Política de mobilidade integrada
Política de mobilidade integrada
claudio bernardes
*Claudio Bernardes

Distâncias percorridas vão dobrar até 2030 e modais de transporte terão de ser revistos.

O transporte urbano é a espinha dorsal da vida nas cidades. Todos os dias, os sistemas de transporte movimentam as pessoas para desempenharem suas atividades do dia a dia, e carregam mercadorias para o comércio e a indústria. A recente paralisação dos caminhoneiros nos ajudou a entender perfeitamente sua importância para as cidades.

Pesquisa publicada pela Arthur D. Little mostra que 64% das distâncias percorridas em viagens feitas em todos os continentes são em áreas urbanas, e essas distâncias devem triplicar até 2050. Essa explosão fará com que novos desafios se apresentem para os sistemas de transportes urbanos.

Segundo estudo publicado pelo MacKinsey Globe Institute, o crescimento populacional nas áreas urbanas aumentará sua densidade média pelo menos em 30% até 2030. Como consequência, a demanda por mobilidade deve praticamente dobrar, caso as distâncias percorridas por pessoa e os modelos de utilização de veículos próprios não se alterarem.

Contudo, esse cenário pode ser bastante diferente, pois mudanças relevantes devem acontecer em médio e longo prazos. A movimentação de pessoas e mercadorias nas cidades será fortemente influenciada por algumas tendências importantes. Veículos elétricos, mobilidade compartilhada, internet das coisas, veículos autônomos e descentralização dos sistemas de distribuição de cargas são alguns exemplos.

Cada uma dessas tendências é forte o bastante para causar um significativo impacto no sistema de transporte, mas a sua combinação poderá ampliar vigorosamente esses efeitos. A internet das coisas, que com a utilização de sensores e redes de conectividade processa rapidamente as informações, pode ser a plataforma ideal para fazer essa combinação alcançar seu melhor desempenho.

Estão em desenvolvimento, em várias cidades, aplicativos para smartphones que integram todos os modos de viagem, desde bicicletas compartilhadas até os vários sistemas públicos de transporte, permitindo ao usuário planejar o melhor roteiro para sua viagem, utilizando-se dos vários modais, e pagar de uma só vez.

Carro elétrico sendo recarregado em São Paulo - Eduardo Anizelli-Folhapress
Carro elétrico sendo recarregado em São Paulo – Eduardo Anizelli-Folhapress

Também serão realidade, a curto prazo, os semáforos inteligentes que medirão a temperatura e a poluição do ar, além da movimentação dos veículos, e poderão mudar os tempos de pausa de acordo com as condições de tráfego locais, inclusive privilegiando o transporte público.

Todas essas mudanças permitirão às pessoas se movimentarem com mais eficiência e menor custo. Por exemplo, segundo publicação da “Bloomberg Energy Finance”, se um consumidor estiver aberto a utilizar, em uma viagem, o sistema de compartilhamento com outro passageiro, e se for usado um veículo elétrico autônomo, o custo da viagem pode ser até 60% mais barato do que aquela feita em veículo próprio.

Diferentes combinações funcionarão para diferentes tipos e formatos de cidades, que deverão determinar as soluções que melhor se aplicam às suas realidades e necessidades, e com que velocidade poderão ser implantadas. Contudo, cidades mais ricas e mais densas deverão estar na vanguarda dessas mudanças, por existirem ali melhores condições para investimento em planejamento e tecnologia de ponta.

Dentro desse mais amplo contexto de alternativas, cabe ao poder público abraçar como política de transportes essa perspectiva integrada, ao invés de analisar isoladamente as tendências de mobilidade urbana disponíveis.

A cuidadosa avaliação das interdependências é crucial para o entendimento do impacto potencial das mudanças, para a análise da relação custo-benefício, e para o estabelecimento de diretrizes que equilibrem os efeitos positivos e adversos de uma política de mobilidade integrada.

*Engenheiro Civil. Artigo na Folha de São Paulo, de 18/06/2018.
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