fernanda torres
*Fernanda Torres

A ética, a estética e o imperativo moral nunca foram tão necessários

Nascida no balneário, educada em escolas experimentais e formada pelo Asdrúbal Trouxe o Trombone, sempre encarei São Paulo como terra estrangeira. A conquista da culta, cinza e mordaz Pauliceia representava, para uma bandeirante tijucana, como eu, o ingresso, ou não, na vida adulta.

Eu tinha medo de São Paulo. Medo do Antunes e do Zé Celso, da Folhae do Arrigo Barnabé, dos punks da periferia, dos irmãos Campos e da ira dos Titãs.

Eu demoraria décadas para deixar de me sentir acuada numa roda de intelectuais da garoa, e já me considerava curada, quando dei de ouvir o nome Adorno repetido à exaustão pelos manos.

Sem saber se adorno era substantivo, adjetivo ou pessoa, o trauma reacendeu, a ponto de me vir à cabeça uma definição à moda do “Dicionário das Ideias Feitas” de Flaubert: Paulistas – Leem Adorno.

Por isso, numa breve entrevista de estreia aqui, respondi que escrever neste espaço carregava o peso de dividi-lo com quem leu Adorno. Não devo ter sido clara porque a brincadeira, ao ser publicada, saiu seguida das aspas: “Eu até tentei, mas não consegui”.

Volto ao assunto para corrigir as aspas que, em tempos tão avessos ao intelecto, podem soar não só bobas como nocivas.

A “Dialética do Esclarecimento” é um livro obrigatório para entender o porquê de o MEC tratar as cadeiras de filosofia e sociologia como penduricalhos inúteis para o cidadão de bem que paga imposto.

Ao justificar o corte de investimento, Jair citou a veterinária, a engenharia e a medicina como áreas de utilidade pública, “ofícios que geram renda e bem-estar para a família, melhorando a sociedade em sua volta”.

A “Dialética” aprofunda a visão de Messias. “Hoje, com a metamorfose que transformou o mundo em indústria, a perspectiva do universal, a realização social do pensamento, abriu-se tão amplamente, […] que o pensamento é negado como mera ideologia.”

No longo caminho que levou a humanidade do animismo às luzes da ciência, o burguês esclarecido, movido pela razão e a técnica, teria nascido com o grego Ulisses da “Odisseia”.

O náufrago astuto que mapeia o mundo antigo, regido pelos deuses do mar, da terra e do ar, prestaria sacrifícios não pela crença, mas para “lograr tais deuses, subordinando-os ao primado dos fins humanos, […] como depois o viajante civilizado logrará os selvagens ao oferecer-lhes contas de vidro em troca de marfim”.

O processo de submissão da natureza ao eu, no entanto, acabaria por transformar o próprio homem numa peça azeitada dessa engenharia. Um ser produtivo, especializado na divisão do trabalho, mas desprovido de consciência e alma.

“A maldição irrefreável do progresso irrefreável é a irrefreável regressão.”

A máquina civilizatória, tão carente de corpos alienados para mover a produção e o comércio, termina por se revelar uma nova natureza, tão assustadora quanto a dos primitivos, e igualmente regida pela lei indiferente da autoconservação.

“A vida no estado natural puro, animal e vegetativa, que constituía o perigo, retorna atiçada pelo processo que pretendia exorcizá-la.”

“A expulsão do pensamento da lógica”, como deseja o MEC, “ratifica na sala de aula a coisificação do homem na fábrica e no escritório. A fantasia atrofia-se”.

Com os ouvidos moucos, como os marinheiros fiéis a Odisseu, a massa rema num curso firme enquanto uns poucos usufruem da embriaguez narcótica do canto das sereias, da arte e do livre pensar, desde que amarrados a um poste.

O espaço é curto para tão ampla teoria, mas a ciência apartada da reflexão sobre seus fins, que engatinha com Ulisses, atinge a maioridade com a mecânica perversa dos jogos sexuais do Marquês de Sade.

Nesse sentido, Mark Zuckerberg é o novo Dolmancé.

O idealizador da suruba virtual do Facebook insiste em reduzir sua invenção a um mero mecanismo de relacionamento. O argumento o livra da legislação imposta à mídia tradicional e da responsabilidade pelo ódio lascivo da rede e o gozo sem freio das fake news.

A Cambridge Analytica, o goldenshower e a amputação penianatambém servem de exemplo para o livre sadismo tecnológico.

A convivência da engenharia, da medicina e da veterinária com a ética, a estética e o imperativo moral nunca se fez tão necessária, mas remamos na maré contrária, em direção à Cila e ao Caríbdis.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 05/05/2019.
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