A tríade de economistas que alimenta minhas leituras sobre meio ambiente é formada pelo mexicano Enrique Leff, autor da teoria da racionalidade ambiental e que é professor na Universidade Autônoma do México, coordenador de uma rede de formação ambiental no Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e no Brasil professor do curso de Doutorado em Meio Ambiente na Universidade Federal do Paraná. Sem qualquer ordem de importância, o segundo é Amartya Sen, indiano, Prêmio Nobel de Economia, criador do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e autor do livro Desenvolvimento como liberdade (Cia das Letras, 2000) onde revela sua teoria sobre as liberdades substantivas. E, last but not the least, Ignacy Sachs, polonês de nascimento, francês por naturalização autor de vários livros entre os quais “Saber Ambiental. Sustentabilidade racionalidade, complexidade, poder”(Vozes, 2001) autor de um novo paradigma de desenvolvimento e com quem tive o prazer de conviver durante a construção da “Agenda Amazônia 21, bases para discussão” (MMA, 1997) que o segundo mandato de FHC mandou para a UTI e Lula da Silva encaminhou para o IML.

 

A racionalidade de Enrique Leff

Em 2006 a Editora Civilização Brasileira publicou um dos livros de Leff, intitulado “Racionalidade ambiental: a reapropriação social da natureza”, onde o autor insere reflexões essenciais sobre a crise ambiental do planeta. O modelo proposto demonstra a imperiosidade de construção de estruturas de produção assentadas em uma racionalidade econômica, envolvendo a incorporação das externalidades socioambientais no processo produtivo, mostrando a insustentabilidade do modelo que apenas transforma os recursos naturais em produtos de consumo, originando graves efeitos colaterais sobre a natureza. Um aspecto essencial da teoria é o realinhamento dos recursos naturais em um novo patamar que permita a reposição dos recursos não renováveis por recursos renováveis a longo e médio prazo, de forma a viabilizar um menor impacto sobre o meio ambiente.

 

Contrato social x contrato natural

O modelo de crescimento econômico atual se assenta em um Contrato Social (Jean Jacques Rousseau, obra publicada, pela primeira vez, em 1762 ) do qual nem todos os seres humanos participam sendo, portanto, direcionado para o Homo economicus. Em oposição, o Contrato Natural (Michel Serres, Editora Cultura, 1994), tem como alvo a satisfação dos objetivos essenciais dos humanos dentro de uma ética ambiental inerente e que só pode ser praticada pelo Homo sapiens, alvo principal dos economistas maiores como Leff, Sachs e Sen.

 

Meio ambiente amazônico

A Amazônia é o último espaço da Terra onde se pode implantar um modelo de desenvolvimento assentado na sustentabilidade, isto é, no uso dos recursos naturais, principalmente na biomassa, o que não significa um retrocesso aos modos ancestrais de vida ou à infância da espécie humana. (Obs. Gênero humano é uma expressão que além de revelar burrice biológica ainda ajuda a solidificar o preconceito, pois um gênero possui várias espécies).

Para dar inicio a esse novo modelo, o passo inicial é promover uma destruição criativa do status quo adotando o postulado de economistas maiores que falam em “desenvolvimento de tecnologias apropriadas” (Leff) em “desenvolvimento socialmente includente, ambientalmente sustentável e economicamente sustentado (Sachs) e da necessidade do desenvolvimento se alicerçar na “valorização das liberdades substantivas em vez de considerar as utilidades, a renda e a riqueza como metas a serem atingidas” (Amartya Sen). Nesse caso, as liberdades substantivas constituem elementos essenciais do desenvolvimento e da eficácia social e devem ser entendidas como fins e meio primordiais do desenvolvimento que, para ser efetivo, precisa erradicar a pobreza, a carência de oportunidades e remover as fontes de privação de liberdades substantivas.

É assustadoramente inquietante o contraste entre essas teorias e os pronunciamentos de membros da classe política e de seus apaniguados ocupando cargos executivos na área ambiental. O primarismo dos donos do poder evidencia que eles não costumam ler textos teoricamente consistentes sobre desenvolvimento e, por isso a quase totalidade substitui o “eu sei” pelo “eu acho”, demonstrando nunca terem sequer ouviram falar na tríade que serve como fonte de vida inteligente para este artigo.

Compartilhar
Ozório Fonseca
Biólogo, Mestre em Ecologia, Doutor em Ecologia e Recursos Naturais. Professor Visitante na UFRGS (1983-1995). Diretor do INPA (1995-1999), Professor da UFAM e da UEA. Membro Honorário da Academia Amazonense de Medicina; Membro Titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Filho do ex-prefeito de Itacoatiara Osório Alves da Fonseca (1889-1960) e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado em Itacoatiara. É o nosso querido mestre do Principado de Itacoatiara (título que conferiu à nossa cidade).

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui