*Tostão

Rei tinha, no mais alto nível, todas as qualidades técnicas, físicas e emocionais.

Na sexta (23), Pelé completa 80 anos. Nelson Rodrigues, com seu delicioso exagero, dizia que a maior qualidade de Pelé era a “imodéstia absoluta”, a certeza de ser muito superior a todos. Nelson dizia ainda que a bola o procurava, com a humildade de uma cadelinha.

Pelé sabia que era o melhor, mas também que precisava dos companheiros para brilhar intensamente. Escutava também opiniões. Contra a Inglaterra, no Mundial de 1970, ele estava muito marcado. Cheguei até ele e falei: “Por que você não muda de lado”? Ele me olhou e, com seus olhos vivos, me perguntou: “Você acha”? Afirmei que sim. Ele foi para a esquerda, e atuou melhor.

Nós todos, coadjuvantes, precisávamos ajudá-lo, pois sabíamos que, quanto mais ele se destacasse, seria ótimo para a equipe e melhoraria a atuação de todos. Isso é jogo coletivo. Um necessita do outro. O restante é conversa fiada.

Conheci Pelé, fora dos gramados, quando começaram os treinamentos para o vexame da Copa de 1966, quando o Brasil foi eliminado na primeira fase. A apresentação foi em Lambari, no interior de Minas Gerais, seguida por dezenas de outras cidades por todo o Brasil. Foi uma estratégia da ditadura para agradar políticos e governantes.

Em Caxambu, outra cidade mineira, houve um jogo-treino contra o Cruzeiro. Meu pai foi de ônibus, com a delegação do time mineiro. Foi me ver e queria conhecer Pelé. Apresentei-o ao Rei, que deu um longo abraço em meu pai, que, emocionado, chorou. Não é todo dia que um súdito conhece o rei.

Vivi, ao lado de Pelé, dois momentos emocionantes, um triste e outro alegre. O triste, no dia seguinte à eliminação da Copa de 1966, na volta da seleção, de trem, ao seu lado, de Liverpool, onde a seleção ficou concentrada, para Londres, onde pegaríamos o avião para o Brasil. Estávamos todos muito tristes. Um grande silêncio. Pelé parecia que queria me dizer: “Daqui a quatro anos será diferente”.

O outro momento, alegre, foi logo após o fim do jogo contra a Itália, em 1970. Pelé, além de conquistar mais um grande título, estava eufórico, porque tudo tinha dado certo. O Brasil venceu, deu show, e Pelé, que, antes do Mundial, começava a ser criticado porque estaria em decadência, mostrou, para sempre, que era o maior de todos os tempos.

Antes de a bola chegar, Pelé me olhava como se quisesse me dizer tudo o que iria fazer. E fazia. Eu tentava acompanhá-lo, ajudá-lo. A comunicação analógica, pelo olhar, pelos movimentos do corpo, é menos precisa que a digital, porém riquíssima. O corpo não mente.

José Miguel Wisnik, em seu excepcional livro “Veneno Remédio: o futebol e o Brasil”, escreveu: “Pelé parece funcionar em uma frequência diferente da dos demais jogadores, como se ele tivesse mais tempo para pensar e ver o que se passa, assistindo, em câmera lenta, ao mesmo jogo do qual está participando, em altíssima velocidade, enquanto os outros, em torno dele, parecem estar assistindo ao jogo em altíssima velocidade e jogando em câmera lenta”.

Pelé tinha, no mais alto nível, todas as qualidades técnicas, físicas e emocionais para ser um superatacante. Por isso, era o melhor. Diante das dificuldades, se tornava possesso, uma fera cutucada e enjaulada. Messi não tem as virtudes físicas e emocionais de Pelé, e Cristiano Ronaldo não possui a fantasia, a inventividade, e não dá tantos passes decisivos quanto o Rei. A perfeição existe? Seria Pelé perfeito?

*Médico. Ex-jogador da Seleção brasileira de futebol. Artigo na Folha de São Paulo, de 21/10/2020.
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