*Ferreira Gullar

Vejo com muita simpatia o fato de mulheres assumirem altos cargos na administração pública e, particularmente, a chefia do governo de alguns países, como já aconteceu na Inglaterra, na Alemanha e no Chile, sendo que, nestes últimos, as mesmas mulheres foram reconduzidas, pelo voto, à presidência do país.

Se não vi com a mesma simpatia a ascensão de Dilma Rousseff à Presidência do Brasil foi porque se tratava de uma invenção do Lula. Além do mais, ela insiste em ser chamada de presidenta. Mas se trata de mulher íntegra, ainda que durona.

Não sei se ela sabe, mas chamá-la de presidenta é motivo de troça por muita gente, até mesmo por muitos daqueles que votaram nela. É que se trata, ao mesmo tempo, de uma imposição tola, descabida, já que ninguém em sua vida, antes de Dilma, jamais chamou uma mulher de presidenta, palavra feia, que até parece um insulto.

Confesso que eu mesmo me sinto constrangido quando vejo, na televisão, um senador, um deputado, um ministro, dirigir-se a ela chamando-a de presidenta. Esse meu constrangimento vem de saber que nenhum daqueles senhores, por sua livre e espontânea vontade, a chamaria assim.

Claro, porque nenhum deles – que já andam pela casa dos 50, 60 anos ou mais- nunca pronunciou, durante toda a sua vida, a palavra presidenta em vez de presidente. Se agora o fazem é porque ela os obriga a isso, e ai daquele que a desobedecer.

Agora, pensemos. O cara é senador ou deputado, estudou, formou-se na faculdade, tem mulher, filhos e amigos que nunca o ouviram pronunciar essa inusitada palavra e, de repente, o escutam dizendo isso, sabendo que se trata de uma imposição da Dilma. É um troço chato ou não é?

Acredito que, no começo, quando se entendeu que a partir de então seria presidenta, e não mais presidente, as pessoas que foram obrigadas a assim chamá-la não escaparam de uma gozação. Ao chegar em casa, alguns devem ter sido gozados pela família: “Pai, o que deu em você para chamar a Dilma de presidenta?”. E os amigos? E a gerente do banco: “Quer dizer que agora, em vez de gerente, sou gerenta?”.

Que poderia ele fazer, senão rir encabulado: “Nada disso, a senhora continua sendo minha gerente, não se preocupe!”. E caíram os dois na gargalhada. Aí a gerente falou: “Mas o que deu na cabeça dessa mulher? Querer ser chamada de presidenta! Pois se alguém me chamar de gerenta, não leva um tostão deste banco!”.

No princípio pensei tratar-se de uma esquisitice da Dilma ou, quem sabe, um modo extravagante de afirmar o seu feminismo —que vem manifestando desde o primeiro dia de seu governo, ao entregar alguns cargos importantes não a homens, mas a mulheres.

Espero que não me considerem machista por gostar das mulheres e confiar em seu desempenho quando atuam nos mais diversos campos de atividade. É claro que não basta ser mulher para ser competente e honesta, mas tampouco tem sentido pensar, como antigamente, que as mulheres só servem para cuidar da casa e dos filhos.

E é por pensar assim que tampouco me agrada o feminismo sectário, que parece orientar as nomeações feitas por Dilma para cargos importantes. Como a atuação dessas senhoras nem sempre se mostrou muito brilhante, fica a impressão de que não foram escolhidas por sua competência, e sim por pertencerem ao sexo feminino.

Mas até aí essas decisões da presidente não me chocaram. O que me chocou mesmo foi constatar que a imposição de que a chamem de presidenta não é um simples capricho; é, na verdade, a expressão de um temperamento impositivo que não conhece limites.

É o que se deduz da lei por ela assinada que obriga o país inteiro a submeter-se a uma tolice: trata-se da lei nº 12.605/12, de 3 de abril de 2012, que diz o seguinte: “As instituições de ensino público e privado expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada”.

Ou seja, gostando ou não, em vez de gerente você será gerenta, em vez de assistente será assistenta, em vez de tenente será tenenta, em vez de correspondente será correspondenta, e por aí vai. Acontece que essa lei é de 2012 e parece que não pegou. Pois é, felizmente, no Brasil nem toda lei pega.

*Cronista, critico de arte e poeta. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno E10 Ilustrada, de 7/09/2014.
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