Quase desembargador

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“Seria em Manaus, entretanto, durante alguns anos, e mais tarde na velha capital da República para onde retomou, que faria nome e sucesso”.

Há tempos não se fala em Virgílio Barbosa de lima, em Manaus. Um dos muitos cearenses que se transferiu para a capital amazonense nos primeiros anos de 1900 em busca de melhores condições de vida e sucesso profissional, e daqueles que fez história no jornalismo, nas letras e na advocacia.

Escritor, como tantos outros foi poeta no ardor da juventude, publicando em jornais do Ceará, e depois dos exames preparatórios no Liceu Cearense seguiu para o Rio de Janeiro para cursar ciências jurídicas na Faculdade Livre de Direito. Seria em Manaus, entretanto, durante alguns anos, e mais tarde na velha capital da República para onde retornou, que faria nome e sucesso.

O que se sabe é que, depois de ter sido guarda da Alfândega no Ceará, em sua passagem por Manaus foi de tudo um pouco: solicitador da Prefeitura; advogado no escritório de Francisco Pedro de Araújo Filho; colega de banca de Virgílio de Souza e Júlio Cesar Lima; professor de português do Ginásio Amazonense; diretor interino da Instrução Pública; um dos fundadores da Academia Amazonense de Letras; cofundador da sociedade Renascença Ceará entidade liderada por monsenhor Antero de Lima e pelo desembargador Luiz Furtado de Oliveira Cabral, destinada ao apoio às vítimas das secas do sertão cearense; político do grupo do senador Silvério Nery; e, deputado estadual enfrentando a tropa unida do coronel Guerreiro Antony.

Retornando ao Rio de Janeiro esteve como delegado de polícia encarregado da fiscalização de casas de show, boates e repressão ao jogo de azar, mas, sendo bem qualificado, foi se projetando na cidade como advogado e professor catedrático da cadeira de Direito Comercial da Faculdade Nacional de Direito, passando a ter grande influência na Ordem e no Instituto dos Advogados.

Ao que parece, entretanto, sobre ele teria caído uma praga que o impediu, por duas vezes, pelo menos, de ser juiz e desembargador. A primeira, ainda na Amazônia, logo depois de formado época em que chegou a ser nomeado juiz preparador do 2. ° Termo Judiciário da comarca do Alto Acre, em 1909, função que não conseguiu exercer e teve a nomeação anulada no ano seguinte. Tratava-se da composição do Tribunal de

Apelação do Território do Acre, mesma época em que Manoel Adriano de Araújo Jorge foi nomeado desembargador e Domingos Américo de Carvalho, procurador’ geral.

A segunda vez foi no Rio de Janeiro, anos mais tarde, quando já ocupava lugar de destaque na advocacia brasileira e carioca, em especial, e era diretor da secretaria e advogado da Associação Bancária do Rio, membro do Instituo de Advogados do Brasil com função na comissão de ensino jurídico, advogado comissionado pelo governo do Amazonas em processos na capital da República, e integrou lista tríplice para a vaga de desembargador do Tribunal de Apelação do Distrito Federal no chamado quinto constitucional pela classe dos advogados, ao lado de Adelmar Tavares e Romão Lacerda, em 1940, na vaga do desembargador Maximiano Paiva.

Tudo parecia correr bem naquela campanha em busca da magistratura, inclusive com homenagens de colegas advogados em grande jantar realizado no Automóvel Club, mas, na hora de ser ungido ao cargo com a nomeação legal, sofreu nova derrota.

Mesmo assim Virgílio Barbosa não perdeu a importância como operador do direito e participou do Congresso Jurídico Nacional e da Conferência dos Desembargadores representando o Estado do, Rio de Janeiro, ao lado de Clovis Bevilacqua, José Carlos de Mattos Peixoto, Álvaro Costa, Lívio Xavier e Rui Barbosa, poucos anos depois.

O fato é que, mesmo com tanto prestígio, Virgílio Barbosa não conseguiu alcançar a toga de magistrado que, por duas vezes, quase esteve ao seu alcance.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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