Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

A forma ‘Deus vult!’ quer dizer simplesmente ‘Deus quer!’.

Por razões que a própria razão desconhece, o lema latino “Deus vult!”, originalmente associado aos guerreiros da Primeira Cruzada (1096-1099 d.C.), tem ganhado popularidade, inclusive nos círculos do poder, no Brasil e no mundo. Gostaria de usar este espaço para “desempacotar” o significado de tão curiosa expressão.

Para começar, algumas observações filológicas. A forma “Deus vult!” está num latim mais castiço e quer dizer simplesmente “Deus quer!”. Os primeiros cronistas medievais que citam a expressão, como o autor anônimo do texto conhecido como “Gesta Francorum” (“Feitos dos Francos”), usam uma forma vulgarizada, provavelmente mais próxima dos dialetos franceses dos soldados cristãos que tentavam arrancar a Terra Santa das mãos dos muçulmanos.

No cerco à cidade síria de Antioquia, conta a “Gesta Francorum”, com a cidade prestes a ser tomada, “vendo que já estavam nas torres, começaram a gritar ‘Deus le volt’ [“Deus o quer”] com alegres vozes; assim, de fato, gritávamos”.

Caso o leitor não tenha reparado, faltam a ambas as frases — “Deus quer” ou “Deus o quer”, tanto faz — um objeto direto explícito. Deus quer o quê, afinal, cruzados medievais (e modernos)?

Recuperar Jerusalém, responderiam os cruzados do século 11. Defender a civilização cristã ocidental, diriam os de hoje.

Slogans, porém, têm consequências. Antes mesmo de deixar a Europa, cruzados que passavam pelos vales dos rios Reno e Danúbio fizeram um pequeno “esquenta” de suas atividades bélicas extorquindo, convertendo (na marra) e matando judeus.

Na cidade de Mainz, o cronista judaico Eliezer ben Nathan os descreveu como “estrangeiros cruéis, ferozes e céleres, franceses e alemães, que puseram cruzes em suas vestes e eram mais abundantes que gafanhotos sobre a face da terra”. Em Mainz, 1.100 judeus foram mortos; outros mataram a própria família e depois se suicidaram para escapar da conversão forçada.

Após anos de marchas e batalhas, Jerusalém finalmente caiu nas mãos dos soldados cristãos. Fulcher de Chartres retrata o que aconteceu então, com linguagem muito similar à de outros autores da época: “Nesse templo [na verdade a mesquita al-Aqsa e o Domo da Rocha, santuários muçulmanos], 10 mil foram mortos. De fato, se estivesses lá, terias visto teus pés tingidos até os tornozelos com sangue dos que morreram. Mas o que mais hei de relatar? Não se deixou que nenhum deles vivesse; nem mulheres nem crianças foram poupadas”.

Os poucos sobreviventes muçulmanos foram forçados a recolher os corpos e membros decepados que infestavam as ruas e fazer uma grande pira funerária com os restos; depois, eles próprios foram executados.

O espírito cruzado, se é que podemos chamá-lo assim, também impeliu os portugueses dos séculos 15 e 16 a combaterem os seguidores do Islã onde quer que os encontrassem, inclusive no distante oceano Índico. Foi o que aconteceu quando Vasco da Gama, em sua segunda viagem às Índias, capturou o navio mercante Miri, cheio de peregrinos que retornavam de Meca. A nau se rendeu sem luta, mas Gama mandou que todos a bordo fossem mortos. “Foi isto em uma segunda-feira, 3 de outubro de 1502, de que me lembrarei toda a minha vida”, escreveu o chocado cronista Tomé Lopes, que participou da expedição.

É isso o que Deus quer? Ensinaram-me que Deus quer outra coisa: “Se alguém disser ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso. Pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar”.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 19/05/2019.
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