À memória de nosso avô paterno, Pompílio José Marques

 

Apresentação

Este relato foi resultado de uma provocação da parte do amigo e historiador Francisco Gomes da Silva, que atiçou a mim e ao meu irmão Ademar para escrever sobre o nosso avô paterno, Pompílio José Marques.

“Chico Gomes” nos disse que valeria a pena mostrar as memórias do “Velho Pompílio” – como carinhosamente era tratado – especialmente para as novas gerações de itacoatiarenses.

Tarefa fácil demais (além de prazerosa!) porque as informações sobre o “Velho” estavam bem ali à nossa frente: nosso pai, Melquiades. Fonte mais segura que essa não se poderia ter.

Foi da boca de Melquiades que ficamos sabendo das atividades de servidor público exercidas por Pompílio. Detalhes interessantes e relacionados ao desenvolvimento de Itacoatiara, que nós mesmos, seus netos, desconhecíamos até então: incentivo ao plantio da juta, implantação da primeira rede de água encanada, construção do primeiro “campo de aviação”.

Descobrimos que a popularidade do “Velho Pompílio” decorrera de inúmeras tarefas pioneiras a ele confiadas pelos mandatários municipais somadas ao seu carisma.

Temos certeza que o “Velho Pompílio” contribuiu para o bem-estar de seus conterrâneos, sendo exemplo de servidor público a ser seguido.

Hoje é lembrado como nome de uma rua no Bairro Jauary II, em Itacoatiara, AM.

 

Itacoatiara, abril de 1995

Os autores

 

A família: um itacoatiarense de pais cearenses

Pompílio José Marques (*Itacoatiara, 10/02/1889 – +Itacoatiara, 24/08/1970) veio ao mundo no ano da Proclamação da República do Brasil. A casa onde nasceu ficava na Avenida 15 de Novembro, em frente à Praça da Polícia, residência de seus pais, José Barbosa Marques e Maria Marques, naturais do Ceará. Foi ainda na Avenida 15 de Novembro, casa 609, que Pompílio, já dono do seu nariz, montou residência e viveu com a esposa, Dona Joana Infanta, criando sete filhos: Melquiades, Marcílio, Menésio, Maildes, Margarida, Santina e Raimundo.  Todos assinando sobrenome “Barbosa Marques”.

Visto dessa forma, o espírito republicano foi um signo marcante na vida de Pompílio, quem sabe, a nortear sua vida de um autêntico servidor público “republicano”!

Seus irmãos: Abílio José Marques, músico e funcionário da Intendência de Itacoatiara; José Marques, caixeiro-viajante e representante na compra de produtos regionais das firmas itacoatiarenses Izagui & Cia e Antônio Adonias; Joaquim José Marques, um dos fundadores da Associação dos Estivadores de Itacoatiara, que mais tarde se tornou sindicato; Amélia Marques, de prendas domésticas, casada com o Major Umbelino, da Polícia Militar do Amazonas.

Paraná do Raminho: comerciante

Depois de casar com Joana Infanta Marques, em 1925, Pompílio passou a exercer atividade mercantil.  Em 1928, mudou-se de Itacoatiara para o Paraná do Raminho, município de Urucurituba, onde montou “casa de aviamento”, como eram conhecidas as casas comerciais que atendiam o interior.  Vendia tecidos, mantimentos, instrumentos agrícolas, querosene, e outras mercadorias de primeira necessidade. Comprava os produtos regionais, tais como, pirarucu-seco, borracha, sorva, castanha, farinha, cacau, paneiros, “cascos de itaúba”, óleos vegetais (copaíba, andiroba) e óleos animais (tartaruga, peixe-boi). Comerciava na base do escambo, prática comum, na época. O intercâmbio era feito com as firmas Marcelino de Souza e Oscar Ramos, praça de Itacoatiara, e com as inesquecíveis “Barcas do Pará’.

Permaneceu ali até o ano de 1935.

Paranazinho do Pai Tomaz: comerciante e administrador do Cacoal São José do Egito

Em 1936, se transferiu para o Paranazinho do Pai Tomas, na boca de baixo, Município de Silves, onde continuou exercendo o comércio de aviamento.  Também passou a administrar um cacaual por nome de São José de Egito, com oito mil pés de cacaueiros, de propriedade do Monsenhor Joaquim Pereira, conhecido por Padre Pereira, Vigário da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, com sede em Itacoatiara.

A administração do cacaual foi realizada por cinco anos, em regime de sociedade com o lusitano Joaquim Fernandes, proprietário de uma casa comercial localizada na Boca do Igarapé do Carão, município de Itacoatiara, conterrâneo e amigo do sacerdote.

Subdelegado pelo município de Silves

Durante o tempo em que morou no Paranazinho do Pai Tomaz (1936 a 1940), exerceu também a função de Subdelegado de Polícia, para aquela região, nomeado pela autoridade policial do município de Silves, cargo relevante para vida comunitária da época, só o exercendo pessoa de confiança e prestígio.  Função não remunerada, tendo apenas caráter de honraria.

