Há muito tempo fui questionado pelo meu filho mais novo, o Rod, o qual sempre levantou questões instigantes, sobre se seria possível mudar o passado. Ele exemplificou: “Alguém fez um mal a você ou você fez um mal alguém. Como modificar isso?” Hoje, quando celebramos a Páscoa Cristã, lembrei-me da resposta que dei e gostaria de compartilhá-la com os queridos amigos e leitores.

O passado, por ser um fato, disse-lhe, não se pode alterar. Aconteceu, aconteceu. Teremos de lidar com ele e com as suas consequências.

O desejado é que nunca causemos mal a ninguém e que nunca ninguém nos cause o mal. Infelizmente a realidade é muito diversa e as pessoas machucam, em maioria física ou psicologicamente, umas às outras… O bullying nas escolas, o assédio moral no trabalho, a violência doméstica e tantas outras infrações mais ou menos graves às regras de convivência social, constituem o triste retrato de todos os tempos e, especialmente, de nossos dias.

O que fazer, então, para não ser algoz e nem vítima? No primeiro caso, cultivar as virtudes, a prática do bem, procurar o nosso aperfeiçoamento espiritual e contribuir, assim lapidados internamente, para a melhoria das pessoas e do espaço em que estivermos inseridos. No segundo caso, adotar uma postura de eterna vigilância, de autodefesa, evitando lugares, hábitos e companhias pouco recomendadas. Há uma vertente da ciência criminal, a “vitimologia”, que estuda, dentre outras coisas, aqueles comportamentos que nos deixam mais vulneráveis. Muitos desses cuidados, inclusive, são os alertas dados pelos nossos pais: não confiar em estranhos, não estar nas ruas tarde da noite, não andar em lugares desconhecidos ou ermos, não beber demais e nem aceitar bebidas que estejam abertas ou que não se saiba a procedência, não usar drogas, comunicar sempre os nossos passos e por aí vai… Tudo isso, porém, até porque somos humanos, temos as nossas fraquezas, que são muitas, não nos garantirão imunidade. O mais provável é que, num ou noutro polo dos acontecimentos, eventualmente nos vejamos envolvidos.

E aí, quais seriam, então, os remédios para “mudar o passado”, já que o passado não pode ser mudado? O que fazer? Agir sobre ele, com uma de duas condutas. Se formos vítimas de uma injustiça, de um mal, o caminho é perdoar, que é um gesto mais sublime e mais difícil do que amar, e seguir em frente. Se formos os agentes do mal, resta-nos o arrependimento, com a assunção, no mundo terreno, das responsabilidades pelos prejuízos que causamos.

A propósito, invoco dois ensinamentos hauridos da linda e edificante história do mestre Jesus, o justo por excelência, o inocente que, mesmo açoitado, humilhado e nos seus últimos suspiros, rogou ao pai: “Perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”.  E de Dimas, o “bom ladrão”, que arrependido, ao contrário de Gestas, pediu, dirigindo-se ao Cristo: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares na glória do teu reino”. E ouviu do Salvador o sublime decreto da libertação espiritual destinado tanto àqueles que perdoam quanto aos que se arrependem: “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso”.  Ambas as atitudes podem não mudar o passado, mas mudam, quando feitos com sinceridade d’alma, os homens e mulheres que já fomos um dia, os quais, tocados pelo Espírito Santo de Deus, ressurgem para um convívio sadio com seus irmãos de humanidade e se qualificam para obtenção da prometida e almejada vida eterna.

Feliz Páscoa.

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Júlio Antônio Lopes
*Amazonense de Manaus, Advogado, jornalista, escritor e editor. Em âmbito regional é membro da Academia Amazonense de Letras; do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas; da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas - seu atual presidente; da Academia de Letras do Brasil-Am; da Academia de Letras e Culturas da Amazônia; da Associação dos Escritores do Amazonas; e da Associação Brasileira de Poetas e Escritores PanAmazônicos. Idealizador e fundador da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas - a Casa de Bernardo Cabral. Integra, como membro efetivo, a Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas; a Academia Internacional de Jurisprudência e Direito Comparado; a Confraria Dom Quixote; a Associação Nacional dos Escritores, sendo, ainda, sócio correspondente da Academia Carioca de Letras; e da Academia Cearense de Direito;) e sócio honorário da Academia Paraibana de Letras Jurídicas. Faz parte também do Conselho Consultivo da Academia Brasileira de Direito.

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