“[ele] foi perito de companhia de seguros e, atuando na política, ainda que de forma discreta, integrou a Academia Amazonense de Letras logo no seu alvorecer, conquistou respeito e consideração pessoal e intelectual em meio a um grupo social de destacadas figuras. 

Enquanto lia, quase que devorando, ao modo do que gosto de fazer, dois livros dos quais gostei bastante, embora de estilos e propostas diferentes –“Guia politicamente incorreto dos presidentes da República”, de Paulo Schmidt, e “História da riqueza no Brasil”, de Jorge Caldeira – fui instado por professores que atuam no campo da pesquisa da história do Amazonas a escavar um túnel e redescobrir quem teria sido Ribeiro da Cunha, que dá nome a uma escola pública de Manaus.

Na forma do prometido, seguem o que meus arquivos registram sobre essa figura exponencial da medicina e das letras que viveu em nossa terra no período de ouro da economia da borracha.

Trata-se de Manoel José Ribeiro da Cunha, nascido no Maranhão em 1850, e filho de Manoel José Carneiro da Cunha com Amália Joaquina Ribeiro da Cunha. Tendo estudado na Bahia, formou-se na Academia de Medicina da “boa terra”, depois de frequentar a escola de 1869.a 1874. Pouco depois deslocou-separa Manaus, como fizeram vários outros jovens interessados em construir um futuropromissor, e tantas e tantas figuras que, à época, poderiam ser bem consideradas na área das letras jurídicas, do jornalismo e das ciências médicas.

Chegava a capital amazonense com todas as credenciais de haver cursado a melhor escola do País, e, conforme a tradição de então, defendido teses novas a cada. ano do curso. Foi assim que estudou o “calor” animal; “qual o melhor tratamento da hypoemia (anemia) intertropical”; “espasmos traumáticos e tétanos”; e, a discutida tese “Pode ser considerado herdeiro legítimo o filho de uma viúva nascido dez meses da morte do marido”.

Como visto não cuidavam de temas corriqueiros, mas centravam-se a enfrentar os assuntos mais polêmicos que estivessem sendo debatidos, inclusive no campo da medicina legal, no qual a sua defesa de tese final rendeu a aprovação com todas as distinções possíveis, dando-lhe, de logo, certa fama.

Clinicando em Manaus, com consultório primeiro e durante algum tempo, no Hotel Cassina, e depois na casa de sua residência na Rua Municipal, n.” 78, foi perito de companhia de seguros e, atuando na política, ainda que de forma discreta, integrou a Academia Amazonense de Letras logo no seu alvorecer, conquistou respeito e consideração pessoal e intelectual em meio a um grupo social de destacadas figuras versadas em vários idiomas, leitores do bom francês, cultores das boas letras.

Como professor, bem acolhido pelos alunos, especialmente da Escola Normal e do Ginásio Amazonense, lecionou física, química e história natural, desde 1900, e integrou várias comissões examinadoras de concurso público para o magistério estadual sendo considerado o arguidor mais impetuoso, ainda que educado e rigoroso nas notas.

Mesmo quando a República já se consolidara e estava alta e com toda a força a confusão oligárquica que se seguiu à tomada do poder em1889, Ribeiro da Cunha mantinha-se monarquista convicto, ao lado dr. Clementino Guimarães, o conhecido barão de Manaus, de Coelho Rezende, de Calmont de Andrade e poucos outros que se eram fiéis à Família Imperial e, especialmente, a D Pedro 11. Com tais vínculos foi deputado geral em vários mandatos e candidato ao Senado Federal pelo Partido Revisionista, o que significa dizer, ao lado de Adriano Jorge, HeliodoroBalbi, Jonathas Pedrosa, mas, destacada mente, pela chapa monarquista como fazia questão de divulgar pelos jornais.

Seu parentesco com o poeta Castro Alves jamais foi por ele utilizado na convivência com os intelectuais amazonenses, seja pelo seu espírito recolhido como salientavam os contemporâneos, seja porque se manteve sempre filiado aos estudos científicos e médicos, sem enveredar pela poesia.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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