O Brasil cresceu diferentemente dos países do velho mundo, os europeus, por exemplo, acompanharam em ritmo lento o envelhecimento da sua população, no Brasil o fenômeno surgiu em uma velocidade espantosa, em menos de 50 anos nossa pirâmide etária modificou e já não somos mais um país tão jovem. Nossa expectativa de vida obteve o seu maior marco a partir de 2018 (IBGE) e hoje alcançamos uma expectativa de vida de 79,9 anos para mulheres e 72,8 anos para os homens. Por conta disto temos uma concentração cada vez maior de pessoas acima de 60 anos. Atualmente o número ultrapassa a casa dos trinta milhões de indivíduos idosos no Brasil, bem maior que a população de zero a cinco anos de idade.

Infelizmente o fenômeno do envelhecimento ainda é um desafio social para uma geração que não respeita os que tiveram o privilégio do envelhecimento e este mês é dedicado a campanha mundial de combate a violência contra à pessoa idosa. Venho alertar para uma triste realidade enfrentada pelos idosos que já são discriminados por conta da idade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define como violência ou maltrato contra o idoso o ato (único ou repetido) ou omissão que cause dano ou aflição e que se produz em qualquer relação na qual exista expectativa de confiança, por falar em confiança temos os dados alarmantes onde os agressores são os próprios familiares. A violência contra estas criaturas, experientes, com muita sabedoria, e na maioria das vezes os provedores da sustentabilidade de toda família, podem ser de diversas naturezas: há a violência física, emocional, financeira, verbal, patrimonial, violência medicamentosa (iatrogenia), assim como o abandono, a negligência e autonegligência, e a espantosa violência sexual sobretudo com as mulheres.

O termo “velho” é muitas vezes usado no sentido discriminatório, há quem prefira idoso, mas a verdade é que a maioria são tratados como imprestáveis, e toda a sua dignidade é definhada no esquecimento! Muitos são agredidos com violência verbal chocando quem assiste, outros são abandonados dentro da sua própria casa, arrumam um quartinho distante e o excluem das atividades familiares. Há algumas situações em que mesmo com recursos financeiros a família opta por abandonar seus pais em asilos e passam a viver como se não houvesse responsabilidades para com eles. A violência monetária é outro fator que aprisionam os idosos a viverem com filhos abusivos que na maioria das vezes são dependentes economicamente, roubam, ficam com os cartões correspondentes as suas pensões e aposentadorias sobrando pouco para alimentos, cuidados e medicamentos necessários para o idoso. Culturalmente não fomos criados para viver com este aspecto intergeracional, hoje temos dentro de casa a mãe, o filho, a neta e quiçá a bisneta, o que deveria ser visto como um lindo legado familiar muitas vezes é transformado em transtornos. O envelhecimento assim como qualquer fase da vida tem suas particularidades e necessita de afeto e apoio emocional de toda a família, desejar a finitude deles para se livrarem de um “peso” demonstra o quanto precisamos evoluir como seres humanos, mas tem ainda uma coisa pavorosa que é violência sexual, principalmente das mulheres idosas, muitos se aproveitam da carência emocional para aplicar golpes e outros de fato cometem crimes grotesco de caráter sexual, deixando marcas na saúde mental.

Portanto, venho aqui clamar pelo respeito a pessoa idosa, somente a educação pode mudar nossos valores. É uma dádiva amar aqueles que tiverem o privilégio do envelhecimento, cuidem com carinho e amor dos seus pais, avós ou qualquer pessoa com graus de parentesco dentro de suas casas, denunciem e protejam nossos idosos de todos os tipos de violência.

Cuidem-se e cuidem dos seus semelhantes!

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Euler Ribeiro
*Amazonense de Itacoatiara. Médico, MD. PhD em Geriatria e Gerontologia. Ex-secretário de Saúde e ex-deputado federal pelo Estado do Amazonas. Fundador e atual Reitor da Fundação Universidade Aberta da Terceira Idade. Membro das academias amazonenses de Letras e de Medicina.

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