*Marcelo Viana

Muitos mistérios permanecem sobre os primeiros humanos no continente.

Dois artigos publicados na quarta-feira (22) na revista Nature atiçam uma das discussões mais interessantes da ciência: quem foram os primeiros humanos das Américas e quando e como vieram?

É consenso científico que a humanidade teve origem na África e se disseminou pelo planeta em vagas sucessivas. Nossa espécie, Homo sapiens, saiu de lá há 200 mil anos e se espalhou pelos continentes ao mesmo tempo em que os demais hominídeos eram extintos. As Américas foram povoadas por último, mas as circunstâncias continuam controversas.

No século 20, prevaleceu a teoria de que os primeiros humanos chegaram há cerca de 13 mil anos, atravessando a pé o estreito de Behring, entre a Ásia e as Américas. O planeta passava por uma era glacial, e o nível do mar estava 100 m abaixo do atual, deixando o estreito emerso por milênios. Um corredor estreito entre os glaciares que cobriam parte da América do Norte permitiu que nossos ancestrais se deslocassem para sul.

Essa teoria, que leva o nome da cidade norte-americana de Clovis, onde foram feitos achados arqueológicos, está hoje refutada por descobertas das últimas décadas. Dúzias de sítios arqueológicos nas Américas sinalizam um povoamento anterior. É o caso de Monte Verde, no Chile, onde há evidências de ocupação 14 mil anos atrás. Pesquisadores que trabalham no Parque da Serra da Capivara (PI) apontam para datas ainda mais antigas, possivelmente até 50 mil anos, embora não haja consenso.

Pedra Furada, símbolo do parque, que guarda evidências que apontam para a chegada do homem à América há cerca de 100 mil anos – Luís Paulo Ferraz

Nos municípios piauienses de Canto do Buriti, Coronel José Dias, São João do Piauí e São Raimundo Nonato, o parque abriga a maior e mais antiga concentração de sítios pré-históricos da América – Luís Paulo Ferraz

Também no Piauí, o Delta do Parnaíba forma uma paisagem impressionante, com cerca de 80 ilhas – Luís Paulo Ferraz

Depois de percorrer mais de 1.400 km, o rio Parnaíba desemboca no oceano Atlântico, criando mais de 8 km de dunas – Luís Paulo Ferraz

A parasitologia também oferece evidência curiosa contra a teoria de Clovis. O ancilóstomo vive grudado na parede do intestino humano, alimentando-se de sangue e causando a doença conhecida como “amarelão”. Seus ovos são expulsos nas fezes, permanecendo no solo até eclodirem em larvas que regressam ao corpo humano pelos pés de pessoas descalças. É típico de climas tropicais, pois seu ciclo de vida exige solo quente e úmido.

Os humanos vindos da Ásia que, por gerações, caminharam no solo gelado do corredor interglacial da América do Norte, mais de 10 mil anos atrás, livraram-se do ancilóstomo. Se esse fosse o único caminho de entrada, as Américas teriam permanecido sem o parasita, ao menos até a invasão pelos europeus, no século 16.

Mas ele foi encontrado em múmias sul-americanas, inclusive brasileiras, bem mais antigas. Uma possível explicação é a chegada de humanos também por barco, pela costa oeste da América do Norte.

Muitos mistérios permanecem, e os artigos da Nature trazem evidências de que a humanidade já estava no México há 20 ou 30 mil anos. Voltarei ao tema na semana que vem.

*Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ciência, de 28/07/2020.
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