Brasil da pobreza espiritual, estética, cultural, social e política sem, como defendem alguns, fuzilar metade da população.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 01/05/2021.

 

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