Marcelo Leite
*Marcelo Leite

Planalto deveria liderar aumento heroico da produção de armas contra Covid-19, não a propagação de informações erradas.

O que têm em comum Coreia do Sul, Singapura, Hong Kong e Taiwan, louvadas pelo controle precoce das respectivas epidemias de covid-19 e pelo número relativamente pequeno de mortes? Todos fizeram uso maciço de máscaras e de testes para detectar infecções pelo coronavírus Sars-CoV-2.

A letalidade em Singapura foi baixa, da ordem de 0,5% (tomando por base dados da Universidade Johns Hopkins no sábado, 21/3). Em seguida vêm Coreia do Sul (1,2%), Taiwan (1,3%) e Hong Kong (1,5%).

São nações asiáticas, antes de mais nada. A imposição de restrições ao contato social parece ter sido mais fácil por ali, seja pelo autoritarismo como o do governo singapuriano (para não falar do chinês), seja pelos valores confucionistas que definem a realização individual como contribuição para a harmonia do todo.

Uma ilustração eloquente surge com o uso de máscaras faciais. O hábito já era comum antes da Covid-19, como sabe quem viajou para Tóquio ou Pequim nos últimos anos. Além de proteger-se, as pessoas as utilizam para não contaminar os outros, daí a aceitação social do costume.

É bem diferente em cidades ocidentais, onde predomina a noção de defender-se da epidemia. Isso levou as pessoas a correrem para estocar máscaras e autoridades de saúde a divulgar uma mensagem contraditória: não deveriam ser usadas por quem não tem sintomas, porque não protegeriam contra o coronavírus, e a corrida só causaria escassez do equipamento para profissionais de saúde.

Se as máscaras não oferecessem proteção individual alguma, seriam inúteis também para médicos e enfermeiros. Por imperfeita que seja a filtragem de partículas virais, decerto elas impedem que perdigotos (gotículas) expelidos ao espirrar e tossir atinjam narinas e lábios dos outros.

Além disso, se os próprios infectados as vestirem, as gotículas –também chamadas de aerossóis –ficarão retidas. Cabe lembrar que talvez a maioria deles passa dias transmitindo a doença antes de manifestar sintomas como tosse forte e febre alta, enquanto outros nem chegam a apresentá-los, o que estaria na raiz da rápida disseminação da síndrome respiratória.

Especialistas, na ânsia de impedir o sumiço de máscaras, buscaram revestir a recomendação com um verniz científico dizendo que o Sars-CoV-2 não seria facilmente transportado pelo ar (“airborne”, no termo técnico em inglês), como o vírus do sarampo, que pode permanecer infectante por várias horas na atmosfera de um ambiente fechado.

Isso só aconteceria com o coronavírus no interior de perdigotos, cujo peso logo os precipitaria ao chão. Por essa razão se recomendava manter a distância de 1 m ou 2 m de outras pessoas. O risco de contaminar-se não desaparece nessas condições, porém, em especial se um desses indivíduos ou ambos não cobrirem o rosto.

Neeltje van Doremalen e colaboradores publicaram carta terça-feira (17) na revista New EnglandJournalof Medicina descrevendo experimento em que produziram aerossóis de dimensões comparáveis às de perdigotos humanos. Concluíram que o Sars-CoV-2 permanece viável e infectante no ar do recinto por pelo menos três horas.

No caso de superfícies, as partículas expelidas continuam com potencial contaminante por vários dias. Isso acontece em especial quando se depositam sobre áreas de plástico e aço inoxidável (bem menos sobre cobre e papelão).

Há mais. Num artigo de 2014 para o JournalofFluidMechanics, Lydia Bourouiba investigou gotículas quando são expelidas em “eventos expiratórios violentos” (tosse e espirro, na língua de mortais comuns): os fluxos de ar assim produzidos podem impulsionar perdigotos por até 8 m (mas não, claro, se a pessoa tiver boca e nariz cobertos).

Conclusão: é bom usar máscara, sim, desde que não seja com a displicência e a inaptidão exibidas pelo presidente Bolsonaro na entrevista coletiva de quarta-feira (18) com sete integrantes do primeiro escalão, inclusive o ministro Luiz Henrique Mandetta, da Saúde.

Se puder, use-a quando sair à rua e tiver chance de ficar a menos de dois metros de outras pessoas, como no caixa de supermercado ou em transportes coletivos. Ou, então, se precisar cuidar de alguém doente. Não tire do rosto e, depois de usar ou tirar, jogue fora, sem reutilizar.

Mundo em isolamento devido ao coronavírus

 

Mulher caminha dentro de shopping vazio durante um bloqueio parcial em Leverkusen, na Alemanha ThiloSchmuelgen – 20.mar.20/Reuters

Militar em rua vazia do centro de La Paz, Bolívia, depois de o governo pedir que moradores permaneçam dentro de casa como prevenção contra o coronavírus David Mercado – 19.mar.20/Reuters

 Grupo de turistas caminha em frente à Ópera de Sidney um dia após a Austrália anunciar o fechamento das fronteiras na esperança de conter a Covid-19 Peter Parks – 20.mar.20/AFP

Homem caminha pela Ponte Carlos, a ponte mais antiga de Praga, na República Tcheca David W. Cerny – 20.mar.20/Reuters

Resta o problema da escassez, em especial para o pessoal dos serviços de saúde. Claro está que devem ter prioridade no abastecimento, mas tampouco é justo que outras pessoas expostas –pense nos que não podem deixar de trabalhar e precisam pegar condução todos os dias –fiquem impedidas de se proteger.

Em lugar de dar entrevista no programa do Ratinho espalhando informações erradas e incentivando aglomerações, o presidente da República deveria estar debruçado sobre o problema de como aumentar a produção de máscaras para todos os brasileiros. Não são produtos de alta tecnologia, e com um pouco de criatividade e determinação seria possível mobilizar fábricas hoje paralisadas por falta de demanda para produzi-los.

Bolsonaro e sua penca de ministros militares, supostamente especialistas em questões cabeludas de logística, precisam entrar nessa guerra –a primeira de suas carreiras amenas– com mais bravura.

Nacionalistas, em lugar de incentivar a destruição da Amazônia, ofender autoridades chinesas que detiveram a epidemia e bajular as americanas que atrasaram a distribuição de testes para Sars-CoV-2 , deveriam coordenar um esforço monumental para reunir o exército de cientistas e técnicos do país no desenvolvimento, produção e aplicação de exames diagnósticos para a Covid-19.

O Brasil consegue construir aviões e um acelerador de luz sincrotron, o Sirius, de última geração. Não é possível que não consiga produzir em massa as máscaras, os kits de testes e os respiradores imprescindíveis para derrotar o coronavírus.

Se não for com Bolsonaro no comando, que seja apesar dele.

*Jornalista. Articulista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustríssima, de 21/03/2020.
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