*Martin Wolf

Nada seria mais tolo que os políticos dos países ricos se esquivarem dos desafios globais.

A grande história das últimas reuniões do FMI (Fundo Monetário Mundial) e do Banco Mundial é que a economia mundial está se recuperando substancialmente mais depressa do que se esperava apenas seis meses atrás. Mas a recuperação da economia global como um todo esconde o que está acontecendo com a população mundial. Tanto dentro dos países como entre eles, os menos favorecidos parecem sofrer recuperações mais lentas. Além disso, essa casa dividida pode não se manter de pé: o que está acontecendo –acima de tudo a lenta distribuição das vacinas– agravará as perspectivas para todos.

A característica marcante das novas previsões do FMI é que o crescimento acumulado do PIB 9Produto Interno Bruto) global per capita entre 2019 e 2022 hoje está previsto em apenas 3 pontos percentuais abaixo da previsão feita em janeiro de 2020. Isso é muito melhor que os 6,5 pontos percentuais a menos do ano passado e os 4 pontos a menos deste ano. Essa é então a imagem de uma economia mundial em uma recuperação ao mesmo tempo mais forte e melhor do que se esperava.

Ainda mais notável, porém, é a divergência. As economias avançadas têm hoje previsão de crescimento acumulado do PIB per capita entre 2019 e 2022 apenas 1 ponto percentual a menos que em janeiro de 2020. Mas os mercados emergentes e os países em desenvolvimento de baixa renda têm previsão de sofrer golpes no crescimento do PIB per capita de 4,3 (5,8 sem a China) e 6,5 pontos percentuais, respectivamente. Para os que têm, será devolvido. Mas dos que não têm será tomado até o pouco que tinham: em janeiro, o Banco Mundial relatou um aumento no número de pessoas em extrema pobreza no ano passado, em consequência da Covid-19, entre 119 milhões e 124 milhões. Diante das terríveis previsões, parece improvável que essa calamidade seja revertida em breve. ​

A pobreza na Argentina durante a pandemia

Trabalhadores em uma fábrica têxtil em Don Torcuato, perto de Buenos Aires. A companhia fabrica tecidos para marcas esportivas internacionais, mas desde maio fornece material para máscaras Sarah Pabst – 12.abr.2021/The New York Times

Martín Palazón caminha em um campo de sua fazenda onde planta soja, milho e trigo, além de criar gado, em San Pedro, na Argentina. “Você gasta mais tempo preenchendo planilhas para o governo do que produzindo”, diz ele Sarah Pabst – 12.abr.2021/The New York Times

Voluntários na cozinha de uma favela em Buenos Aires Sarah Pabst – 12.abr.2021/The New York Times

Bairro de Carlas Huanca em Buenos Aires. A ruína da economia global devido à Covid-19 atingiu especialmente a Argentina, que entrou na pandemia em uma crise profunda Sarah Pabst – 12.abr.2021/The New York Times

Na essência, o FMI hoje prevê que as economias avançadas e a China sairão da crise, de modo geral, ilesas economicamente, com a economia dos Estados Unidos até um pouco maior que as previsões anteriores, enquanto os países emergentes e em desenvolvimento sofrem um grande e prolongado golpe. Mas lembre-se que dois terços da humanidade vivem nestes últimos.

É o contrário do que aconteceu depois da crise financeira global de 2007-09. Isso é em parte porque ela teve origem nos países de alta renda. E também porque a recuperação da China em 2009 foi tão forte. Mas o maior motivo para a diferença hoje é que os países de alta renda possuíam e a capacidade de administrar esse choque e a empregaram de maneiras que poucos outros países puderam (sendo a China a principal exceção): os países ricos conseguiram amortecer o golpe econômico e social com respostas excepcionais de política monetária e fiscal; e puderam desenvolver, produzir e entregar vacinas em alta velocidade.

Segundo o Monitor Fiscal do FMI, “nos últimos 12 meses, os países anunciaram US$ 16 trilhões em ações fiscais”. Mas o grosso disso foi nos países avançados. O deficit fiscal das economias avançadas aumentou 8,8% do PIB entre 2019 e 2020, para 11,7%. Ainda será 10,4% em 2021. Nas economias emergentes, o deficit fiscal aumentou 5,1% do PIB entre 2019 e 2020, para 9,8%. Mas nos países de baixa renda em desenvolvimento ele aumentou só 1,6% do PIB, para 5,5%.

Além disso, salienta o Monitor, “o aumento dos deficits nas economias avançadas e várias economias de mercados emergentes resultou de aumentos aproximadamente iguais em gastos e queda de receitas, enquanto em muitas economias de mercados emergentes e países em desenvolvimento de baixa renda eles foram basicamente consequência do colapso das rendas causado pela crise econômica”.

Seria desaconselhável tomar como garantida a previsão de forte recuperação das economias avançadas. É possível que novas variantes invulneráveis às vacinas de hoje percorram o mundo. É altamente provável que seja impossível reabrir as fronteiras em breve. É possível, também, que as políticas monetárias e fiscais tenham sido fortes demais, especialmente nos EUA, como afirmou Larry Summers, gerando um forte aumento da inflação, expectativas de inflação e taxas de juros reais. Nesse caso, os formuladores de políticas seriam obrigados a pisar nos freios, o que poderia gerar crises de dívida entre mutuários vulneráveis nos EUA e no exterior.

Além disso, mesmo que os países de alta renda, a China e alguns outros tenham uma forte recuperação, muitos países emergentes e em desenvolvimento provavelmente continuarão em grande dificuldade em consequência da distribuição dolorosamente lenta das vacinas, problemas na administração da dívida, as tensões causadas pelo agravamento da pobreza e o espaço limitado para políticas. As economias que dependem de viagens e turismo terão uma recuperação especialmente lenta, sobretudo se continuarem surgindo novas variantes. Nada disso é ajudado pelo fato de que muitos governos são corruptos, ineficazes ou ambos. Isso sempre importa. Em tempos anormais como estes, importa ainda mais.

Nada seria mais tolo que os formuladores de políticas nos países ricos darem um suspiro de alívio e desviarem os olhos dos desafios globais que os confrontam. Eles devem em vez disso fazer o que é necessário para vacinar o mundo inteiro até o fim do próximo ano e apoiar o desenvolvimento de vacinas de reforço para todos, se necessário. Eles devem fazer o que é preciso para garantir que todos os países tenham os recursos necessários para enfrentar esses choques sanitários e econômicos. Eles também devem fazer o que é preciso para garantir que, se surgirem crises de dívida, eles saibam quem são os credores –oficiais e privados– e como administrar a negociação resultante.

Finalmente, mas não menos importante, eles devem aprender as lições desta pandemia. Ela matou até agora 3 milhões de pessoas e infligiu um grande choque econômico. A próxima poderá facilmente ser muito pior nesses dois tristes aspectos. Ilhas de suposta segurança não prosperarão em um mundo de doença ameaçadora.

*Doutor em economia e comentarista-chefe de economia no Financial Times. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião de 21/03/2021. Traduzido originalmente do inglês por Luiz Roberto M. Gonçalves.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui