fernanda torres
*Fernanda Torres

A morte do ator e humorista é o retrato triste de um país que desistiu de ser alegre e cordial.

Artistas não são mais nem menos importantes do que médicos, políticos, garis ou professores. Mas sua profissão consiste em espelhar aquilo que reconhecemos como humano, em nos irmanar no gozo e na aflição. Daí o luto coletivo que experimentamos quando um deles nos deixa.

Eu ainda era criança quando um derrame cerebral tirou a vida de Cacilda Becker. A inconformidade com a morte de uma mulher daquela envergadura, aos 48 anos, no auge de sua potência, suscitou o brado “viva Cacilda Becker!”.

Caetano Veloso o lançou, em meio a vaias, no Festival da Canção de 1968, e ainda hoje o repetimos como afirmação tanto da imortalidade da atriz quanto da arte.

Dentre todos os acasos funestos que vez por outra nos assombram, nenhum se compara ao trágico desaparecimento de Leila Diniz, aos 27 anos, vítima de acidente aéreo.

Leila era todas as mulheres do mundo: a namorada, a mulher e a mãe, eternizada na barriga imensa exposta pelo biquíni. Leila foi o Carnaval e a praia, o amor carnal e o romântico. Não há teoria, palavra ou prece que dê conta de tão absurda ausência. Todos os que a amaram morreram, um pouco, com ela.

Leila encarnou a revolução de costumes que, finda a ditadura, eu e os meus poríamos em prática, não fosse a aparição de um vírus hediondo. Quando completei 18 anos, a Aids se abateu sobre o planeta, transformando o sexo em risco e paranoia.

A peste levou Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, em 7 de julho de 1990. No mesmo dia, a Legião Urbana fez um show, no Jockey Club do Rio, para 60 mil espectadores. Eu estava entre eles e testemunhei a homenagem de Renato Russo ao amigo e colega.

“Eu vou falar de mim. Eu tenho mais ou menos 30 anos. Eu sou do signo de Áries. Eu nasci no Rio de Janeiro. Eu gosto da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Eu gosto de beber pra caramba de vez em quando. […] Eu gosto de meninas, mas eu também gosto de meninos. Todo mundo diz que eu sou meio louco. Eu sou um cantor numa banda de rock’n’roll. Eu sou letrista e algumas pessoas dizem que eu sou poeta.”

“Agora eu vou falar de um carinha. Ele tem 30 anos. Ele é do signo de Áries. Ele nasceu no Rio de Janeiro. Ele gosta da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Ele é meio louco. Ele gosta de beber pra caramba. Ele é cantor numa banda de rock. Ele é letrista. E eu digo, ele é poeta.”

Renato já sabia, ali, ser portador do HIV. Seis anos depois, seria a sua vez de partir.

Assim como com Cacilda e Leila, parte de Dado e de Bonfá, dos Paralamas, dos Titãs, do Barão, dos 60 mil presentes e de todos os que viveram aquela hora, feneceu com os dois.

Felipe Pinheiro não era astro de rock, não possuía a nobreza de Cacilda nem a divindade mundana de Leila.

Ator, roteirista e escritor, Felipe foi o grande parceiro de palco de Pedro Cardoso e o meu maior amigo. Ele fez parte do movimento apelidado de besteirol, o BRock das artes cênicas, e morreu em 1993, com a idade de Cristo.

A morte dele marca o fim da minha mocidade. Considero contemporâneos todos aqueles que a ele assistiram. Os que não ou eram velhos demais para entendê-lo ou jovens demais para entrar na sessão de meia-noite de “Bar Doce Bar”, no Teatro Cândido Mendes.

Não tenho como traduzi-lo e, até hoje, sinto uma falta incurável dele. Para os que quiserem conhecer a inteligência vira-lata desse espírito do meu tempo, aconselho a leitura da compilação de seus textos, editada pela e-galáxia, no recém lançado “O Demitido”.

Imagens do ator Paulo Gustavo

Paulo Gustavo Instagram/paulogustavo31

Paulo Gustavo com os filhos Romeu, Gael e o marido Thales Instagram/paulogustavo31

Paulo Gustavo com a apresentadora Angelica Instagram/paulogustavo31

A morte de Paulo Gustavo se reflete em todas as ausências aqui descritas. Para os herdeiros do besteirol, Porchat, Adnet, Gregorio, Majella, Lobianco, Ingrid, Mônica, Caruso, Katiuscia, Raphael e Tabet, Paulo é o que Felipe foi para mim.

Sua partida marca a entrada deles na maturidade, na consciência da brevidade da vida e da fragilidade humana.

Para a legião urbana de fãs que conquistou, Paulo foi Cazuza e foi Renato, o ídolo pop do pedaço, o senhor de mil Jockeys. Para o teatro, a despedida de Paulo é o vazio de Cacilda em cena. Para os meninos que gostam de meninos e meninas, para o marido, Thales, e os filhos, Romeu e Gael, Paulo foi e sempre será Leila.

Para o Brasil, que deveria tê-lo vacinado, sua morte é o retrato triste de um país que desistiu de ser alegre e cordial.

Dona Déa Lúcia, obrigada por esse filho. Ele era mesmo fascinação.

Viva Cacilda Becker, viva Leila, viva Cazuza e Renato, viva Felipe Pinheiro e, para sempre, viva Paulo Gustavo!

P.S.: Carlito Carvalhosa, amigo imenso, artista imenso, o sujeito mais doce e inteligente, mais delicado e amado, a alma mais nobre que eu já conheci, acaba de partir. Não tenho palavras para dizer do orgulho de tê-lo conhecido. Levo comigo a sua eterna presença.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 15/05/2021.
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