A história já era bastante conhecida no círculo dos homens e mulheres que formavam o clube, porém, em uma sociedade seleta e quase secreta, necessitava-se de uma senha que funcionasse como código para acessar informações e, deste modo, tomar conhecimento sobre a cultura da terra sagrada. O estatuto previa o ensino da cartilha ao neófito e a reverência aos ilustrados membros que, reconhecidos por uma determinada saudação, tinham a entrada franqueada na sociedade, isto é, na pedra filosofal de nossa existência, sempre em decisões democráticas, tomadas nas reuniões das assembleias festivas. Mas como cidadão, fiquei intrigado com a unidade da confraria. Fui investigar e descobri que o grupo já reunia há bastante tempo.

Mas foi no ano de l998, quando chefiava um departamento da SEMMA – Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que tive o privilégio de obter uma senha e conhecer um dos sócios…  Em uma manhã, por dever do ofício, fui ao INPA(Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia) tratar de assuntos correlatos a pasta quando, pela primeira vez, tive contato com um filho adotivo da terra e, por extensão, diretor daquela IFES.  Após conversa sobre a rotina administrativa, um diálogo ocorreu em que pela primeira vez, ouvi tal expressão. Lembrei-me que o pai deste cientista foi contemporâneo de alguns dos nossos…  Disse-lhe que estudei no Ellis Ribeiro, “um dos primeiros cientistas a pesquisar o câncer no mundo” e as primeiras noções de arte, aprendi com a emérita professora Marina Penálber, em um centro de artesanato que era o Osório Fonseca. Em princípio perguntou-me: – Onde você nasceu? Respondi-lhe: – Em Itacoatiara.  E logo o ambiente foi envolvido por um grande silêncio e emoção.  Ah!  Você também é do Principado de Itacoatiara?  Admirou-se!

Descobri que esse tratamento dispensado, já era um cumprimento que os homens ilustrados usavam quando se encontravam para usufruir das lembranças positivas do passado, refrescando a memória nas alegrias vividas na infância e adolescência. Na realidade, uma pequena, mas forte parte do Principado de Itacoatiara não sonhava e nem tinha projetos e/ou compromissos com o progresso do município, quando este despontava no cenário econômico estadual e regional como um verdadeiro tigre amazônico… No final do Século XIX, por falta de lideranças comprometidas pelo amor a terra, começou a perder a hegemonia no Estado e, por incrível que pareça, com possessões minerais para a formação de outras sedes municipais.

O município poderia ter avançado para projetar-se como um sólido polo de progresso, na Amazônia.  No entanto inúmeras lideranças marcaram passo na inteligência no período do boom desenvolvimentista, quando se uniam a grandes e felpudas raposas políticas, porém, muitos jovens simples, inconformados por não serem reconhecidos pela elite por pertencerem a famílias de origens simples, descontavam o desconforto na força de vontade, trabalhando desde cedo e estudando e, assim, buscar a alta qualificação noutros centros do mundo, orgulhando a todos nós. Lembro-me, por exemplo, da história de vida do Prof. Dr. Walmir Albuquerque (sub-reitor para Assuntos Comunitários) que, em uma tarde da década de 80, telefonou-me solicitando para que viajasse urgentemente a Manaus, em vista de o Reitor Roberto Vieira descobrir a articulação para uma bolsa de MSc., na USP.

Neste período era tachado de vermelho pelos pelegos, não sei se por ser dourado pelo Sol e pelos raios luminosos dos movimentos sociais, pelas convicções ideológicas ou se por herança genética de meus pais. Na época presidia o Comitê pela Interiorização da Universidade que exigia a implantação de um campus da centenária UFAM – Universidade Federal do Amazonas, em Itacoatiara… Mas continuando a história, o menino humilde lembrou-se de que fazia carretos do Mercado Grande para as famílias da elite local, como as de Leozonildo Barreto, Abdon Mamede, os Olímpios etc. No intervalo de um serviço e outro, postava-se à margem e ficava admirando, todos os dias, o banzeiro e a correnteza do grande rio que trazia verdes murerus, além de troncos de árvores, vindos por um tributário, ou seja, pelo rio dourado da Amazônia, o Rio Madeira. Canoas, batelões, barcos e navios singrando o Amazonas, em frente ao porto da cidade, esse era o cenário que se apresentava, emoldurado pela floresta da outra margem do rio, suavizada pela brisa fria das manhãs.

