Todo final de ano a mídia faz uma retrospectiva revigorando coisas positivas sem deixar as negatividades no esquecimento. Como pertenço ao grupo da última idade, que se convencionou chamar de terceira idade (como se tivesse a quarta) resolvi, neste início de 2012, fazer uma breve retrospecção de minha vida que deixo registrada nesta coluna que o Jornal do Commercio me concede desde julho de 2000.

A primeira lembrança gravada em minha memória é a infância no Principado de Itacoatiara uma denominação que uso para homenagear o comportamento ético e moral dos antigos políticos da Velha Serpa que morreram pobres por terem usado o dinheiro público para propiciar, naqueles tempos difíceis, o bem estar possível para a comunidade.

A vinda para Manaus

A saída de Itacoatiara, para os filhos estudarem, foi um ato doloroso para meu pai – Osorio Alves da Fonseca – que tinha feito da Velha Serpa seu torrão de amor. Aqui estudei nos Grupos Escolares Euclides da Cunha e Princesa Isabel, fiz o ginasial no Colégio Dom Bosco e o curso científico no Colégio Estadual Pedro II.

Meu primeiro trabalho

Naquela época não havia muitos empregos em Manaus e acabei ingressando no Inpa para trabalhar como mateiro no primeiro projeto de silvicultura tropical da Amazônia, que foi coordenado pelo Dr. Rubem Vale e implantado na Reserva Florestal Adolpho Ducke. De lá fui promovido para aprendiz de laboratório e incluído nas expedições de microbiologia de solo da mata primária – convênio Inpa x Imur – e passei dois anos trabalhando no interior da região, primeiro no Rio Tapajós e depois em Rondônia.

O pioneirismo

Sob orientação do Dr. Augusto Chaves Batista, mesmo antes de formado descrevi dois gêneros e vinte e duas espécies novas de fungos dando minha contribuição para o conhecimento da biodiversidade amazônica. Ao final das expedições o Dr. Djalma Batista me ofereceu uma bolsa de estudos para cursar  uma Universidade e graças a essa generosidade me formei em Ciências Naturais (na atual Unesp – SP) indo me especializar, na USP, com o Dr. Carlos da Silva Lacaz, com quem realizei meu mais importante trabalho em micologia médica, esclarecendo a etiologia da Blastomicose queloidiforme.

Registro ainda como atividades pioneiras na vida profissional: *professor assistente de microbiologia e imunologia da primeira faculdade de medicina de Jundiai; *participação como vice-diretor, na construção dos primeiros prédios da sede do Inpa (Aleixo); *professor de micologia no primeiro curso de pós-graduação (stricto sensu) da Amazônia – Botânica/Inpa, embora o responsável fosse o Dr. Ghillean Prance, pois eu ainda não tinha doutorado; *professor visitante no Centro de Ecologia da UFRGS;*professor do primeiro mestrado em Direito Ambiental do Brasil iniciado com a implantação da UEA; *coordenador “pro tempore” do primeiro Mestrado Profissional em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos, em implantação na UEA.

No Inpa, além das atividades de pesquisa, chefias e orientação na pós-graduação, tive o privilégio de ser, por três vezes, vice-diretor (Paulo Machado, Eneas Salati e Seixas Lourenço) e de estruturar e coordenar o primeiro projeto de avaliação de impacto ambiental de uma hidrelétrica na Amazônia – UHE Tucurui. Na área internacional fui coordenador brasileiro de dois importantes convênios científicos, sendo um com as universidades americanas de Maryland e California e outro com a Jica (Japão).

Sou Mestre em Ecologia pela UFRGS e Doutor em Ciência pela UFSCar e, em 1995 fui nomeado pelo Presidente da República para a Direção do Inpa onde implantei os projetos Centros de Excelência e Pesquisa Dirigida associados ao PPG-7 e ao Programa do Trópico Úmido. Fui eleito presidente da Comissão Regional de Pesquisas da Amazônia (Lei 7.796/89), escolhido para integrar, em 1999, no International Who’s Who of Professionals, sou membro da Ordem Nacional do Mérito Científico e do Mérito Militar, membro honorário da Academia Amazonense de Medicina e titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas. Depois de participar de muitos projetos científicos, orientado muitos trabalhos de alunos, ter dado milhares de aulas na graduação e pós-graduação, escrito capítulos de livros, publicado muitos artigos científicos e gerenciar muito dinheiro público ostento, com orgulho, o fato de no final da última idade, não possuir um único imóvel deixando como herança apenas um curriculum vitae de muitas páginas na Plataforma Lattes.

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Ozório Fonseca
Biólogo, Mestre em Ecologia, Doutor em Ecologia e Recursos Naturais. Professor Visitante na UFRGS (1983-1995). Diretor do INPA (1995-1999), Professor da UFAM e da UEA. Membro Honorário da Academia Amazonense de Medicina; Membro Titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Filho do ex-prefeito de Itacoatiara Osório Alves da Fonseca (1889-1960) e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado em Itacoatiara. É o nosso querido mestre do Principado de Itacoatiara (título que conferiu à nossa cidade).

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