Itacoatiara: Inspetor Fiscal do Município

Atendendo convite do prefeito Alexandre Antunes, voltou Pompílio a morar na sede de Itacoatiara, para exercer a função de Inspetor Fiscal do Município, cargo que consistia em supervisionar as atividades dos fiscais, que recolhiam os tributos dos comerciantes e proprietários instalados no interior do município.

Pompílio visitava rotineiramente todos os pontos do município. Destaque-se que, naquela época, havia considerável movimentação comercial no Interior amazonense relacionada ao extrativismo, à caça e à pesca.  Grandes casas comerciais procuravam se localizar no Interior, próximas aos filões do extrativismo. Atraiam as importações de mercadorias das praças de Belém e Manaus, e, em contrapartida, exportavam os produtos regionais.

Verdadeira efervescência econômica que fazia vir do Interior dos municípios – e não das sedes municipais – o maior percentual dos tributos arrecadados. É bom lembrar que, na época, a área do município de Itacoatiara era superior à atual, abrangendo parte do que é hoje os municípios de Nova Olinda do Norte, Autazes, Careiro e Rio Preto da Eva.

Encarregado do levantamento geográfico e estatístico

Por conhecer toda a região, Pompílio foi encarregado de realizar o levantamento geográfico e estatístico do município, utilizando uma embarcação. Essa atividade consistiu em mapear e identificar os nomes de lugares, vilas, ilhas, paranás, furos, igarapés; registrar as distâncias entre as localidades e a partir da sede municipal, adotando, como base, as horas de viagem entre um ponto e outro; declarar as localizações das casas comerciais e seus respectivos portes de negócios; levantar os quantitativos alcançados pela extração da castanha, borracha, cacau, cumaru e outros produtos regionais; inventariar os dados sobre rebanhos e produção pesqueira.

Registre-se que o “pirarucu-seco” tinha destaque na cotação, sendo exportado em grande escala para o Estado do Pará.

Trabalhou por essa época com Pompílio, na função de motorista da embarcação, o popular Jurandir Mendonça.

Incentivador do plantio da juta

Coube a Pompílio a tarefa pioneira de sair pelas várzeas e beiradões dos municípios de Itacoatiara, Silves, Itapiranga e Urucurituba, levando as primeiras sementes da juta e passando as informações aos ribeirinhos, desde a maneira de fazer o roçado, limpeza da área, plantio, conservação, colheita e enfardamento da fibra.  Isso aconteceu com a chegada, em Itacoatiara, de uma casa comercial chamada de “Sol Nascente”, que se instalou na rua da frente da cidade, entre a Rua Monsenhor Pereira e a Boulevard Getúlio Vargas.  Os proprietários desse comércio, os nipônicos Tamay e Minami, em um acerto com o prefeito, resolveram incentivar o cultivo da juta na região.

Pompílio foi incumbido de ficar à frente desse trabalho, devido ao seu prestígio junto aos habitantes do interior e o seu trato pessoal que o colocava à altura da missão.  Aliás, de grande êxito, pois, o município de Itacoatiara se transformou num grande produtor de fibra de juta, inaugurando um novo ciclo econômico.

Encarregado da construção do “campo de aviação” 

Em 1940, Pompílio comandou 180 homens, na função de “Encarregado de Pessoal”, na construção do primeiro aeroporto de Itacoatiara, denominado “Campo de Aviação”.  O trabalhou durou dois anos, desde o serviço de desmatamento, encoivaramento, destocamento, plantio de capim e sinalização. Foi executado com primitivas ferramentas: machados, terçados, alvião, enxadas, alfanjes, picaretas e pás.

Foi construído o “Abrigo dos Oficiais”, que passavam em missões por Itacoatiara, nas aeronaves da Força Aérea Brasileira – FAB.

Parte da construção serviu para abrigar a APAE – Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – APAE – sede antiga, próximo à Câmara Municipal de Vereadores.

O “Campo da Aviação” cedeu seu lugar para a expansão da cidade.  Lá, hoje, estão localizados: a Companhia Energética do Amazonas, o Conjunto Residencial da SHAM, o Conjunto Residencial Novo Horizonte, a Associação Atlética Banco do Brasil.

Tinha 120 metros de largura por 1.200 metros de comprimento, recebendo aeronaves militares e comerciais.

Encarregado da implantação da primeira rede de distribuição de água 

Em 1950, Pompílio foi designado para dirigir os trabalhos de implantação da primeira rede de distribuição de água encanada de Itacoatiara. Tratava-se de um convênio internacional, firmado entre os governos brasileiro e americano. Do lado dos americanos a fiscalização fora realizada por Mister Grafiner.