De acordo com a história, o fato que mais marcou como um divisor de águas em sua vida foi o embarque no navio/motor Itapuranga. Seu pai queria o melhor, mandando-o vir estudar e, desta maneira, trabalhar em Manaus para “ser alguém na vida”. E sua mãe, sofrendo a despedida, agarra-se ao filho querido e o abençoa, prevendo que jamais voltará a pisar aquele chão… Essa realidade confunde-se com a de inúmeros caboclos, inclusive como a que aconteceu com Dr. Roberto Vieira, reitor daquela IES que obrigado a partir, emociona-se com a distância dos laços familiares. Ocorre o mesmo fato com outras lideranças estudantis que, preocupados com a formação, partem de sua terra para buscar a qualificação, quando muitos se enveredaram por outros caminhos. Sem dúvidas, essas memórias são revividas constantemente por muitos, diariamente… Hoje inúmeros filhos da terra nos orgulham com o notório saber, que foi adquirido à duras penas, nos diversos ramos do conhecimento ou nas profissões que escolheram para trabalhar, progredir e brilhar, levando o nome da terra com Ética, adiante.

Assim como na ciência, cultura e história só para citar alguns exemplos, tantos outros conterrâneos foram obrigados a exilar-se em vários estados do país: a diferença é que, recentemente, a saída tem sido pela Rodovia Vital de Mendonça.  Motivos os mais diversos: a inexistência de uma política pública que contemple a juventude, inexistência de perspectivas profissionais e perseguições político-ideológicas de um descompromissado com as liberdades democráticas. Graças a Deus, Manaus é exílio ou ponte para tal, mas todos os dias meus pensamentos deságuam lá.

O Principado de Serpa surge do encontro das ideias e de pessoas comuns, que com suas lideranças desejam o melhor para a cidade, mas sonham, separadamente, sendo necessária a unificação das lutas… Reúnem-se constantemente com alternância na residência de um dos sócios que oferecem o local, não somente para um brinde aprazível como faziam alguns, no Principado de Itacoatiara, mas também, para discutir, encaminhar propostas, traduzir o pensamento popular e materializar a voz das ruas em projetos que beneficie a todos, na esperança de exercer a cidadania com o objetivo de propor uma alternativa de poder e que possa gerar empregos, educar o povo para a nova consciência nacional, tratar a saúde que está na UTI, promover espaços para a cultura, programar e garantir melhor qualidade de vida para a população.

Por tais princípios a expressão Principado de Serpa é, diametralmente oposta a um pequeno grupo do Principado de Itacoatiara que não devotou o amor à luta, cujos personagens eram vividos por alguns filhos dos lordes locais, que pouco ou nada fizeram por sua gente em vista de, no período sermos considerados um porto exportador. Afinal não é à toa que Itacoatiara foi convidada, por inúmeras vezes, a participar da Feira Mundial de Hannover. Ao contrário daqueles, estes convidavam parte da elite manauara, de Belém e do Rio de Janeiro para brindar nos salões do Amazonas Clube e do Botafogo, o usufruto das safras extrativistas dos produtos regionais com a espumante mais cara da Europa, esquecendo-se de pagar um bom salário aos caboclos, empregados e estivadores que trabalhavam 24 horas por dia, para dar cabo de inúmeros navios, ancorados no largo, levando os produtos para os cinco continentes do planeta. Eles também deveriam se preocupar, discutir, defender ou reivindicar os reais interesses do município, mas observa-se a perda de grandes possessões de ricas terras para a formação de outros entes municipais como Itapiranga, Silves, Urucurituba, Autazes e outros. Mas reconheço a honradez, a defesa da nossa gente e o amor que um pequeno grupo do Principado de Itacoatiara, devotava a Velha Serpa.

