O clima da Amazônia, já dizia Euclides da Cunha, é um clima caluniado. E claro que não se deseja fazer a defesa do clima de Manaus, com suas ruas’ asfaltadas e milhares de aparelhos de ar-condicionado, que aumentam bastante a temperatura da cidade e faz de um simples caminhar nas ruas uma tortura insuportável. 

Aqui estamos nos referindo aos rios, aos paranás e igapós. O cientista Agassis, assim se pronunciou: “O clima de que gozamos causa-nos surpresas das mais agradáveis. Esperava sempre viver, desde que estivéssemos na região amazônica, debaixo de um calor aflitivo, ininterrupto, intolerável. Longe disso: as manhãs são frescas. Se realmente ao meio dia o calor é realmente muito grande, ele diminui para as quatro horas; as tardes são realmente agradáveis e a temperatura das noites nunca é incomoda. Quando mesmo, no correr do dia, ela é mais forte, o calor não é sufocante; sempre uma brisa sopra levemente”.

Wallace escreveu que o clima era delicioso: “As manhãs e as tardes eram agradavelmente frescas e geralmente tínhamos uma chuva e uma brisa ligeira, que refrescavam muito e purificavam o ar, e é maravilhosa a frescura e transparência da atmosfera, a doçura balsâmica das tardes. Clima que não tive igual em nenhum dos países que visitei e que, aqui, pude trabalhar como nos meses quentes da Inglaterra”.

Henry Coudrau declarou: “O Amazonas, clima e meio de certo modo idênticos, é um vasto mundo que não respira senão a riqueza e a felicidade”. Henry Bates, que esteve onze anos na região, não se refreia nos elogios ao clima, declarando que ingleses, habitando a 20 e 30 anos, davam-se tão bem como no seu país natal. Outro fator que torna o clima mais ameno, é a chuva. Dizem que na Amazônia há duas estações, aquela que chove todos os dias e aquela que chove o dia todo. O período chuvoso começa na parte meridional da bacia amazônica, caminhando para o norte, gastando nesse percurso, cerca de seis meses, razão pela qual, enquanto os afluentes esquerda vazam, enchem os da direita, alternadamente. E não poderia ser de outra forma, já que a bacia amazônica cobre uma área que se estende por 15 graus, de norte pa ra sul, e que a Amazônia tem terras nos dois hemisférios. Nas vertentes da Bolívia, na planura elevada do norte do Brasil, as chuvas caem em setembro. Na planura da Guiana, pelo contrário, as chuvas caem em março. Nesse intervalo de seis meses, engrossam alternada mente os afluentes da direita e da esquerda. A baixada das águas dos rios assinala o começo do verão na linha média do vale, de junho a fim de outubro.

As Anavilhanas estão nessa linha média. Mas as estações, que poucas diferenças apresentam em termos de temperatura, caracterizam-se não pela completa ausência de chuva, mas somente pela diminuição e constância dos ventos gerais. O índice pluviométrico acusa mais 1.000 milímetros de precipitação entre dezembro e março, ao passo que entre agosto a novembro, se reduz a pouco mais de 100. O chamado inverno é mais longo que o estio e as precipitações atmosféricas acontecem em mais de 150 dias por ano. O que faz da região uma das mais chuvosas do planeta, e o fenômeno é em grande parte motivado pela própria evaporação dos grandes rios, já que apenas uma sexta parte dessas chuvas chegam do oceano. “As chuvas – escreve o Dr. Alfredo da Matta -, imprimem uma particularidade assás interessante na climatologia do Amazonas; é também função característica no vale do Rio Mar. Chove de Janeiro a dezembro: daí a inexistência de estações no Amazonas, onde ocorrem duas grandes quadras, uma de chuvas abundantes e outra simulando seca. Este vocábulo não poderá ser aplicado com rigorismo, mas sim para assinalar que as chuvas não são numerosas nesta quadra, nem constituem bátegas longas com ligeiras estiadas”. Assim, nossa terra é de chuva e às vezes, de calor.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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