amor
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I

A madrugada chegara
molhada nessa manhã,
água da noite de véspera
escura. Coruja e rã
o sítio tarde dormia.
Desabrochava-se a carne.
de sombra os galhos de sombra
feriam de luz mortiça
a paisagem da manhã.
Corria o rio sem força
corria com pouco afã,
as nuvens sujas pairavam
tal quando canta o cauã.
Fundo cortando insalubre
vinha o vento na maçã
do rosto já magoado
da menina temporã.

II

Ela descia o caminho
que dava da casa ao rio,
a terra estava encharcada
da noite de chuva e frio,
o mato de folhas moles
roçava-lhe fino o fio
do corpo de raros pelos
ensopados de rocio.
Bocejo de fogo e forma
se lhe esboçava esse abio
duplo, da mulher menina,
planta agreste do arrepio.
Cheia de sono e preguiça
ia buscar água no rio.

III

Desde aí dessa manhã
nunca mais ela voltou,
seus irmãos desesperaram,
seu pai quase se matou,
fez a mãe nove novenas
mas de nada adiantou,
andava de boca em boca
que foi boto que a roubou,
as mulheres lamentavam
a mulher que se apagou,
luz de sol maduro e quente
que sequer nem se iniciou,
flor de carne e sentimento
que sem viver se murchou;
correram todos pro rio
mas ninguém a encontrou,
rezaram nove novenas
mas de nada adiantou,
seus irmãos desesperaram
seu pai quase se matou,
se sua mãe hoje existe
de chorar se definhou
os mistérios da menina
que em mistério se acabou.

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Elson Farias
*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.

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