*Laura Mattos​

Estudo do Instituto de Pesquisa Albert Einstein avalia que dores indígenas sentem e como as tratam.

Enquanto entrevistava índios no Amazonas para descobrir que dores sentiam e como as tratavam, a enfermeira Elaine Barbosa de Moraes, 42, enfrentava uma LER (lesão por esforço repetitivo) nos braços. O problema perdurava havia cinco anos, com pouca melhora diante de anti-inflamatórios e compressas geladas.

Uma das mulheres da aldeia então aplicou na região dolorida uma resina chamada breu-branco, extraída da árvore de mesmo nome e misturada com urucum. O remédio fora preparado pelo pajé, que cantara sobre ele durante horas a fim de ativar seu efeito.

Três dias depois, a dor desapareceu, e o efeito se prolongou por quatro meses.

A experiência pessoal ilustra o que Elaine constatou em sua pesquisa para o Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, ligado ao hospital: ainda que os chamados “remédios do branco” sejam utilizados por 86,7% dos indígenas que ela entrevistou, as drogas acarretam alívio na dor para apenas 22,2% deles.

Já alternativas analgésicas locais, usadas por 80%, são eficazes em 64,5% dos casos. Dentre os tratamentos indígenas, os mais usados são os que eles chamam de remédios do mato (75,6%), feitos com plantas. Mas há outras formas de tratar a dor, como rituais, banhos , rezas, veneno de sapo, picadas de formiga, cantos e fumaça.

Os dados fazem parte do mestrado defendido pela enfermeira no mês passado.

Com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), ela liderou em 2017 uma equipe de pesquisadores que se deslocou durante dias pela floresta amazônica, utilizando avião, carro, motos, lancha, barco a remo e descolamentos a pé em mata fechada até chegar a aldeias do Vale do Javari. Localizada no oeste do Amazonas, essa é a região com o maior número de indígenas isolados do mundo.

Pioneiro, o estudo aponta a necessidade de se criar um diálogo entre a medicina convencional e a indígena, o que seria bom não só para os índios, defende Elaine, mas para todos.

“Nós, brasileiros, não valorizamos um conhecimento ancestral que é nosso. No caso dos tratamentos chamados alternativos, aceitamos a medicina chinesa e pagamos caro por ela, mas pouco sabemos sobre as terapias indígenas”, afirma a enfermeira, que é pesquisadora e professora da unidade de Manaus da Unip.

Sua orientadora na pós-graduação, Eliseth Leão, 54, é professora e pesquisadora do Einstein. Ela acompanhou Elaine na expedição e fez as fotos usadas no trabalho.

“No Brasil, parece que os índios nem existem. Muitos remédios alopatas advêm de produtos que eles utilizam e nos esquecemos dessa riqueza abandonada à biopirataria. É preciso aliar conhecimentos para melhorar o atendimento aos índios e estudar que práticas deles podem ser inseridas com segurança em outros contextos. Para os dois lados essa integração seria importante”, defende.

A amostra de entrevistados foi formada por 45 homens e mulheres de três diferentes etnias: marubo, canamari e matis (esta última sem nenhum contato com não índios até o final da década de 1970), além de 36 funcionários do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), órgão do governo federal ligado ao SUS (Sistema Único de Saúde).

Para conversar com os indígenas, que não falam português, os pesquisadores precisaram de intérpretes. No momento da entrevista, 77,8% deles disseram estar com dor, a maior parte no tronco, além de dor de cabeça e nos dentes.

Com a equipe do DSEI, Elaine sondou a qualificação para o trabalho e o modo como se lida com a dor dos pacientes. São 265 profissionais para os mais de 5.400 índios do Vale do Javari, dentre os quais seis médicos, seis dentistas e um psicólogo. Há 40 enfermeiros, mas o maior número é o de técnicos em enfermagem, 82. Dos entrevistados, apenas 11,1% são indígenas.

A escassez de médicos nessas regiões, explica Elaine, gerou protocolos que autorizam enfermeiros a fazer o trabalho de ouvir as queixas dos índios e indicar tratamentos.

Nesse cenário, fazem algo que é vetado: a prescrição de opioides, como a morfina. Produzidos a partir do ópio, extraído da papoula, só podem ser prescritos por médicos e em receituário especial, retido pelas farmácias. São utilizados para dores agudas e podem ter efeito alucinógeno e causar dependência e morte por overdose.

Na pesquisa, os opioides eram 13,9% dos tratamentos analgésicos prescritos. Anti-inflamatórios não hormonais são a maioria (69,4%), seguidos de relaxantes musculares (44,4%) e corticoides (38,9%). Em menor grau do que opioides, outro remédio controlado, o antidepressivo, surgiu em 2,8% das respostas.

Elaine ponderou em sua tese que a citação a esses medicamentos de uso restrito poderia ser consequência de equívoco no preenchimento da pesquisa pelos funcionários do DSEI.

À Folha, ressaltou que, na hipótese de isso realmente ocorrer, a falha não deve ser considerada dos profissionais, mas, sim, da precariedade da formação e dos investimentos insuficientes na saúde indígena.

Outro dado, na avaliação de Elaine, pode ajudar a explicar a ineficácia da medicina convencional no tratamento dos índios: 37,9% deles se automedicam com os “remédios do branco”.

“Estamos falando de uma realidade muito precária, de dificuldade de acesso, de postos de saúde montados em casebres. Os profissionais trabalham em condições difíceis e sem o preparo para lidar com uma cultura diferente da deles”, diz Elaine, que preparou uma cartilha com orientações sobre o tratamento da dor para ser distribuída na região, em português e nas línguas das etnias pesquisadas.

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Saúde B7, de 01/07/2018.
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