É importante registrar, dentre outras pendengas, que extensa área do nosso território foi cedida para Nova Olinda do Norte, quando o Governador Plínio Coelho para demonstrar poderio e arrogância, brigou com um dos administradores. A Pedra Pintada, com o silêncio da Câmara Municipal e do prefeito, teve parte considerável do território subtraído, faixa de terras onde se localiza grande jazida mineral. Jamais as lideranças se reuniram para reivindicar dos prefeitos e governadores que se impuseram contra o município, a porção merecida que nos cabia pela importância social, política e econômica, estando estrategicamente localizado próximo a  foz do Madeira e na região do Médio Amazonas. No livro Homens, Mulheres e Coisas de Itacoatiara encontram-se inúmeros personagens que povoaram as duas sociedades.

A Cidade da Canção já computa inúmeras perdas em sua história e, atualmente, vai ter que lutar contra mais uma, a da divisão do território, visto que o município corre o sério risco de ficar menor, geograficamente, e ter encolhida sua economia, pois sem uma verdadeira representação parlamentar, fica à mercê de bandoleiros que desejam dividir, para governar. Já existe uma campanha nas ruas, orquestrada por políticos, deflagrada para que a Comunidade de Novo Remanso, torne-se autônoma, desmembrando-se do município. Segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística os dados indicam que a constituição de novos municípios não contribuiu para o desenvolvimento regional e nem foram importantes para a distribuição da riqueza nacional.

A criação de entes municipais somam novos gastos públicos para manter a máquina administrativa, promovendo o clientelismo, o nepotismo e outras mazelas por onde grassa a corrupção, sonhadas por determinados grupos políticos que, atualmente, tem base em nossa cidade, propagando a que  Novo Remanso, torne-se um Condado rebelde e separatista,  apartando-se da Velha Serpa.  Em sendo assim, quem será o xerife? Com as botas empoeiradas pela ditadura e calça suja e puída pela caduquice administrativa, mas com ágil mão de ferro para (des)governar, o homo arcaicus não virá à cavalo, mas  em uma viatura policial.

O povo teme que vá lotear como feudo tal distrito, destruindo os traços da cultura dos remanescentes Mura e quilombolas que ainda nem foram mapeadas, promovendo o desmatamento, dividindo para governar, cercando as melhores áreas para si e sua trupe, perseguindo naquela terra d’Oeste, seus opositores. Tomara que a voz das ruas impere e que os súditos da República Confederada da Velha Serpa faça muito barulho, porque a caravana da maldade pode passar e ficar muito tempo no poder, sangrando os cofres públicos e humilhando nossa gente. É necessário convocar todos os distritos e comunidades, para vencer os homens maus.

 

A terra sagrada de nossos pais exige uma postura de realeza e polidez de homens públicos probos, vestidos com a honradez e a ética. Espelhemo-nos, portanto, na história, indo para o combate com o sentimento de resistência daqueles que nos legaram o território como aprendemos no livro Câmara Municipal de Itacoatiara – Sinopse Histórica em que os Abacaxis, Mundurucu, Torá e Arara; somam-se a força das nações Aaná, Bary, Baniba, Juri, Curuaxiá, Maué, Passé, Sará, Tururi, Anicoré, Aripuanã, Parapapixana, Cumaxiá, Aponariá, Juqui, Pariqui; ao poder dos Juma e Urupá, liderados pelo  Tuxaua dos Iruri que, segundo o historiador Francisco Gomes da Silva, usou a estratégia da diplomacia para enfileirar nossos povos ancestrais a defender a unidade de ataques ao território que nós herdamos.

