*Djamila Ribeiro

Novelas, capazes de construir ideários e reforçar estereótipos, com frequência romantizam a escravidão.

Há duas semanas, ao escrever sobre a brilhante série “The Underground Railroad”, disse que fui vê-la com um pouco de receio, pois como uma mulher negra brasileira, cresci vendo novelas de época que romantizam a escravidão, glorificam imigrantes europeus, e expõem uma imagem depreciativa da comunidade negra.

Historicamente, movimentos negros denunciaram a tradição de canais de televisão de criar imaginários negativos de pessoas negras em novelas. Em 1999, por exemplo, Sueli Carneiro escreveu nesta mesma Folha sobre a novela “Terra Nostra”, orgulho da época para a comunidade de imigrantes italianos, mas que reservava as mais depreciativas narrativas à população escravizada.

Antes, durante e depois seguiram-se novelas atrás de novelas escritas, dirigidas e protagonizadas por pessoas brancas. No enredo, louros a personagens colonizadores, enquanto ao personagem negro e negra cabia o “sim, senhor” ou o tronco. Quantas magníficas atrizes negras tiveram para si papéis de ridículas oportunidades…

Novelas têm um grande impacto na construção de ideários na população e de reforço de estereótipos. Com o fortalecimento da agenda da população negra, o descompasso da narrativa supremacista produziu algumas coisas interessantes. Em algum lugar da grade, na TV ou digital, em algum dia qualquer, podemos nos orgulhar de termos algo positivo sobre nós. De resto, é a programação hegemônica de sempre.

Atualmente, está em curso mais uma novela dessa natureza. Do ponto de vista profissional, são produções que cumprem um papel de empregar pessoas brancas, da autoria à produção, passando pelos atores e atrizes protagonistas, direção etc. Há personagens negros, mas não são protagonistas. São pessoas brancas que detêm o poder econômico no país e, enquanto grupo, adotam mecanismos para manter a concentração de renda.

Já em uma perspectiva narrativa, há o reforço da romantização da escravidão no país. Desta vez, o capítulo de glorificar dom Pedro 2º. Às seis da tarde, todo residente no Brasil e assinantes do canal no exterior podem ter acesso a uma peculiar versão da história brasileira, aquela que só se viu na TV. Várias cenas são curiosas, porém uma chamou a atenção.

Há o inédito amor entre uma mulher branca e um escravizado malê fugido da Bahia. O amor é repleto de insinuações de poder da mulher e de libertação do povo negro. Andando de mãos dadas, eles veem obstáculos para concretizar o amor por terceiros que não aceitam a união. Mas nada disso os abala, enquanto trocam juras de amor.

Cenas da novela Nos Tempos do Imperador

Pilar ( Gabriela Medvedovski ), Jorge / Samuel ( Michel Gomes ), Luisa Condessa de Barral ( Mariana Ximenes ), Dom Pedro II ( Selton Mello ) e Teresa Cristina ( Letícia Sabatella ) João Miguel Júnior/Globo

Jerusa (Carolina Ferman) e Floriano (Lucci Ferreira) jogam Tonico (Alexandre Nero) Globo

Floriano (Lucci Ferreira) flagra Tonico (Alexandre Nero) e Jerusa (Carolina Ferman) Globo

Samuel (Michel Gomes), Baltazar (Alan Rocha) e Cariri (Jeferson Souza) Paulo Belotte/Globo

Em uma cena peculiar, Pilar, branca, está sentada em um banco de mãos dadas com Jorge, o personagem negro. Ele estava irritado pois ela não havia sido aceita na Pequena África, local de refúgio para negros libertos e que tinha grande respeito de Pedro 2º. Irritado pela recusa, Jorge desabafa: “Só porque você é branca não pode morar na Pequena África? Como que queremos ter os mesmos direitos se fazemos com os brancos as mesmas coisas que eles fazem com a gente?”.

Seria mais uma cena de romantização da escravidão e de racismo reverso dramatizada para milhões de pessoas na história da maior emissora do país, não fosse a consciência, perspicácia e coragem do pesquisador e diretor de marketing do canal negro Trace Brasil, Ad Junior, que em suas redes denunciou o ocorrido: “São cenas como essa que viram verdades para pessoas desinformadas sobre o período da escravidão”.

Coube a Ad puxar para a realidade, pena que para sua conta no Instagram e não diante dos milhões de telespectadores atingidos pela narrativa: “Pessoas negras nem eram consideradas seres humanos e nem poderiam de fato segregar pessoas. Sem poder. Os brancos poderiam morar até lá no centro da Pequena África se quisessem. Eles são e eram donos de tudo”.

“Pessoas negras viviam em regime de exceção. Um homem preto sentado num banco de uma praça com uma mulher branca seria um E.T. que está visitando a sua namorada em Marte. Primeiro porque pessoas negras não podiam ‘vadiar’, ou seja, andar sem destino e sentar no banco da praça!”

Nos comentários, a autora fez o mea-culpa afirmando que a cena havia sido escrita no “longínquo” 2018 e somente depois passou a contar com a consultoria do fantástico Nei Lopes.

Sabemos que se esse país fosse sério, novelas que romanceiam a colonização nem poderiam ser feitas. E, quando feitas, no caso de um desserviço dessa natureza, seriam devidos capítulos de reparação e indenização à coletividade. Em casos reincidentes, a série seria interrompida, seus responsáveis afastados e de fato haveria preocupação em contratar profissionais negros. Mas, repito, isso se fosse em um país sério…

*Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 26/08/2021.
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