“Não sei, mastinhaasensação, agora revista quando o olhar se põe sobre o passado,queelesaspiravamquefosseumeloaajudar a construir o novo raiardaAcademia.”

O mundo acadêmico impregnou Minh‘alma bem cedo. As leituras ao tempo de menino pequeno, os discursos em solenidades oficiais e cívicas da escola, a declamação aos domingos no palco do Teatro Amazonas nos programas do Vovô Branco de tão bons exemplos … estiveram comigo desde pouco antes de completar os cinco anos deidade. Diria que desde a antemanhã em que pudesse escrever algo com algum sentido, fase em que recebia de presente dos meus pais e irmãos textos bem elaborados em papel ai maço, sempre com a caligrafia elegante e bem desenhada de minha mãe e mestra.

Depois, o treino da impostação, da leitura pausada, do reconhecimento das palavras que ainda não eram familiares: o preparo para a festa por entre as tarefas da escola. Era uma responsabilidade que, passados tantos verões, confesso, não me pesava aos ombros. Alegrava-me, sobretudo, por ver o orgulho e a felicidade que meus pais sentiam e me transmitiam, com simplicidade e discrição.

Foi assim, desde bem cedo como o raiar do sol nas manhãs mais belas, que fui sendo acostumado a falar em público e a vencer a timidez, como se estivesse sendo esculpido para a posse na Academia em 25 de setembro de 1982 quando pedi às estrelas que fossem minhas companheiras eme dessem a luz, e que culminou, algumas luas depois, com o privilégio e a honraria de assumir a presidência, não sem antes fazer abrir os portões para os artistas da plástica e do teatro de bonecos, o que aproximou a Academia da sociedade.

Depois foi lançado o imã sobre os que se aproximavam da minha geração: Max Carphentier (que belo poeta no verso e na prosa), Moacir Andrade, antigo símbolo de gerações.

Ao olhar do cimo pouco depois dos anos juvenis, o que via diante de mim eram os mestres-generosos -, a impulsionarem meus sonhos e ardentes desejos presidenciais: Mário Ypiranga, João Chrysósthomo de Oliveira, Octávio Mourão, Aderson Dutra, Paulo Jacob, OyamaItuassu, William Rodrigues, Newton Sabbá Guimarães, Manuel Bastos Lyra, Agenor Ferreira Lima … cabelos

brilhantes pelo orvalho e olhos fitos na esperança, que permitiram e até instigaram a ascensão.

É que pouco a pouco fui tomando a responsabilidade de dar de mim o ardor pessoal pela Casa. Aprendendo com eles e costurando as relações políticas entre alguns que se distanciaram quase que a constituir hiatos de gerações.

Não sei, mas tinha a sensação, agora revista quando o olhar se põe sobre o. passado, que eles aspiravam que fosse um elo a ajudar a construir o novo raiar da Academia. Foi assim que ‘preguei a candidatura de Paulo Nery à presidência, bem acolhida e da qual o mestre se afastou para não ferir um amigo comum, levando-me a buscar coalisão para o nome de OyamaItuassu ao cargo, obtida por idas e vindas, de seca a meca, e horas e horas de conversas. Um quinquênio depois fui levado a romper as seguidas reeleições, não pactuadas antes.

E mais … corno foram transformadores aqueles tempos. Novo estatuto, sabiamente preparado por José Braga e Aderson Dutra; eleição por edital público, não mais por indicação de acadêmicos; abertura dos salões para lançamento de livros, palestras; instituição do colégio de ex-presidentes; estímulo a candidaturas jovens; reedição, ainda que modesta, de obras de acadêmicos; aproximação real dos extremos que se distanciavamda Casa. Essa, a maior aspiração que carregava – a reaproximação dos opostos, dos distantes, dos distanciados, dos nucleados, dosapartadosdos recolhidos. Creio que foi obtido.

Depois demim o Max, adiante o Elson, a seguir o Josée o mais por diante, e, quase vint’anos depois o ideal refloresce na glória centenária ea honraria é renascida. Como será?.. o dirão os anos futuros. Agora, prestes a concluir mais um mandato de residente, o que regeu as festas centenárias, tenho comigo que os objetivos traçados por novos idealistas que se postaram ao meu lado na direção da Casa de “Adriano Jorge”, foram plenamente atendidos, certamente porque não nos faltaram recursos que, antes, eram escassos por demais.

Como será o amanhã? Bem, o futuro a Deus pertence. Por mim, confesso que revivi a honra renascida e dou a missão por cumprida.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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