*Martin Wolf

As reformas estruturais em que deveríamos estar pensando são mais difíceis do que a sabedoria convencional imagina.

FINANCIAL TIMES

Os bancos centrais deveriam fazer algo sobre a desigualdade? Nesse caso, o quê? Este se tornou um tema quente, o que convenceu o Banco de Compensações Internacionais (BIS na sigla em inglês) a enfocá-lo em seu último relatório anual. Suas conclusões são as esperadas: a política monetária não é a principal causa de desigualdade, nem uma cura para ela. De modo geral, isso está correto. Mas, em um mundo onde os presidentes de bancos centrais se tornaram atores tão agressivos, talvez não seja suficiente.

Um fato marcante comentado pelo BIS é que desde o que ele chama de “Grande Crise Financeira”, a porcentagem de discursos de banqueiros centrais que mencionaram a desigualdade disparou. Isso reflete em parte uma maior preocupação política com a desigualdade. Mas também reflete uma crítica específica. Esta é, nas palavras do relatório, que “os bancos centrais utilizaram políticas que incluíam taxas de juros excepcionalmente baixas e o extenso uso de balancetes para apoiar a atividade econômica e reduzir o desemprego. Tais medidas alimentaram preocupações de que os atos dos bancos centrais, ao reforçar os preços dos ativos, beneficiaram principalmente os ricos”. Essa crítica é popular entre conservadores que detestam bancos centrais ativistas.

Desigualdade desafia metas de desenvolvimento sustentável em São Paulo (SP)

Canos de casas do Jardim Julieta, uma ocupação na zona norte de São Paulo, despejam esgoto diretamente em um córrego Lalo de Almeida/Folhapress

Moradores de rua dormem embaixo do viaduto Santa Efigênia, no centro de São Paulo Lalo de Almeida/Folhapress

Mas também há uma crítica oposta de pessoas que censuram os bancos centrais por não serem ativistas o suficiente. As pessoas desse campo afirmam que o erro foi ser passivo demais, deixando a inflação permanecer baixa demais e os mercados de trabalho fracos demais. Atualmente, os bancos centrais, até mesmo o Banco Central Europeu, estão muito mais próximos dessa posição do que da mais conservadora. Os bancos centrais, poderíamos afirmar, tornaram-se mais que um pouco “despertos”.

Esse é um debate importante, tratando da legitimidade e das consequências do que os bancos centrais estão fazendo, especialmente nesta era de crises. A visão do próprio BIS é tripla. Primeiro, o aumento da desigualdade desde 1980 é “amplamente devido a fatores estruturais, muito fora do alcance da política monetária, e é melhor abordado por políticas fiscais e estruturais”. Segundo, ao cumprir sua missão monetária, os bancos centrais podem reduzir o impacto de choques em curto prazo ao bem-estar econômico causados pela inflação, as crises financeiras e, sem dúvida, por choques reais (como pandemias). Finalmente, os bancos centrais também podem fazer algo sobre a desigualdade com boa regulação prudencial, promovendo o desenvolvimento financeiro e a inclusão e garantindo pagamentos seguros e efetivos.

Tudo isso é sensato, até onde alcança. Está claro, por exemplo, que a queda das taxas de juros reais e as políticas monetárias fáceis tenderam a aumentar os preços dos ativos, beneficiando os mais ricos. Mas, de maneira interessante, o impacto medido sobre a desigualdade de riqueza não foi tão dramático quanto se poderia esperar. Mais importante, não faria sentido adotar uma política monetária deliberadamente mais restritiva somente para baixar os preços dos ativos. Isso teria reduzido a atividade e aumentado o desemprego. Essa é a pior coisa que poderia acontecer para as pessoas que dependem de salários para viver. Enquanto isso, como a maioria das pessoas, que quase não possuem ativos, ficaria melhor porque os bilionários estavam um pouco mais pobres? Seria loucura os bancos centrais causarem crises para reduzir os preços dos ativos.

Uma preocupação mais relevante é levantada pela exigência contemporânea dominante de “aquecer a economia”. Isso levanta dois perigos reais (e possivelmente relacionados): inflação e instabilidade financeira.

Sobre a primeira, os proponentes dessa abordagem afirmam que não se pode saber onde está o risco de inflação significativa sem pressionar a economia não apenas até o limite, mas além dele. Mas isso também poderia se mostrar dispendioso se, como temem alguns, a inflação subir e aquele excesso se mostrar muito caro para reverter.

Sobre a segunda, espera-se que uma regulação sofisticada contenha a instabilidade financeira, mesmo no ambiente monetário mais fácil imaginável. Isso poderia ser verdade, sob uma regulação ideal. Mas a regulação nunca é ideal. Além disso, já é fácil identificar vulnerabilidades, notadamente no setor financeiro não bancário. Há dívida demais, simplesmente. Isso pode estar bem se as taxas de juros continuarem baixas. Mas continuarão? Enfocar os resultados, e não as previsões, torna isso menos provável.

Como funciona o Copom e para que serve a taxa básica de juros

O Copom (Comitê de Política Monetária) é o órgão do Banco Central, formado pelo seu presidente e diretores, que define a cada 45 dias a taxa básica de juros da economia, a Selic

A Selic é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo BC para controlar a inflação. Ela influencia todas as taxas de juros do país, como os juros dos empréstimos, dos financiamentos e das aplicações financeiras Marcelo Camargo/Agência Brasil

Onde o BIS está claramente certo é em que as políticas fiscais e estruturais são a principal maneira de abordar a desigualdade. De fato, alguns países de alta renda são muito eficazes em usar as primeiras dessa maneira. O grande contraste entre os Estados Unidos e outros países de alta renda na desigualdade de renda, por exemplo, está na relativa ausência de redistribuição no primeiro. Em algumas grandes economias emergentes, há pouca redistribuição, especialmente na China, supostamente socialista.

A política estrutural é uma questão ainda mais complexa. Com frequência, é apenas um sinônimo de liberalização do mercado. Mas a liberalização financeira certamente aumentou a desigualdade e a instabilidade financeira. Assim, uma boa reforma estrutural quase certamente tentaria restringir as finanças. De maneira semelhante, nos mercados de trabalho com monopsônios importantes, a desregulamentação do mercado de trabalho poderia ser ruim para o desemprego e a desigualdade. Além disso, o aumento da desigualdade é quase certamente um fator na criação de demanda estruturalmente fraca que explica as taxas de juros reais em queda e o maior endividamento característico de nossa era de “estagnação secular”. Por todos esses motivos, as reformas estruturais em que deveríamos estar pensando são mais difíceis do que a sabedoria convencional imagina.

O BIS está certo em que a política monetária não pode resolver a desigualdade. Ela só pode visar a instabilidade macroeconômica geral. Mesmo isso é difícil de alcançar, dada a nossa dependência crônica da política monetária expansionista. Nesse contexto, o excesso financeiro certamente ressurgirá, tornando a regulação um jogo interminável de “acertar a toupeira”. O BIS está certo em pedir reformas estruturais radicais. Mas elas têm de ser do tipo certo de reformas estruturais.

(Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves)

*Doutor em economia e comentarista-chefe de economia no Financial Times. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião de 29/06/2021.
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