*Djamila Ribeiro

Atual situação serve somente a quem lucra com a reprodução em massa de discurso de ódio contra as mulheres.

Um ambiente digital desregulado e que domina a atenção de jovens adultos e até mesmo de pessoas de todas as idades tem sido fator gerador de inúmeros problemas sociais.

Recentemente, assisti ao documentário “O Dilema das Redes”, que aponta a coincidência entre a disponibilidade das redes sociais em smartphones com o aumento de suicídios nos Estados Unidos. Padrões inalcançáveis de beleza e felicidade, algoritmos construídos para viciar o usuário a fim de monetizar os conteúdos ali disponibilizados e uma busca sufocante por likes são alguns dos muitos pontos listados como problemáticos dessas empresas, que merecem não só atenção, mas também regulação por parte da sociedade civil -algo que, no nosso país, infelizmente parece uma utopia, sobretudo quando se é apontada pelo próprio filme a manipulação das redes sociais para vitórias em eleições aqui no Brasil.

Entretanto, não são só essas empresas que dominam a atenção das pessoas, sobretudo dos homens. Há uma indústria bilionária, cuja atividade produz consequências na vida de mulheres e homens inclusive, mas que consegue a façanha de ser invisível. Enquanto economias caem e medidas de contenção são postas em prática em diversos segmentos, a indústria pornográfica vem surfando em um crescimento estelar na atual quadra histórica.

Segundo diversas pesquisas divulgadas nos últimos meses, o consumo de pornografia vem aumentando vertiginosamente durante o período da pandemia. Seguindo a tradição histórica discursiva desses vídeos, as mulheres são postas em situações de objeto a serviço do prazer masculino, submetidas à degradação e à violência pelas mais variadas formas.

Raisa Ribeiro, em seu belo livro “Discurso de Ódio, Violência de Gênero e Pornografia”, resultado de sua dissertação de mestrado, afirma que “a pornografia contempla diversas espécies, classificadas, por exemplo, em hardcore, soft core, heterossexual, gay, lésbica, bissexual, transexual, teen, entre outras”.

“Todas essas modalidades de pornografia, apesar de conter suas peculiaridades, possuem traços comuns essenciais: todas elas estão compreendidas dentro de um contexto de supremacia masculina, em que há a representação da subalternidade sexual feminina e a presença de comportamentos sexuais agressivos e degradantes perpetrados em face das mulheres.”

Mas qual o problema? Bom, vários. Primeiro, é importante notarmos que discursos criam formas de vida. Então ganha vida o discurso que submete mulheres à irreal e violenta cena sexual disponibilizada nesses sites, nos quais a única barreira para acessar é clicar num botão em que se diz ser maior de 18 anos —isso quando há tal verificação e como se ter mais de 18 anos significasse ter preparo para ser submetido a horas de conteúdo dessa natureza.

O conteúdo sai da tela do computador para o hábito sexual masculino. Um discurso de ódio que se materializa. E aí, mulheres, quantas de nós já não fomos expostas a violências absurdas, como se estivéssemos num daqueles quadros? Estamos falando de uma pandemia histórica que se acentua na pandemia do coronavírus.

De outro lado, vale dizer, o consumo de pornografia tal qual estimulado pela indústria produz limitações e traumas para os próprios homens, que devem, sim, buscar ajuda e se refinar para transcender o vício que causa tantos malefícios. Falta de sensibilidade sexual, dificuldade de ereção e orgasmo, dificuldade de estabelecer relações de troca com a outra pessoa na relação são apenas algumas consequências.

Como se vê, não se trata de uma discussão moralista, ao contrário, mas de discutir sexualidade de maneira muito mais ampla e saudável. No Brasil, iniciativas como PrazerEle, com site disponível, propõem esse debate com livros gratuitos e vídeos sobre o tema.

Quanto à indústria em si, precisamos de políticas públicas de saúde pública, medidas legislativas e judiciais para proteção das mulheres. Manter essa situação na invisibilidade serve apenas aos bolsos de quem se vê lucrando com a reprodução em massa de discurso de ódio contra as mulheres.

Nesse sentido, afirma Raisa Ribeiro: “Atos de resistência individuais e coletivos tornam-se imperiosos”. “Individualmente, deve-se boicotar a pornografia em razão de seus efeitos negativos no desenvolvimento da sexualidade humana e por incitar a violência de gênero. Coletivamente, deve-se criar um movimento que lute contra os danos provenientes da pornografia e cobre medidas legislativas e judiciais do Estado para a proteção das mulheres que se encontram em situação de violência gerada pela pornografia.”

  *Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 02/10/2019.

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