Os apontamentos de nosso mestre nos ensinam que mais tarde, isto é, nos meados do Século XIX, por Nunes Pereira ter viajado inúmeras vezes ao município e se tornado conhecido da maioria das etnias, era constantemente convidado para participar das piracaias, especialmente as do Lago de Serpa, promovida pelos seus imponentes amigos Mura e, à boca da noite, saboreava o famoso Tacacá com uns Siripás. Outras vezes levado pelo braço de Mamorini, nas imediações do atual Bairro da Colônia, recolhendo a riqueza das tradições nativas, como as festas, as lendas, mitos e as estórias que os maioraes contavam para depois escrever e publicar um verdadeiro tratado de Antropologia conhecido internacionalmente como Moronguêtá, um Decameron Indígena. Lembremos que no Amatary existiam os povos Periquito, Sapopé e os Aroaqui que faziam mixira, somados as nações que visitou no Ingaipawa, rio Urubu e daqueles que habitavam às margens do Lago Canaçary. Na década de 60 quando o historiador Geraldo Sá Peixoto exercia a promotoria na cidade, seguiu o mesmo ritual do maranhense que para cá veio e se amazonificou.

Olhando mais atrás, assim, nem parece que nossa cidade já foi um reino unido exemplificado por três vias, conforme o croqui de 1874, encontradas no livroCronografia de Itacoatiara (Vol. I 1997): Travessa da Fraternidade, Travessa da Igualdade e Travessa da Liberdade. Sem dúvidas, sentimentos revolucionários no interior da Amazônia, nos permitem afirmar que os caboclos estavam antenados com o que ocorria no mundo, homenageando a Revolução Francesa. Todavia mais incrível ainda, é saber que, em 1759, portanto, muito antes da existência das arenas modernas, a planta da Vila de Serpa era em formato de um hexágono, como se fora uma mandala, onde todas as vias convergiam para uma grande área central, partindo das glebas menores para as maiores, como em uma espiral. Mas infelizmente tal projeto não foi levado adiante(ver Galeria do blog, Box 7 e 9).

Atualmente o município possui 8.892 Km², com uma população de 98.674 hab., compondo-se de 240 comunidades das quais se sobressaem Lindóia, Engenho, Batista e Novo Remanso, possuindo ainda o Distrito do Amatary. O mapa do município ficou tão pequeno que sua configuração no Estado do Amazonas, ficou semelhante ao de umFelis tigrinao pequeno gato-do-mato amazônico com a mão direita levantada, em posição de ataque, parecendo afirmar: Alto lá! Assim como está escrita na Pedra, vamos montar nossa Tropa, anunciando com a Membitarará (flauta de guerra dos Tupi, quando estes habitavam o município),  referidas por Olavo Bilac no poema Inúbia (1865-1918), o início da batalha e desfraldar a bandeira com a Cruz e expulsar os mouros dos caminhos dos cristãos. Em nossa mente está desenhada a maquete da muralha dessa gente, onde viveram nossos heróis, pertencentes a uma genealogia formada por laços de solidariedade pluriétnica. O povo cultua nossos heróis, como príncipes do mundo real que elevam, com seus conhecimentos, a história da nossa gente e pensam na unidade, do que ter a terra arrasada, separadas por condados diferentes, comandados por um bando de homens que não têm luz.

Aos trovadores e menestréis que com sua arte lutam, nas esferas da nova consciência nacional, catalogam, estudam, estimulam movimentos, materializam ações e levam informações aos nossos irmãos, disseminando os conhecimentos aos mais novos até as gerações seguintes,  sintam-se embaixadores – ao contrário do grupo do velho comunista que se aliançou, como canta Chico da Silva na toada Vermelho -, agraciados com a comenda da Ordem Gran Cruz de Nossa Senhora do Rosário, nossa maior insígnia, por relevantes serviços prestados a comunidade pelo real interesse, dedicação e presteza dedicados a população itacoatiarense e, em cerimônia pública de condecoração a ser realizada na presença de todos, no Palácio de Serpa, no dia 8 de setembro de 2013.

*É Professor e Jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).
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J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

1 COMENTÁRIO

  1. O povo de Itacoatiara deve ter grande satisfação em tê-lo como Filho legitimo. Que luta para que esse sonho não fique apenas no papel ou nas telas dos computadores. Uma honra poder compartilhar e divulgar esse texto histórico maravilhoso. Muito lindo sua sede de luta para conseguir que a humanidade tire bons ensinamentos para um futuro melhor,.acredite….é uma vitória. Parabéns

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