A mídia, nos últimos dias, teve como tema central duas terríveis tragédias, uma em Paris, motivada por fanatismo religioso, intolerância e o outro aqui, no Brasil motivado pela usura, que não se importa com os prejuízos humanos, ecológicos e ambientais.

No primeiro ciclo da borracha Manaus viveu forte influência da cultura francesa principalmente sobre os nouveaux riches, donos do dinheiro que ganharam tomando as terras dos índios onde havia abundância da Hevea. Eles vestiam suas famílias com caríssimas roupas francesas e iam ao calorento teatro sem ar condicionado e sem desodorantes poderosos, assistir apresentações de textos (em francês), língua da qual só entendiam o “bon soir”. O hino da França (belíssimo) era cantado por quem não entendia nem a língua, nem o significado.

OS IDEAIS

Os ideais da Revolução Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade) nunca foram praticados no Brasil, a não ser o frágil direito da liberdade de votar em uma classe política da pior qualidade. O slogan tornou-se o grito de ativistas em prol da democracia social ou constitucional e da derrubada de governos opressores à sua realização. Isso, no entanto, só servia para o território francês, porque aqui, na América do Sul a França mantem, desde 1664, uma Colônia – Guiana Francesa – ou Territoire de L’Inini, com uma população de maioria creoles (mulatos) que vivem basicamente da pesca e da extração mineral. A capital é Caiena e a língua oficial é o francês, embora muita gente fale o dialeto creoulo e o patoá (mistura de creoulo com português). Pois bem, e prestem atenção, a Guiana não pode assinar o Tratado de Cooperação Amazônica, nem a OTCA, simplesmente porque não é uma Nação.

Esse cruel modelo colonialista surgiu através da Carta Patente da Rainha Elizabeth que, em 31/12/1600 autorizou a Companhia Inglesa das Índias Orientais a realizar negócios pelo mundo buscando o lucro de forma implacável.

O LIXO DOS ATENTADOS

Paris, além de chorar a morte de muita gente, vai retirar, rapidamente, o lixo das homenagens aos mortos, composto por flores, velas, cartazes, lembranças recicláveis e, neste final de semana os bairros boêmios estarão limpos para receber centenas de milhares de turistas e de euros. Do lado de cá, Mariana vai ter que conviver durante, mais ou menos um século para que o meio ambiente e os ecossistemas se recuperem.

A LAMA DE MARIANA

A empresa responsável pelo desastre de Mariana foi multada em ridículos R$300 milhões por uma presidente que sabe tanto de meio ambiente quanto sua Sinistra do setor. A empresa informou que a lama não era tóxica, mas as análises preliminares já mostram índices de ferro de até 1.366.666% acima do tolerável, concentração de manganês 118.000%, enquanto o alumínio está presente com concentração 645.000% maior do que o possível para tratamento e distribuição aos moradores. Os servidores da Prefeitura não têm condições técnicas para ônio natural perdido, tem o inestimável valor histórico de ter sido a primeira vila, cidade e capital do estado de Minas Gerais, em razão de ter, no século XVII uma das maiores produtoras de ouro para a coroa Portuguesa.

Não sou advogado e muito menos um grande advogado, mas sei ler, escrever e entendo o que leio na área das Ciências Naturais onde se insere a Ecologia e o Meio Ambiente que foram temas do meu Mestrado e Doutorado. A prova disso é meu curriculum vitae na Plataforma Lattes com mais de 90 páginas, além do reforço de ter sido incluído como Membro da Ordem Nacional do Mérito Científico.

Perdoem-me os que optaram por tingir suas fotos o Facebook com as cores francesas, mas gostei mais das pessoas que se cobriram de lama e foram para a frente da Vale do Rio Doce, no Rio sujar as paredes da empresa que já estão imundas de usura e de desrespeito ao Brasil aos brasileiros e à nossa natureza.   E como diz um princípio assentado na teoria do risco, o responsável pelo dano é aquele que tira lucro ou proveito derivados do dano e fundamenta-se no princípio do “ubi emolumentum ibi onus” = do lucro nasce o encargo.

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Ozório Fonseca
Biólogo, Mestre em Ecologia, Doutor em Ecologia e Recursos Naturais. Professor Visitante na UFRGS (1983-1995). Diretor do INPA (1995-1999), Professor da UFAM e da UEA. Membro Honorário da Academia Amazonense de Medicina; Membro Titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Filho do ex-prefeito de Itacoatiara Osório Alves da Fonseca (1889-1960) e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado em Itacoatiara. É o nosso querido mestre do Principado de Itacoatiara (título que conferiu à nossa cidade).

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