“É de se repetir como Mozart, de forma incessante e contrita, confiantes na razão de ser de tudo que preside nossa passagem pela terra – “Senhor, tem piedade/Senhor, tem piedade/Cristo, tem piedade/Senhor, tem piedade”

Está em Mozart, em uma das mais sentidas composições que se conhece e que, logo na abertura, faz a conclamação em favor dos mortos no sentido que a igreja católica costuma reconhecer: “Repouso eterno dá-lhes Senhor/ que a luz sublime os ilumine/ Tu és digno de hinos, o Deus, em Sião/ E a ti rendemos homenagens em Jerusalém/ Ouve a minha oração/Diante de Ti toda carne comparecerá/ Repouso eterno dá-lhes, Senhor/ Que a luz perpétua osilumine”

Essa maravilha de música traduz o amor mais puro e a harmonia especial que, em verdade, dominam meu sentimento nessa hora de dor e angústia que todos passamos pelos que estão sucumbindo a essa doença inesperada que surpreendeu o mundointeiro.

O que rogamos – todos que somos criadossoba força da fé, dacaridade edo amor de Deus – é a paze o conforto para os familiares dos irmãos que desencarnaram nesse momento crucial, acometidos pelo vírus contra o qual a medicina – moderna e vigorosa medicina capaz de vencer muitos males que se abalam contra a frágil matéria humana – não só não conseguiu a cura nema vacina, como titubeia em medicações experimentais, nem sempre com sucesso.

O sofrimento pelo qual têm passado inúmeras famílias pelo adoecimento e pela separação física de seus entes queridos está estampado no intenso noticiário de imprensa, especialmente televisiva, refletindo e descrevendo as circunstâncias dos fatos, da luta, da dor, e, debalde, do esforço sobre-humano de médicos e outros profissionais de saúde que vêm se aplicando na defesa da vida de quantoschegam aos hospitais e postos de saúde.

As circunstâncias atemorizam e não têm permitido o velório a que, conforme a tradição crista, a sociedade amazonense está acostumada. As despedidas vêm sendo feitas por poucos membros da família, ficando os corpos inertes despojados dos ofícios religiosos tradicionais conforme práticas de fé que professaram. Dá-se, então, dor mais profunda pelo impedimento de proceder a entrega do involucro material à terra-mãe, enquanto oram aos céus na solidão do isolamento em que se encontram em defesa da própria sobrevivência.

É de se repetir como Mozart, de forma incessante e contrita, confiantes narazão de ser de tudo que preside nossa passagem pela terra –“Senhor, tem piedade/Senhor, tem piedade/Cristo, tem piedade/Senhor, tem piedade”. Piedade para carregar a todos nós nos Seus braços amantíssimos, para acalmarnossos corações angustiados e acolher os que partiram nesse tempo de grande sofrimento. Mas estamos agradecidos por essa oportunidade de crescimento superior.

O que rogamos é a melhor compreensão de que a morte, tal como ensina o Evangelho, “não é nenhuma interrupção, nem uma cessação de vida, mas uma transformação sem solução de continuidade.” E que após o acolhimento na transição para outro plano, haja um “despertar mais calmo e consigam despojar-se da matéria”, e que “percebam e recebam a luz e a consciência de si mesmos para que consigam sair da perturbação que acompanha a passagem da vida corporalpara a vida espiritual.”

Que sejam apoiados e despertem para a nova vivência em busca de se reconhecerem como espíritos eternos em evolução constante.

Não haverá paz em nossos corações sem que possamos orar pelos nossos irmãos que agora foramretirados do convívio terrenoconforme o plano traçado para essa passagem. Que os aflitos com esserompimento sejam confortados. Que os filhos sejam orientados e fortalecidos. Que as flores nasçam novamente nesses jardins entristecidos.

Façamos conforme os rogos de Mozart, e em uma só voz, na hora certa de nossas orações, peçamos: “Dai-lhes o repouso eterno/Que a luz eterna os ilumine, Senhor/ Com os teus santos pela eternidade: Pois és piedoso/ Repouso eterno dá-lhes Senhor/ Que a luz perpétua os ilumine.” Que creiam na eternidade da vida em espírito.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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