Assistindo aos debates com os candidatos à presidência da República promovidos pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) nesta quarta-feira (30) observei que o Brasil encontra-se preso a uma teia que, de tão extensamente pegajosa, dificilmente dela haveremos de nos livrar tão cedo. A não ser com um novo governo aberto às inovações que se processam nos países democráticos líderes do crescimento econômico e ganhos sociais. Um governo que se comprometa empreender reformas estruturais profundas e imediatas, dentre as quais a política deve ser prioritária.

Ocorre que o maior entrave, o grande obstáculo para a promoção de mudanças advém exatamente da postura conservadora e retrógrada exibida pela maior expressão do populismo no Brasil, o ex-presidente Lula da Silva. Na qualidade de líder da esperança que o Pt pregava quando de sua fundação nos anos 1970, transformou-se no chefe de um grupo que assumiu a presidência em 2003 sem um projeto de governo, mas com apenas o vil propósito de se perpetuar no poder. Conservador extremista, embrenha-se nas mesmas trilha das forças do atraso ideológico que resistem enxergar os avanços que ocorrem mundo afora movidos por conquistas tecnológicas e o império de novos paradigmas filosóficos e políticos.

Em consequência de motivações facciosas e do fanatismo dogmático que dominam o grupo político de Lula da Silva e áulicos praticam, é evidente que reformas, sobretudo a política, não lhes interessa. Consorciado ao que há de mais reacionário na política brasileira, as forças lideradas por Sarney, Calheiros, Maluf, Collor, Temer, etc., a eles não interessa mudar, mas deixar como está, tudo segundo a mesma lógica perversa beneficiada por monstruoso esquema de corrupção.

Exatamente sobre esta ordem é que tentam, desesperadamente, manter um projeto pelo qual objetivam perpetuar-se no poder. Até que um dia o povo se canse.Como ocorreu em ditaduras jurássicas no Egito, Líbia, Tunísia, Iêmen, Jordânia, Marrocos, Argélia, Bahrein e Omã, além do próprio Iran de Reza Pahlavi em 1979, cujos títeres foram defenestrados, banidos pela massa espoliada e humilhada.

A reforma política implica, sobretudo, mudanças nas regras de poder. Obriga a repensar o “modus operandi” da governança, a estrutura e o tamanho do Estado. Da mesma forma que as privatizações não convêm ao grupo dominante, assim como a racionalização, a modernização e a transparência da gestão pública. Inevitavelmente, mudanças organizacionais trarão como resultados a subtração de empregos diretos hoje ocupados pela militância. Quase regra geral, desprovidos de formação técnica competente, mesmo assim esses quadros aparelham a máquina pública, em grande parte obedecendo a conveniências corporativas em detrimento do mérito.

São profundas as contradições das esquerdas. Dão suporte a uma Venezuela falida, que vem transformando o venezuelano em quase párias que brigam por um simples pão; ignoram dissidentes que morrem em greve de fome em Cuba (num dos casos na presença de Lula da Silva); omitem-se, por conseguinte legitimam atos de corrupção que permeiam empresas públicas de alto respeito (Petrobras, Eletrobras, Caixa, BB, etc.) e nos diversos setores da administração pública; fingem desconhecer que o Brasil está se transformando numa praça de guerra, onde morrem por ano mais de 50 mil cidadãos brasileiros indefesos, número superior ao da guerra da Síria.

De igual modo simulam não perceber franco processo de banalização do mal, da violência, da brutalidade que se perpetua nas vias públicas, de cujo processo a figura do matador de aluguel vem se vulgarizando. Mesmo na ex-pacata Manaus, a cidade onde vivemos. Assistimos todos os dias, sob a complacência do poder constituído, incêndios de ônibus, viaturas policiais, assassinatos de homens da lei e gente do povo, cuja única culpa é apenas a de existir; arrastões em praias e shoppings, a virulência da criminalidade crescer desenfreadamente; revoltas com barricadas e hospitais, em número cada vez maior, desprovidos de produtos os mais básicos, como gaze, esparadrapo e água oxigenada, e que por essa razão tratam pessoas como animais.

Mas nada disso é o bastante para mexer com a sensibilidade dos ex-revolucionários cômoda e confortavelmente instaladas no poder, aí incluídos sindicalistas e estudantes. Movidas por fortes e inesgotáveis verbas governamentais (mais de 4 bilhões de reais distribuídos apenas ao setor sindical anualmente) essas forças fingem-se de mortas e assistem solene e indiferentemente a banda passar. Deixar o poder, em hipótese alguma.

Como fazer reforma política e mudar o Brasil em tais circunstâncias? Segundo o sociólogo Chico de Oliveira, intelectuais travestidos de esquerdistas, as ditas caviar, leem Marx , porém não conhecem o Brasil. Mas também não se mudam para Cuba, Venezuela ou a Coreia do Norte. Preferem manter-se acomodadas aos encantos de seus cabides empregatícios. Um cargo público aqui, uma sinecura acolá, o que não requer responsabilidade, trabalho ou serviço ativo; uma viagem para um congresso, ou cursos no exterior, suporte oficial a algum projeto cultural na maioria das vezes inútil; verbas sem controle para Ongs milionárias vinculadas ao status quo, tudo pago, ressalte-se, pelos cofres públicos, como então fazer voltar às ruas essas forças que um dia, de caras pintadas, entoaram o Fora Collor?

As palavras de ordem que convêm ao Brasil são autocrítica e não à intolerância. Pois, a verdade é a verdade no final das contas, disse-o sabiamente Shakespeare.

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Osíris Silva
O economista Osíris M. Araújo da Silva é consultor de empresas, ex-secretário Municipal de Economia e Finanças da PMM, ex-secretário da Indústria, Comércio e Turismo e ex-secretário da Fazenda do Amazonas. É presidente da AMAZONCITRUS – Associação Amazonense de Citricultores, membro do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA), do INPA, e articulista econômico de A Crítica.

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