Desse convênio resultou: a construção do primeiro hospital de Itacoatiara, o SESP; a construção da Caixa D’Água, situada na Rua 5 de Setembro; a construção do primeiro poço para o abastecimento de água, situado na Rua Manaus; a instalação da primeira rede de água encanada, no trecho urbano entre a Rua Manaus e a Rua 15 de Novembro.

Também nessa época, foram incentivadas as construções de “casinhas sanitárias”, nos fundos dos quintais das residências.

Administrador do Campo da Aviação 

Com a fundação do Aeroclube de Itacoatiara, Pompílio retornou para trabalhar no Campo de Aviação, agora como administrador, por designação do executivo municipal.

Sob sua administração, foi construído um “hangar” para os aviões pertencentes ao Aeroclube, que serviam para treinamento de jovens itacoatiarenses, aspirantes à arte de pilotar. As instruções eram ministradas por oficiais da Aeronáutica que vinham a Itacoatiara para tal finalidade.

Pompílio foi promovido a “Guarda de Campo”, sendo o primeiro funcionário da COMARA em terras municipais, servidor federal, subordinado à Comissão de Aeroportos da Região Amazônica, sediada em Belém do Pará.

Antecedentes para instalação do aeroporto do Guajará

Com o crescimento da cidade, a Força Aérea estava estudando a mudança do Campo de Aviação para outra área.  Estiveram em Itacoatiara oficiais da Aeronáutica, falando com o prefeito Teodorico Nunes, que alegou que o município não tinha mais terras disponíveis e que as áreas ao redor da cidade pertenciam a particulares.  De volta da reunião, os oficiais, desanimados com a atitude do prefeito, falaram a Pompílio que o novo campo de aviação seria construído na cidade de Parintins, porque Itacoatiara não estava colaborando.

Naquela época, o Campo de Aviação era um local frequentado por muita gente, para saber das novidades, quem chegava, quem viajava.  E, entre tantos populares presentes na ocasião, estava o Candinho Barros, que ouviu discretamente a conversa dos militares e chamou Pompílio à parte, dizendo-lhe que estava disposto a falar com a família dele – Família Barros – sobre o “Guajará”, caso o local pudesse servir para o novo campo.

Pompílio, sem perda de tempo, apresentou Candinho aos oficiais e estes arranjaram na mesma hora uma embarcação para olharem o terreno. O certo é que o assunto foi resolvido com a Família Barros cedendo o terreno para a construção do atual aeroporto de Itacoatiara.

Fica registrada a intrepidez de um conterrâneo, seu sentido de oportunidade nesse episódio histórico: Candinho Barros.

Última trincheira

Pompílio foi transferido para o novo Campo de Aviação do Guajará, exercendo suas atividades rotineiras até 27 de março de 1962, quando se aposentou como Guarda de Campo, código CL, 203, 8.ª Ref. Base, do Q. F, nível 8, do Ministério da Aeronáutica.

O topônimo

O empresário Moysés Israel, proprietário de grandes áreas em Itacoatiara, registrou um loteamento que se tornou o Bairro Jauary-II. A idéia de dar nomes às ruas, em vez de números, partiu do Cleuter Mendonça, numa descontraída conversa com Marcílio Marques (segundo filho de Pompílio), responsável pelo loteamento. E assim foi feito e aprovado. Muitos nomes foram lembrados, entre eles o de Pompílio Marques.

Quitó: o herói da Rodovia Manaus-Itacoatiara

Quando Pompílio administrava o Campo de Aviação, aconteceu um trágico acidente aéreo, envolvendo uma das figuras políticas mais populares do seu tempo, o deputado estadual Antonio Vital de Mendonça, carinhosamente chamado de Quitó.

O deputado, representante do município de Itacoatiara na Assembleia Legislativa do Estado, fazia uma viagem de reconhecimento do trecho entre Manaus a Itacoatiara com vistas à construção da Rodovia AM-010.  Viajava num pequeno avião, conhecido como “teco-teco”, para quatro passageiros. Ocupavam a aeronave o deputado, o piloto, o co-piloto, e o engenheiro responsável pela elaboração do projeto inicial. A pequena aeronave aterrissou tranquilamente. Os viajantes descansaram por algum tempo e partiram de volta à Capital.

O popular Cirino, garoto à época, estava no campo de aviação, e alguém lhe pediu para comprar água mineral para o deputado e seus companheiros.  Só que Cirino estava demorando e eles resolveram ir embora.

O avião caiu, logo após levantar vôo, no local onde hoje se encontra o Centro de Convenções. O enorme incêndio na mata ao entorno impediu os populares a prestar socorro às vítimas. Contam que a intensidade do calor provocado pelas chamas impedia a aproximação.

Não se soube a causa da explosão que queimou o avião completamente, vitimando os seus quatro ocupantes, que morreram carbonizados e ficaram irreconhecíveis.

Era o dia 9 de agosto de 1954.

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Alírio Marques
Alírio Marques, advogado e compositor, natural de Itacoatiara.

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