*Carl Zimmer

As primeiras populações não voltariam a se misturar por milhares de anos.

Os primeiros habitantes da América se dividiram em duas populações há mais de 13 mil anos, de acordo com um novo estudo sobre amostras de DNA da antiguidade, e se mantiveram separados por milhares de anos.

Mais tarde os dois grupos voltaram a se encontrar, em algum lugar, e começaram a se misturar. Hoje, seus descendentes habitam uma vasta região que se estende do México à ponta setentrional da América do Sul.

Uma pesquisa, publicada na quinta-feira (31) pela revista Science, traçou um retrato complexo de migrações humanas na América. Quando os seres humanos chegaram ao Hemisfério Ocidental, vindos da Ásia, não houve um processo simples de assentamento nos novos territórios a que chegaram.

“O estudo é importante porque começa a nos afastar de modelos demasiadamente simplistas de como as populações humanas se espalharam inicialmente na América”, disse Deborah Bolnick, geneticista da Universidade do Texas em Austin, que não participou do estudo.

As constatações emergiram de um estudo envolvendo 91 genomas muito antigos, de pessoas que viveram há até 4,8 mil anos, em territórios que hoje são parte do Alasca, Califórnia e Ontário. Esse grupo de amostras representa uma grande expansão no catálogo de DNA do passado distante do Hemisfério Ocidental.

Até os anos 90, sítios arqueológicos ofereciam boa parte das provas quanto à difusão da presença humana na América. Há indícios arqueológicos firmes de que seres humanos se estabeleceram no sul do Chile 14,5 mil anos atrás, por exemplo. Alguns pesquisadores chegam a argumentar que a chegada dos seres humanos pode ter acontecido milhares de anos antes.

Mas a arqueologia não basta para responder todas as perguntas, por exemplo, sobre quem exatamente vivia nesses sítios iniciais, e sobre como os grupos humanos se relacionavam uns aos outros. Geneticistas estão tentando resolver algumas dessas questões estudando o DNA de indígenas americanos vivos.

Estudos iniciais com pequenos fragmentos de genes indicavam que todos os indígenas americanos radicados ao sul do Ártico descendiam do mesmo grupo de imigrantes, que pode ter atravessado a Beríngia, ou Ponte Terrestre de Bering, que conectava a Ásia ao que hoje é o Alasca, no final da mais recente era do gelo.

Mas o ritmo dessas pesquisas se desacelerou no começo do século 21, em parte por conta da desconfiança que muitas comunidades de indígenas americanos sentiam com relação aos cientistas, depois de um longo histórico de abusos.

Em um processo judicial em 2004, a tribo havasupai acusou a Universidade Estadual do Arizona de ter iludido seus membros quanto ao objetivo do estudo para o qual seu DNA seria usado. Esse conflito levou muitos pesquisadores a relutar quanto a se envolverem em controvérsias parecidas.

E, quando os cientistas aprenderam a extrair DNA de restos humanos muito antigos, surgiu um conflito semelhante.

Muitos museus abrigam esqueletos de indígenas americanos, muitas vezes exumados de cemitérios sem consentimento das comunidades indígenas. Estas solicitam a devolução de muitos desses restos mortais, e passaram a rejeitar pedidos de pesquisa.

Mas nos últimos anos essas dificuldades começaram a ser superadas.

A cada verão, Ripan Malhi, geneticista da Universidade do Illinois e um dos coautores do novo estudo, e seus colegas operam uma oficina na Universidade do Illinois na qual representantes de comunidades indígenas treinam para trabalho genético, com foco em pesquisas que possam ajudar suas comunidades.

Ele também estabeleceu relacionamentos duradouros com comunidades indígenas no Canadá e no Alasca.

Christiana Scheib, outra das coautoras do novo estudo, viajou à Califórnia para uma reunião com representantes de tribos. Ela explicou por que desejava estudar os restos mortais de indígenas que fazem parte dos acervos de museus da Califórnia.

“Alguns deles se surpreenderam”, disse Scheib, que hoje dirige o grupo de pesquisa de DNA da antiguidade na Universidade de Tartu, na Estônia. “Disseram que eu era a primeira pesquisadora a conversar com eles e pedir sua opinião.”

No novo estudo, Scheib, Malhi e seus colegas buscaram DNA em restos mortais que eles foram autorizados a estudar. Conseguiram extrair material genético dos dentes e dos ossos auriculares de 91 indivíduos.

Em alguns casos, os pesquisadores conseguiram recuperar apenas fragmentos de DNA; em outros, obtiveram material suficiente para uma reconstrução acurada de todo o genoma.

Os pesquisadores em seguida compararam os novos dados a informações genéticas publicamente disponíveis sobre outros povos —tanto antigos quanto atuais— na América do Norte e do Sul. Os cientistas também estudaram o DNA de comunidades da Ásia, em busca de parentes próximos.

A árvore genealógica que emergiu inicialmente era intrigante, e sugeria conexões genéticas estreitas entre povos relacionados de forma muito distante. “Continuávamos a obter resultados que não faziam sentido”, disse Scheib.

Mas um estudo mais atento resolveu parte do mistério.

Com base em seus dados, os pesquisadores concluíram que os indígenas americanos vivos descendiam de uma população de asiáticos que emigrou para o Alasca e depois se expandiu rumo ao sul, provavelmente ao longo da costa do Oceano Pacífico.

Pouco depois, a população original se dividiu em dois grupos, que Scheib e seus colegas designaram ANC-A e ANC-B.

O genoma mais antigo já identificado na América, de um menino que viveu 13 mil anos atrás no território do que hoje é o estado de Montana, pertence ao grupo ANC-A. Ou seja, àquela altura, os grupos já haviam se dividido.

A prova mais antiga quanto à presença do grupo ANC-B, por outro lado, vem de um esqueleto de 8,5 mil anos descoberto no território do atual estado de Washington, conhecido como Homem de Kennewick, ou O Ancestral.

Em algum momento, pelo menos alguns indivíduos do grupo ANC-B devem ter se transferido bem para o leste. Scheib e seus colegas descobriram que restos de até 4,8 mil anos de idade encontrados no que hoje é a parte sul da província canadense de Ontário eram parte do grupo ANC-B.

Mas quando os cientistas estudaram o DNA de povos da Califórnia e de áreas mais ao sul, se surpreenderam por encontrar uma combinação de material genético ANC-A e ANC-B.

As provas mais antigas quanto a essa mistura vêm de pessoas que viveram 4,5 mil anos atrás nas Channel Islands, ao largo da costa da Califórnia. Essas pessoas tinham 58% de ANC-A e 42% de ANC-B em sua formação genética.

Os pesquisadores encontraram misturas de DNA semelhantes em pessoas que vivem no México e na América do Sul.

Scheib e seus colegas discutiram algumas hipóteses que podem explicar esses resultados.

É possível que pessoas ANC-A tenham percorrido a costa oeste da América, estabelecendo comunidades pesqueiras ao longo dos séculos. Milhares de anos mais tarde, uma linhagem de pessoas que descendiam do grupo ANC-B percorreu o mesmo caminho rumo ao sul e fez contato com as comunidades.

Outra possibilidade é que os dois grupos tenham se encontrado em algum lugar da América do Norte. Só mais tarde seus descendentes se expandiriam rumo ao sul.

Malhi disse que bem podem ter acontecido outras migrações em massa na América. No novo estudo, os pesquisadores constataram, por exemplo, que os moradores ancestrais do que hoje é a província de Ontário e membros de comunidades indígenas vivas em lugares como o Alasca têm elos genéticos que os associam aos inuit da Groenlândia.

É possível, assim, que os povos do Ártico tenham se transferido para o sul nos últimos poucos milhares de anos, misturando seus genes aos dos povos ANC-B.

Uma maneira de testar essas hipóteses é encontrar mais material genético da antiguidade em outras porções da América. Mas primeiro Mahli disse que ele e os colegas querem conversar com as comunidades indígenas vivas sobre suas histórias.

Essas histórias talvez preservem informações sobre contatos no passado distante entre povos tenuemente relacionados.

“Ao não só estudar os genes mas também conversar com as comunidades, talvez venhamos a conseguir descobrir alguma coisa”, disse Malhi.

*Cientista norte-americano. Matéria traduzida por Paulo Migliacci. Folha de São Paulo, Caderno Ciência A14 de 02/07/2017.
Compartilhar
Autor Externo
As publicações são fontes externas de outros veículos de comunicação.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui