Populismos

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*Vladimir Safatle

Em um campo de demandas fragmentadas, é preciso operar grandes alianças com variados interesses.

É claro que “populismo” tornou-se um termo fundamental no interior da reflexão política contemporânea mundial. Seu uso recorrente mostra uma tentativa de compreender para onde vão as tendências maiores de reconfiguração do campo político. Mas podemos nos perguntar o que ele exatamente descreve. Pois seria possível insistir que temos atualmente um uso retórico do termo “populismo” que acaba por mascarar sua função analítica.

Não é difícil perceber como se usa normalmente populismo dentro de uma estratégia de desqualificação e aproximação dos extremos políticos, isso a fim de defini-los como posições políticas anti-democráticas, fundamentada não na força do melhor argumento, mas na mobilização de afetos e paixões. Ou seja, “populismo” aparece como a figura mesma do irracionalismo em política. Este é seu uso meramente retórico.

Por um lado, o termo “populismo” é utilizado muitas vezes para evitar nomear grupos claramente racistas, xenófobos e de tendências fascistas. Pois, dessa forma, cria-se uma certa relação de equivalência entre os extremos políticos da direita e da esquerda. Por outro, ele tende a nomear toda tendência que não se reconhece no interior das posições possíveis da democracia liberal. Assim, “populista” serão as políticas econômicas anti-liberais, “populistas” serão as posições políticas que insistirão na necessidade de refundação institucional da democracia. Pois notemos que o recurso à liderança como princípio de unificação social não é um elemento diferencial do populismo, mas está presente no funcionamento normal de quase todos os processos genéricos de governo.

No entanto “populismo” descreve, de forma analítica, uma dinâmica precisa ligada à construção de hegemonia no interior do campo político. Tal construção de hegemonia está necessariamente ligada a uso da noção de “povo” como operador político central. O populismo é uma forma de integração de massas ao processo político através da construção do “povo” como agente.

Por isso, ele sempre expressará algo que muitos gostariam de não ver, a saber, que nossas instituições ditas democráticas excluem parcelas majoritárias da população dos processos decisórios e de gestão. O populismo tem sempre um conteúdo de verdade por deixar evidente, por meio do seu desejo anti-institucional, os níveis de exclusão que a democracia liberal precisa naturalizar para poder operar, seja na América Latina, nos EUA ou na Europa. Por ser uma estratégia de incorporação popular, o populismo sempre voltará em situações nas quais a política precisa da força instituinte do povo. Situações de crise (que são o modelo mesmo de situação normal no interior do capitalismo).

Mas, se o populismo tem seu conteúdo de verdade, ele também é a expressão de um certo impasse. Pois a forma de incorporação popular, no interior do populismo, é sempre através de um pacto de equivalência. Diante de um campo de demandas fragmentadas, diversas e antagônicas, o populismo precisa operar grandes alianças nas quais encontraremos os mais variados interesses. Membros de oligarquias descontentes, sindicalistas, movimentos sociais, empresários, religiosos: todos eles terão de ser, à sua maneira, contemplados em um processo que rapidamente se transforma em uma verdadeira “gestão da paralisia”.

Isso significa que há sempre dois momentos no interior das estratégias populistas. O primeiro é marcado pela incorporação popular. Nesse momento, o populismo avança pois dá forma a atores até então inexistentes e invisíveis no interior da cena política. O segundo é marcado pela paralisia, já que o modo populista de incorporação perpetua uma colcha de interesses que tendem a anularem uns aos outros com o passar do tempo, fazendo da inércia a marca maior da experiência política. Nada que um bom conhecedor da realidade brasileira não conheça muito bem.

*Professor. Filosofo. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada C6,  de 09/02/2018.
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