*Djamila Ribeiro

É preciso menos obsessão pelo poder para pensar em projetos de sociedade que sejam realmente efetivos.

Como já escrevi várias vezes nesta coluna e denunciei em veículos internacionais, o governo Bolsonaro representa desmonte de políticas públicas, maior repressão para os movimentos sociais, perseguição aos povos indígenas, omissão e negligência em relação ao combate à pandemia, entre tantos absurdos.

Qualquer pessoa minimamente crítica consegue perceber os retrocessos em curso no país. E realmente é importante que cada vez mais as pessoas despertem e se posicionem contra essa política genocida e percebam a necessidade de se opor ao que esse governo representa.

Porém, igualmente importante é a compreensão das origens sociais das desigualdades e de que antirracismo não é um lifestyle; é pensar projetos de sociedade necessariamente por uma perspectiva de raça/cor, gênero e classe.

A política de segurança pública no Brasil, independentemente de governos, segue sua lógica de superencarceramento e assassinatos de pessoas negras.

Juliana Borges, em seu livro “Encarceramento em Massa”, afirma que “entre 1995 e 2010, o Brasil foi o segundo país com maior variação de taxa de aprisionamento no mundo, ficando apenas atrás da Indonésia, um regime marcadamente repressor em relação à política de drogas, inclusive com penalização por morte”.

Em uma rede social, Carla Akotirene afirmou: “Independentemente de blindarmos governos supostamente de esquerda -evitando nesse período mencionar a mesmice das políticas de segurança pública, estruturalmente, nas comunidades negras periféricas—, há afinidades genocidas empregadas pelas ações violentas da polícia em quaisquer territórios racializados, cada vez mais letais, como expediente duma política dos Estados-nações e discurso de guerra às drogas”.

Ela se referia aos assassinatos de Viviane Soares e Maria Célia Santana, em Salvador, e de Kathlen Romeu, grávida de quatro meses, no Rio de Janeiro. Desde o Brasil colônia, segue em curso o “alterocídio”, conceito de Achille Mbembe, segundo o qual se controla e se despreza quando não se pode destruir. É preciso sair da hipocrisia, da obsessão por projetos de poder para pensar projetos de sociedade.

Kathlen Romeu

Kathlen de Oliveira Romeu, 24, que estava grávida, morreu após ser baleada durante tiroteio na comunidade do Lins, zona norte do Rio @eukathlenromeu no Instagram

Kathlen e o namorado Marcelo Ramos, que aguardavam um bebê que se chamaria Maya ou Zayon @eukathlenromeu no Instagram

Quando Bolsonaro cair, quais serão as vozes a continuar os movimentos sociais que clamam historicamente por dignidade para a população negra?

Estamos falando de um problema que estrutura todas as relações sociais no Brasil e, mesmo assim, ainda há aqueles que nomeiam como identitária uma questão histórica, elemento fundante de desigualdades.

Um dos países com uma das maiores taxas de feminicídio do mundo, de casamento infantil e abuso sexual contra meninas e mulheres, precisa de um projeto político que evidencie essas questões como fundamentais. Um dos países que mais mata pessoas LGBT no mundo precisa de uma profunda reavaliação de suas bases.

É muito cansativo observar o comportamento das “sinhás/sinhôs bondosas/os” que julgam fazer muito quando usam a lógica mercadora de escravos para selecionar quem serve aos seus interesses enquanto seguem deitados em berço esplêndido.

É profundamente revoltante ver a capitalização das mortes negras como se fossem catálogos de compras, palanques políticos ou, ainda, fetichizar os corpos negros estendidos no chão, mas atacar quando esses corpos ocupam os poucos lugares de visibilidade, sobretudo quando são mulheres pretas.

É preciso um comprometimento real com as mazelas deste país ou, ao menos, ter a honestidade de admitir que só vale sair às ruas quando os seus interesses estão em risco.

Confesso que foi extremamente doloroso ver que a jovem Kathlen quase quadruplicou o número de seguidores nas redes sociais após seu brutal assassinato, reflexo doentio de uma sociedade que não quer entregar flores em vida para as mulheres negras, que as massacra, persegue e mata para render cânticos póstumos.

Quando Bolsonaro cair, quais serão os projetos políticos que verdadeiramente lutarão por outra política de segurança pública que não seja essa que massacra a população negra?

Há uma infinidade de projetos sociais e comunitários tocados por pessoas negras precisando de apoio, de iniciativas transformadoras, que seguem sem visibilidade. A grande intelectual feminista negra Lélia Gonzalez afirmava a importância de se pensar e criar instrumentos para a reflexão crítica do nosso povo.

Lélia Gonzalez

A escritora Lélia Gonzalez, uma das principais intelectuais do feminismo negro no Brasil Divulgação

A antropóloga e escritora Lélia Gonzalez, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU) Reprodução

Sim, Bolsonaro precisa cair e ser responsabilizado. Lutemos por isso, mas vejamos quem realmente permanecerá na luta pela dignidade dos grupos historicamente discriminados para além de março e novembro. Para além de seus desejos de poder.

*Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 10/06/2021.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui