Todos os anos tenho o costume de me preparar para o Natal de Jesus, principalmente do ponto de vista espiritual, desde há muito quando menino e acompanhava a forma como meus pais e irmãos se conduziam em orações, além de organizarmos a casa de residência com alguns modestos adornos bem apropriados, especialmente a pequena árvore de bolas coloridas e ponteira estrelada, ainda na época em que elas podiam quebrar ao menor impacto.

Ao mesmo tempo o congraçamento entre irmãos, primos, tios e tias e amigos fraternos parecia aumentar, pois o costume era de fortes abraços entre os membros da grande família, seja com aqueles que sempre estavam mais próximos, assim como os que se mantinham meio arredios até por razões de trabalho e diferença de idade.

Ao recuperar na memória esses dias especiais da minha vida, passados entre esperanças e inocências, verifico que isso não sucedida com outras pessoas e grupos familiares, e alguns vizinhos mantinham as brigas e intrigas antigas mesmo na época natalina, parece que fazendo questão de não se perdoarem, uns aos outros, como deve fazer o bom cristão.

Crescido, deixei de esperar o Papai Noel e sonhar com a descoberta dos presentes postos no sapatinho na beira da cama ou da rede atravessada no quarto para me transformar em “bom velhinho,” quando os filhos chegaram, e sentir a agradável emoção de ver olhos brilhantes e sorrisos largos na manhã de 25 de dezembro diante da surpresa que depositara para embalar os que recebi dos céus para encaminhar na vida.

A cada vez que isso acontecia, coração transbordando de alegria, parecia ver o passado reconstituído, pois, passos macios e em silêncio de quase anjo, repetia os gestos solenes e amáveis com os quais meus pais me brindaram durante muito tempo, agradando nossos corações e satisfazendo nossos desejos conforme as suas posses, mas, sempre, do sempre, nos acalentando a todos nós com a dádiva divina do amor filial que nos bastava.

Passados mais alguns anos, eis-me levando alegria e felicidade a milhares de pessoas ao realizar o “Natal das Luzes,” o “Glorioso,” “Lágrimas de Brinquedo” e outros espetáculos que foram fruto da inteligência, dedicação e trabalho de muitos corações apaixonados de artistas e técnicos imbuídos em edificar altares à beleza, à paz e à esperança em todos os que nos assistiam, aplaudiam e estimulavam com palavras, gestos, sorrisos e lágrimas de emoção.

Do primeiro grande concerto de Natal, realizado em 2002, guardo lembrança viva e ardente de carinho: a foto de minha amada mãe com gorro de Papai Noel, olhos marejados, sorriso aberto, mãos contritas como se em prece estivesse acompanhando ao vivo a expressão do nosso fazer artístico, e percebo, ainda agora, que eram aquelas mãos postas em demonstração de fé que regiam o mundo encantado que estávamos oferecendo com os cânticos de aleluia. Assim foi durante anos seguidos, e depois, quando encantada entre as estrelas, por certo abraçada ao seu marinheiro e meu pai amado, era a eles que eu me entregava minutos antes da hora aprazada, rogando bençãos e clamando perdão.

Passadas tantas emoções, muitas delas indescritíveis e que jamais se apagarão pois gravadas na alma, é com os netos que experimento os novos sentimentos de paz e felicidade, acolhendo no colo, contando estórias, brincando na rede que se transforma em barco que singra os rios acompanhado de jacarés e pássaros, ensinando a pedalar na motoca, brincando na piscina, lendo um pequeno livro, falando de borboletas douradas, de formigas voadoras, e procurado saber o que pediram nas cartinhas endereçadas ao velho de barbas brancas, e, quem sabe, fazer descer presentes pela chaminé imaginária com meu coração saltitando de felicidade.

Agora, é assim que sigo preparando o Natal, ao lado de Rosa que é meu amor, entre orações ao alto e o sorriso das nossas novas crianças que sonham os mesmos sonhos que experimentamos quando meninos pequenos e rezam conosco por um mundo de paz.

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Roberio Braga
*Professor, historiador e Advogado. Especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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