*Bernardo Carvalho

Ao contrário do que pretende o projeto ideológico bolsonarista, arte não tem nada a ver com ideologia.

Ninguém acusa a ciência de elitismo. A não ser o populista que, no lugar da educação, e apoiado pelas elites econômicas mais oportunistas e inconsequentes, oferece a Terra plana ou o “design inteligente” como solução para a ignorância.

Então, por que gente com a cabeça aparentemente no lugar continua a engrossar a cruzada de demagogos contra as artes? Por que insistem em confundir exceção com “elitismo cultural”? Afinal, o que esperam da arte? Que confirme crenças, gostos, consensos e hegemonias? Que não seja uma forma de reflexão e conhecimento?

Se fosse assim, praticamente nada do que consideramos artisticamente excepcional existiria. Não haveria Herman Melville e o maior romance americano; não haveria Kafka nem Clarice Lispector. Também não haveria Godard, autor da máxima que, apesar de surrada, continua a deitar luz pelo caminho: “A cultura é a regra; a arte é a exceção”.

Filmes de Jean-Luc Godard

Deux ou trois choses que je sais d’elle Divulgação

Prenom Carmen Divulgação

Ao contrário do que pretende o projeto ideológico bolsonarista (com o apoio de elites ignaras e suicidas), arte não tem nada a ver com ideologia. Tem a ver com a força e a vulnerabilidade da contradição como resistência à criação de consensos. Tem a ver com a produção de diferença, com a exceção como condição de possibilidade do pensamento e da reflexão, na contramão de crenças e sofismas.

Vem daí a urgência de fomentar e proteger, como um bem social de todos (e não de “elites culturais”), a arte que não se vende nem se paga, aquela que não agrada nem serve ao mercado. Isso não significa que ela seja necessariamente boa ou ruim, apenas que a arte que serve ao mercado não precisa da proteção do Estado. Como podem explicar os economistas liberais, ela se autorregula.

Ao contrário das aparências mais rasteiras, a Terra não é plana. É difícil para quem nunca tirou os pés do chão contrariar suas impressões diárias e imediatas. Mas será essa dificuldade justificativa suficiente para se contentar com o conforto do erro (e suas consequências)?

Num dos seus textos mais misteriosos (“O Ovo e a Galinha”), Clarice Lispector escreve sobre a impossibilidade de ver o ovo pela primeira vez. Só vê o ovo, e o entende, quem já o viu, e isso já não é entender, é reproduzir o erro, a inércia ou a “naturalidade” de uma função irrefletida. Como é que se vê o ovo pela primeira vez? É com essa dificuldade que lida a arte de verdade ou de exceção. Ela não quer ser representação de consensos nem ilustração do que queremos ver. Ela não é confirmação de nada.

Clarice Lispector

Essa garotinha à direita é uma famosa escritora, reconhecida em diversos países e que, se não tivesse morrido em 1970. Na foto, ela está ao lado das irmãs Tania e Elisa Arquivo Pessoal

Ela é Haia, ou Clarice Lispector, nome adquirido no Brasil. A autora nasceu em Tchechelnik, na Ucrânia, mas logo se mudou para o Nordeste e depois para o Rio de Janeiro, onde criou grande parte de sua produção literária e jornalística. Além de escrever romance, publicava uma coluna chamada “Só para Mulheres”, sobre culinária e etiqueta Divulgação

Nem crença nem função, nem ideologia nem moral, essa arte encara a dúvida, a contradição e o desconforto de não entender, como condição fundamental do próprio conhecimento, da descoberta e da ampliação do entendimento do mundo.

Sem dúvida e sem contradição não há conhecimento. Mas dúvida e contradição não costumam produzir prazer -pelo menos não à primeira vista. Nada nelas é natural e confortável. E por isso precisam ser fomentadas e defendidas. Não porque correspondam ao que queremos crer, mas justo pelo contrário, porque nos confrontam com a diferença, com o outro, o que não tem nome, com o que nos causa repulsa, o que não podemos ver em nós.

Quando Bolsonaro diz que “cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós”, não está apenas exprimindo um racismo abjeto mas também, na sua miséria intelectual, o projeto suicida de erradicação da diversidade cultural.

Homogeneização e extinção -autoextermínio, para surpresa dos “agentes homogeneizadores”- costumam andar de mãos dadas. A natureza é inequívoca: a sobrevivência das espécies está ligada à diversidade. A monocultura empobrece o solo. Um corpo sem anticorpos não sobrevive fora de bolhas estéreis.

Pier Paolo Pasolini

O cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini, assassinado em 1975 Divulgação

Cena de “Saló ou Os 120 Dias de Sodoma” (1975), de Pier Paolo Pasolini Reprodução

Poeta e cineasta excepcional, Pier Paolo Pasolini também foi um combativo adversário do fascismo, em especial daquele que se manifesta onde menos se espera, com outros nomes. Em sua última entrevista, horas antes de ser assassinado, Pasolini falava do perigo de um sistema cultural e educacional consumista, capaz de fazer todo mundo desejar as mesmas coisas, e assim matar o desejo.

O maior desafio da cultura é fomentar o outro, a exceção. E é esse o paradoxo de um projeto ideológico uniformizador como o do bolsonarismo, não só para a cultura mas para o país. Combater o outro (na educação, na ciência e nas artes) é estrangular-se. É criar um país fraco, vulnerável, monotemático, infértil, para corresponder à miséria do pensamento do seu líder. É esse, aliás, o projeto ao qual os fascismos estão condenados inadvertidamente. Mas é isso o que desejamos para nós?

*Romancista. Matéria na Folha de São Paulo, de 09/02/2020.
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