Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Em editorial, Science faz alerta sobre riscos para o público e para própria comunidade científica.

Apostar todas as fichas na capacidade dos pesquisadores de produzir rapidamente remédios e vacinas contra o novo coronavírus é uma estratégia perigosa tanto para o público quanto para a própria comunidade científica.

A advertência é o mote de um editorial da prestigiosa revista especializada Science, onde algumas das pesquisas mais importantes do mundo costumam ser publicadas toda semana.

“Quando a ciência enfrentou a crise da Aids, foram necessários anos de virologia, desenvolvimento de drogas e epidemiologia [para se chegar a um resultado]. O ataque científico global à Covid-19 está sendo mais rápido, e estou esperançoso”, escreve o editor-chefe da Science, Herbert HoldenThorp, químico e professor da Universidade Washington, em Saint Louis. “Mas me preocupa o fato de que, ao engendrar falsas esperanças, criaremos uma sensação de complacência que vai tirar de nós o tempo necessário para encontrar uma solução duradoura.”

A Science, assim como sua principal rival, a britânica Nature, e muitas outras revistas científicas de prestígio estão usando suas páginas e seus sites para publicar diversos estudos relevantes sobre o novo coronavírus em tempo recorde. Além disso, também estão deixando livre o acesso dos cientistas e do público a essas pesquisas (em geral, é preciso ser assinante desses periódicos ou pagar por artigo para poder ler os estudos).

Thorp frisa, porém, que nem sempre é fácil transformar o conhecimento científico básico sobre uma doença -ou seja, os dados sobre as características do vírus, como ele se espalha pela população, como o organismo reage a ele etc.- em tratamentos ou vacinas que resolvam o problema em definitivo.

A situação do novo coronavírus, afirma o editor, “não se compara só a tentar consertar um avião em pleno voo -é como consertar o avião voando enquanto o projeto dele ainda está sendo elaborado”.

Idosos fazem fila em frente a uma agência da Caixa, em São Paulo, para sacar o INSS Ronny Santos/Folhapress

Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, durante coletiva de imprensa para balanço dos casos de coronavírus, em Brasília Pedro Ladeira/Folhapress

Em São Paulo, ruas no bairro da Liberdade ficam vazias em meio à quarentena Jardiel Carvalho/Folhapress

Trabalhadores palestinos costuram roupas para proteção do novo coronavírus em fábrica no leste de Gaza Mahmud Hams/AFP

É importante ter em mente, segundo ele, que ainda se sabe muito pouco sobre o vírus. Algumas drogas promissoras testadas em laboratório já fracassaram, e o desenvolvimento de uma vacina pode não trazer resultados promissores mesmo no longo prazo, a exemplo do que ocorre até hoje com o vírus da Aids.

Os cientistas sabem de todas essas limitações, afirma Thorp, mas o problema são os políticos que tentam exagerar as esperanças do que está sendo feito até agora. “Vamos prometer menos para tentar cumprir mais nossas metas”, defende o químico.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 25/03/2020.
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