*Claudia Costin

Contar apenas com ensino médio não será suficiente para ter acesso a trabalhos dignos.

Pesquisa recente da consultoria IDados mostra que o Brasil conta com 12,3 milhões de jovens entre 18 e 29 anos que nem estudam nem trabalham, um número que aumentou depois do advento da Covid-19 em 2020. Mesmo com a reabertura das escolas e a busca ativa dos alunos que não voltaram às aulas, ou ainda, no mesmo sentido, com a incipiente recuperação econômica, o número dos chamados “nem-nem” se mantém superior ao do primeiro semestre de 2019.

Alguns motivos para essa situação estão estreitamente ligados à ​pandemia. “Se não há oferta de aprendizagem remota na educação básica, como ocorreu em 18% dos municípios e ainda em várias universidades pelo país, a tendência entre os jovens é A de perder o vínculo e se desengajar dos estudos.” e ainda em várias universidades pelo país, a tendência entre os jovens é de perder o vínculo e se desengajar dos estudos. Além disso, se o discurso de autoridades públicas é o de que universidades são para poucos -e diante da ausência de conectividade, livros ou equipamentos-, por que se empenhar para prosseguir estudando? ​

Outro elemento importante foi a crise econômica associada à Covid, que explica a elevada evasão no ensino superior privado e que tornou necessário o trabalho precarizado de muitos jovens.

Mas, dirão alguns, com a plena retomada das atividades produtivas, os que estão excluídos das escolas e dos postos de trabalho logo estarão de volta. Sim, a expectativa é que assim seja, mas há uma mudança no mundo do trabalho que precisa ser levada em conta para construir um futuro mais sustentável e inclusivo. Com o advento da inteligência artificial e de uma automação acelerada, entre outras transformações na economia, contar apenas com ensino médio, como bem mostra Michelle Weise em seu interessante livro de 2021 “Long Life Learning” (aprendizado por toda a vida, em tradução livre), não será suficiente para oferecer aos jovens trabalhos dignos.

Com a rápida substituição de gente por máquinas, mesmo que novos postos laborais sejam criados, eles demandarão outras competências, o que obrigará novas gerações de profissionais não apenas a concluir uma educação pós secundária, como constantemente se recapacitar. Afinal, os postos de trabalho serão extintos e criados em ondas sucessivas, não de uma vez só. E não me refiro aqui só a atualizações dentro da mesma profissão, mas eventualmente a “reinvenções” profissionais.

Neste sentido, precisamos nos assegurar que os jovens continuem estudando, não apenas até o final do ensino médio. Além disso, será necessário que a qualidade da formação oferecida os conecte novamente com a aprendizagem e lhes ensine a navegar num mundo ainda incerto e imprevisível. Afinal, o Brasil só será melhor se eles tiverem direito a um futuro!

*Professora. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 06/01/2022.
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