Na primeira reunião do ano, o Conselho Municipal de Cultura decidiu concentrar as ações no campo da preservação da memória cultural e artística de Manaus, realizando prospecções, restaures e, posteriormente, tornando acessível a todos o rico acervo de nossa cidade. Não é possível aceitar que ainda não tenhamos estabelecida e editada a obra do historiador Artur César Ferreira Reis, o maior estudioso do período colonial da região norte; ou que a extensa obra do professor Mário Ypiranga Monteiro continue em boa parte inédita, ele que coletou e registrou a cultura popular da capital, além dos trabalhos etnográficos, sociológicos e de estudos literários. Na música, nossos melhores compositores, devido às circunstâncias de suas épocas, não criavam suas melodias através de partituras. A maioria das obras primas de nosso cancioneiro está registrada em gravações, algumas ainda em LP, quando sabemos que é a partitura o suporte mais perene, que vai permitir que. estas ricas melodias cheguem até às gerações futuras. No cinema, nestes tempos de mídia eletrônica, em que qualquer cinéfilo pode manter uma cinemateca em casa, quando teremos acesso às obras espantosas de Silvino Santos? E a dança? Forma de expressão que nossas etnias cultivam desde os tempos antigos. Quando teremos a nossa disposição o registro dessas manifestações sagradas e profanas?  No caso do teatro, arte do instante, que tem sua força no efêmero de cada representação, apenas a dramaturgia sobrevive e pode fazer a ponte entre o segundo e a eternidade, mas não temos as obras de nossos mais brilhantes dramaturgos estabelecidas e editadas em antologias de textos teatrais, ou mesmo digitalizadas na internet para torna-las ainda mais democratizadas. Durante todo o processo de formação da identidade nacional e a criação da cultura brasileira, a Arte do Amazonas teve participação de primeira grandeza. O estado legou ao Brasil alguns de seus mais notáveis artistas e criadores, seja no campo das letras, da música, das artes visuais, do cinema e da dança. Não temos nenhum problema em nos ombrear com qualquer outra unidade da federação em termos de influência e contribuição, muito menos em cultivar sentimentos de inferioridade. O Amazonas tem sido um espaço de inspiração aberto ao mundo, pelo exemplo criador de seu povo, pela rica cultura milenar dos povos indígenas e por sua perfeita integração à corrente principal da Civilização Ocidental. A literatura o teatro são as formas de arte de maior tradição no Amazonas. No século 18, surge o nosso primeiro autor, o primeiro artista nativo de toda a Amazônia e um dos raros de todo o Brasil. Chamava-se Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha e nasceu em Barcelos, no dia 4 de setembro de 1769 (deveria ser o, Dia da Cultura Amazonense), filho de Raimundo de Figueiredo Tenreiro e de Tereza Joaquina Aranha. Poeta e dramaturgo ele foi realmente o primeiro artista autenticamente amazonense.

O escritor era um fruto da terra, portanto, não sendo português, mas vivendo como tal, a dualidade iria marcar a sua existência, Por isso, era um espírito fadado ao martírio e não apenas uma postura cheia de incômodos. É no texto de seus dramas, nas deixas de suas simbólicas personagens teatrais que o poeta se aproximará da realidade e das contradições sociais do seu tempo.

Tenreiro Aranha prenunciou a falência do poder português no Brasil.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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